COMPAÑIA ANTONIO GADES/BODAS DE SANGRE/SUITE FLAMENCA : EMBLEMÁTICA TRANSMUTAÇÃO DA ESTÉTICA FLAMENCA EM TEATRO COREOGRÁFICO. CRÍTICA DE WAGNER CORRÊA DE ARAÚJO NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.
| Compañia Antonio Gades. Bodas de Sangre. Antonio Gades/Coreografia. Junho/2026. Roberto Ricci/ Fotos. |
Como acontece agora, ao assistir outra vez a Compañia Antonio Gades, mesmo sem sua emblemática presença, desde a morte em 2004 no auge de sua trajetória, mas primordialmente conservando seu qualitativo legado, pela direção artística de Stella Arauzo, em espetáculo que reune dois clássicos de seu repertório coreográfico - Bodas de Sangre e a Suite Flamenca.
Inspirada pela peça de Federico Garcia Lorca, Bodas de Sangre em leitura coreográfica, estreou há mais de meio século, em 1974, e sua repercussão se tornaria maior ainda com o filme de Carlos Saura, de 1981, conceituado o balé então como uma história espanhola, numa tragédia imbuída de folclore.
Bodas de Sangre, a peça original escrita por Garcia Lorca é de 1933, incluindo a sua dramaturgia, em prosa e verso, música, dança e mímica. Onde a versão coreográfica de Antonio Gades, com uma duração de cerca de 40 minutos, sintetiza a narrativa em cenas básicas, marcadas por um assumido minimalismo cenográfico extensivo a uma discricionária coreografia. Privilegiando um emotivo e dramático gestualismo que se estende às expressões faciais nas atuações protagonistas, com energia e estilo nas cenas de conjunto.
Prevalecendo sombras entre círculos de claridades, mantidos os efeitos luminares do próprio Antonio Gades, mais os figurinos típicos provincianos, entre o sotaque camponês cotidiano e cerimonial nas núpcias (em dúplice concepção por Francisco Nieva). Além de uma envolvente trilha musical (Emilio de Diego) priorizando sonoridades flamencas em guitarras e sapateados.
Coesivas formações grupais com instrumentistas ao vivo, acordes da guitarra, reverberando em sete ritmos flamencos entre bulerias, tanguillos e soleares (estes usando a concepção coreográfica de Cristina Hoyos). E cantos lamentosos de monocórdios vocais, sob acordes vibrantes e pés percussivos, nas rodas populares, integrando a energizada Suite Flamenca, de 1968, uma das primeiras criações de Gades.
Não podendo deixar de conferir um destaque, mais que especial, por sua transcendência simbólica ao epílogo de Bodas de Sangre, no confronto do enfrentamento de vida e de morte, entre o noivo (Joaquin Mulero), a noiva (Cristina Carnero) e seu amante (Angel Gil), na diferencial perspectiva estética de paralelas interpretações miméticas.
Em que o único ruído é o da estocada simultânea sequenciada pela queda mortal dos dois rivais, irradiando-se na força psicofísica da bailarina Cristina Carnero e na consistência dos dois bailarinos numa carismática performance de teatro coreográfico, resumida nas próprias palavras de Antonio Gades: “Esta luta foi a coisa mais difícil que já fiz em minha vida”...
Wagner Corrêa de Araújo
Compañia Antonio Gades. Suite Flamenca. Antonio Gades/ Cristina Hoyos / Coreografia. Clarissa Lapolla/Fotos.



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