O BRASIL REALMENTE TEM INCENTIVO DEMAIS E CULTURA DE MENOS? ARTIGO DE ISAAC CARNEIRO VICTAL NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.




Acabo de ler um artigo na revista Concerto de autoria do editor seu Kunze e gostaria de colocá-lo diante de outro com visão diametralmente oposta, chamado Cultura é um Desperdício, publicado na Revista Veja 25 anos atrás, o autor é Diogo Mainardi.

Ambos textos se encaixam na polarização direita e esquerda. Na Concerto encontramos a reclamação de que organizações sociais milionárias precisariam de mais dinheiro público, "a sustentabilidade" "não pode se basear em variáveis de mercado". Já autor de direita chega a dizer "ninguém mandou você ser poeta, músico, pintor ou cineasta", ''Entre usar dinheiro público para financiar uma obra de arte e deixá-lo para ser surrupiado por um político ladrão, é menos danoso, culturalmente, deixá-lo para o político ladrão." Mainardi também disse "O barroco brasileiro nunca foi nem será arte". Ele usou afirmativamente a frase que no nosso título parece como interrogação.

O que Mainardi defende é nas palavras dele "se você não dispõe de dinheiro", não seja artista. Não se assustem, assim pensa boa parte da direita brasileira! Nelson Rubens Kunze, por sua vez, defende que 132 milhões em dinheiro público por ano para administrar o Municipal de SP é pouco. Para mim poderia até ser o triplo disso, mas a organização social que cuida desse palco não merece nem um terço do que já recebe!

O que nos interessa do ponto de vista da crítica, é se o Municipal de SP e a OSESP por exemplo, oferecem qualidade, avaliada sob critérios objetivos.

Por exemplo tanto os Municipais do Rio quanto o de SP no passado recebiam cantores solistas do primeiro escalão. No Municipal do Rio no início dos anos 50 participaram Maria Callas e Renata Tebaldi da mesma temporada. Também recebiam o elenco inteiro, orquestra, coro, solistas, de grandes teatros da Europa, para encenarem determinados títulos por aqui.

Desde quando me entendo por gente nunca vi essas coisas acontecerem por essas bandas, foi antes de eu nascer, mas na Argentina, no teatro Colón em 2018 Daniel Barenboim dirigiu Tristão e Isolda de Wagner com a Orquestra Estatal de Berlin e solistas internacionais. Aliás solistas de escala mundial nunca deixaram de aparecer nas produções desse teatro, tudo ao contrário daqui. A pergunta que me faço é por qual razão não temos isso no Municipal de SP? Tanto dinheiro público gasto nesse teatro de São Paulo para contratar os cantores da casa e encenar produções controversas! Exigimos qualidade e como pagadores de impostos, temos esse direito!

O mesmo questionamento faço quando enaltecem a OSESP e a Sala SP. Nosso blog é uma das poucas vozes a denunciar a pasmaceira em que essa orquestra caiu desde a saída de John Neschling, temos vários artigos aqui tratando disso. O nosso editor Ali Ayache já falou é inútil gastar fortunas promovendo apresentações pela Europa e Estados Unidos da OSESP, pois existem dezenas de conjuntos melhores que essa agrupação brasileira mundo afora.

Na Cidade do México por exemplo, maior que Buenos Aires e com o mesmo tamanho de SP além de economicamente similar, não existe só uma orquestra profissional e uma orquestra da ópera como na capital paulista. Tem a orquestra nacional e a orquestra da ópera, ambas diferentes, se apresentando no teatro Bellas Artes. Tem a Filarmônica da Cidade do México, Sinfônica do Estado de México em Toluca, dirigida por muito tempo por Enrique Bátiz e a Filarmônica da UNAM, sediada na sala Nezahualcóyotl, construída por iniciativa de Eduardo Mata. Além disso enquanto todas essas estão de férias, se apresenta uma orquestra de festival, a Sinfônica de Mineria, numa temporada de verão na sala Neza. Assim costuma ser na grandes capitais musicais da Europa, onde convivem várias orquestras profissionais e nada de pausa de 2 meses de férias.

Falo essas coisas para quem acha SP o máximo que uma metrópole de terceiro mundo pode alcançar em matéria de música clássica. Isso é o que os políticos paulistas querem vender!

Isaac Carneiro Victal

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