Maestro Henrique Alves de Mesquita, um dos compositores mais relevantes dos tempos do Império, tem sua obra na trilha sonora do espetáculo teatral "Os Irmãos Timótheo da Costa", em cartaz no CCBB Rio, com direção musical de Muato
As composições do maestro Henrique Alves de Mesquita (1830-1906) fazem parte da trilha sonora do espetáculo teatral “Os Irmãos Timótheo da Costa”, com direção de Luiz Antônio Pilar e direção musical de Muato. A peça, que passou pelas unidades do CCBB de Belo Horizonte e Brasília em 2025, está em cartaz no CCBB Rio até o dia 19 de abril.
O maestro é avô dos homenageados, os artistas que dão nome à peça: os irmãos João (1879-1932) e Arthur (1882-1922) Timóteo da Costa. A dupla figurou entre os nomes mais destacados da pintura brasileira nas duas primeiras décadas do século XX, mas que foi pouco reconhecida, ao longo do tempo, pela historiografia oficial. O maestro Henrique Alves de Mesquita foi um dos compositores e regentes dos mais relevantes do período imperial, apoiado por Dom Pedro II e considerado por Machado de Assis, em uma de suas primeiras crônicas, como “o possível Beethoven brasileiro”.
Com direção musical de Muato, vencedor do Prêmio Shell 2026 por “Vinte!”, a trilha sonora da peça costura a narrativa dos personagens e reforça a memória afetiva e ancestral que atravessa suas histórias, com arranjos inéditos criados especialmente para a montagem.
“Compus 11 peças para o espetáculo, entre canções, com letras e melodias, para serem cantadas em cena pelo elenco, e temas instrumentais que são executadas como trilha sonora da peça”, conta Muato. “Tanto nas canções quanto nos temas instrumentais, a música de Henrique Alves de Mesquita aparece em alguns momentos sampleada e, em outros, servindo somente de inspiração, como um impulso criativo”, completa o artista, que coleciona importantes prêmios de teatro na categoria Música, como o Fita (2025), Shell (2024 e 2026) e APTR (2020), além de indicação ao Bibi Ferreira (2025).
Muato já conhecia o maestro Henrique Alves de Mesquita e conta que mergulhou de cabeça na obra do compositor para criar a trilha do musical de “Os Irmãos Timótheo da Costa”. Em 2013, o maestro teve sua obra revisitada pelo Art Meal Quinteto — grupo com mais de 30 anos de trajetória formado por Jessé Sadoc (trompete), Wellington Moura (trompete), Eliezer Conrado (trompa), João Luiz Areias (trombone) e Eliezer Rodrigues (tuba) – no álbum independente “Henrique Alves de Mesquita - Músico do Império do Brasil. “Eu sampleei as melodias gravadas pelo quinteto e coloquei no contexto das canções que criei para o espetáculo”, explica o Muato.
Henrique Alves de Mesquita foi o primeiro músico brasileiro a estudar no Conservatório de Paris e o primeiro a denominar uma obra como ‘tango brasileiro’. Um dos mais importantes e influentes músicos brasileiros do século XIX, foi também um militante abolicionista. Compôs músicas para a causa, como o hino do Centro Abolicionista Ferreira de Menezes e a polca “Fugitiva”, dedicada ao presidente do Centro, José do Patrocínio.
Assim como tantos outros personagens negros, o legado dos irmãos Timóteo da Costa e de seu avô, o maestro Henrique Alves de Mesquita, foi apagado da história oficial. “A peça traz um tema forte, que é o apagamento. Ao longo da vida, vamos descobrindo artistas negros que não tiveram a devida atenção por questões estruturais e pela subjetividade da arte. Tudo isso potencializa esse apagamento”, defende Muato.
SOBRE A PEÇA
A trajetória dos irmãos João (1879 – 1932) e Arthur (1882 – 1922) Timótheo da Costa é contada e cantada no espetáculo “Os Irmãos Timótheo da Costa”, dirigido por Luiz Antonio Pilar, com dramaturgia de Claudia Valli e direção musical de Muato. A peça está em cartaz no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro entre os dias 19 de março e 19 de abril de 2026.
A montagem, que passou pelas unidades do CCBB de Belo Horizonte e Brasília em 2025, é mais um resgate de nomes da cultura preta nacional apagados pelo racismo. “Os Irmãos Timótheo da Costa” tem sessões de quinta a segunda, com apresentação pelo Ministério da Cultura e patrocínio do Banco do Brasil, por meio da Lei Rouanet – Incentivo a projetos culturais.
Em formato de musical, a peça é uma jornada sobre a vida e obra dos irmãos João e Arthur Timótheo da Costa, que figuram entre os nomes mais destacados de pintores da cena artística brasileira, nas duas primeiras décadas do século XX. Eles sofreram o preconceito da sociedade e ambos, com um intervalo de dez anos, morreram internos com a mesma doença, a demência paralítica, no Hospital dos Alienados, no Rio de Janeiro. No mesmo lugar que o grande escritor Lima Barreto foi internado e que era dirigido pelo Dr. Juliano Moreira, médico preto, pioneiro da psiquiatria e da saúde mental no Brasil e que combatia o racismo científico.
Em cena, Irene, vivida por Jeniffer Dias (indicada ao “Prêmio Potências”, em 2022, por sua atuação na série do Globoplay “Rensga Hits”), é uma pesquisadora contemporânea empenhada em escrever uma peça sobre os irmãos Timótheo da Costa, de quem ela ouviu falar uma vez e nunca esqueceu. Ao pesquisar suas vidas, ela descobre que, como tantos outros personagens negros, eles foram apagados da história e quase não há material sobre eles, apenas um pesquisador que focou na obra e não na vida dos irmãos. Irene vai desvendando suas histórias e chega à realidade do negro pós-abolição na então capital federal, ao racismo da Belle Époque carioca, à hipocrisia da sociedade racista, à epidemia de doenças mentais de pessoas pretas entre o final do século XIX e o começo do século XX.
Realidade e ficção se misturam, já que não há dados suficientes sobre a vida dos irmãos Timótheo da Costa. Além de Jeniffer Dias, o elenco conta também com Lucas da Purificação (que atuou na série “Impuros”, da Disney Plus), Luciano Quirino (fez participação no elenco da novela “Êta, mundo melhor!”), Pablo Áscoli (interpretou César Camargo Mariano em “Elis, o musical”) e Sérgio Kauffmann (atuou na novela “Garota do momento”, 2024/2025).

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