Ópera “Anastácia”, de Armando Lobo, ganha formato inédito de revista, inspirado nos zines e fotonovelas popularescas dos anos 70
Estreada em janeiro em Recife (Teatro Santa Isabel), a ópera “Anastácia” - drama musical do compositor e multiartista pernambucano Armando Lobo inspirado na obra de Fiódor Dostoiévski – está sendo lançada em um formato inovador no meio da música contemporânea de câmara. No formato de “foto-ópera”, o projeto ganha uma publicação impressa em papel, e tem estilo assemelhado ao das fotonovelas populares no Brasil nos anos 70 e 80. As cenas foram fotografadas em um antigo presídio localizado no centro do Recife, e que hoje abriga a Casa da Cultura da cidade. Anastácia segue exatamente o modelo das fotonovelas melodramáticas tradicionais, com fotografias e balões de diálogos acompanhando as peripécias do roteiro. A música da foto-ópera pode ser acessada facilmente e gratuitamente por smartphone através de QR CODE impresso na revista. Na publicação, além da inspiração em fotonovelas, há elementos de histórias em quadrinhos e a presença de páginas de variedades (entrevista, horóscopo, receita culinária etc.), como em um publicação comercial de décadas atrás, voltada ao entretenimento. A revista tem 32 páginas e serve também de libreto impresso para a performance do espetáculo em palco
A ópera é uma tragédia contemporânea inspirada em passagens tocantes de algumas obras de Fiódor Dostoiévski, notadamente “Recordação da Casa dos Mortos”, “Os Demônios” e “Crime e Castigo”. O libreto também possui influência marcante de Georg Büchner, Nelson Rodrigues, e Erich Neumann e citações a Eurípedes, Arthur Rimbaud e William Shakespeare. O espetáculo é uma realização da mesma equipe criativa da “Ópera do Claustro”, que teve temporada de grande sucesso no Recife em 2025, com superlotação e aclamação ruidosa em todas as récitas.
O ENREDO
Toda a ação da ópera se passa em uma colônia penal feminina. O enredo mostra uma presidiária, de nome Anastácia, que assassina outra detenta porque esta não lhe devolvera uma bíblia. O projeto nos propõe uma reflexão catártica sobre questões de patologia, exclusão, vazio, confinamento, culpa e expiação. Com o objetivo de conjugar imaginação poética e dados da realidade social, o projeto realizou entrevistas com ex-detentas, de onde foram extraídos elementos concretos que são poetizados na encenação, que também apresenta situações fantásticas e elementos da cultura popular nordestina, como a presença marcante de Papangus endemoniados. Há também uma inusitada ciranda - dançada e cantada não à "beira-mar", mas ao redor de um cadáver -, e a abordagem de temas cruéis como perversão sexual, canibalismo e auto-imolação.
A OBRA MUSICAL
“Anastácia” combina elementos da ópera erudita contemporânea, ópera-rock e teatro contemporâneo, em uma abordagem dramatúrgica que se aproxima do naturalismo fantástico. Na obra, recitativos operísticos são evitados em favor de diálogos teatrais que facilitam o entendimento da trama. Todo o conteúdo harmônico e melódico da música é derivado da escala do blues e de modos da escala nordestina; este conteúdo recebe um tratamento orquestral que remete a texturas da música contemporânea de concerto. Há também passagens com programações eletrônicas feitas a partir da sonoridade de um berimbau, somado a vozes fantasmagóricas processadas. Um trio de metais (trompete, trompa e trombone) faz a metáfora sonora do meio marcial/policialesco; violoncelo, guitarra elétrica, bateria e berimbau completam a sonoridade agressiva e muito brasileira da música.
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FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA
Concepção, Direção, Libreto e Música: Armando Lôbo
Direção de Arte, Design, Cenografia e Figurino: Marcelo Coutinho
MINI BIOS
Armando Lôbo
Compositor, encenador, multiartista e pesquisador pernambucano, Armando Lôbo
desenvolve gêneros e estilos musicais diversos, com o uso de matizes experimentais e
abordagem conceitual de tonalidade filosófica. Também concebe e produz projetos
artísticos interdisciplinares, unindo vídeo, performance, teatro, literatura, música e
pesquisa histórica e antropológica.
Foi contemplado em diversos prêmios nacionais e internacionais, como compositor e
também como diretor de filmes experimentais. Lançou 5 álbuns que mereceram cotação
máxima da imprensa especializada. Sua obra tem sido executada por importantes grupos no Brasil, Europa e Estados Unidos. Lôbo é Ph.D. em composição cênica pela
Universidade de Edimburgo, Reino Unido.
Marcelo Coutinho
Artista e professor de artes visuais da UFPB e UFPE. Mestre em Comunicação pela
UFPE, doutor em Poéticas Visuais pela UFRGS e pós-doutor em Design e Cultura pela
UFPE. Premiado em importantes mostras nacionais, participou das principais exposições de arte contemporânea do Brasil, entre as quais destacam-se a 30a Bienal Internacional de São Paulo e várias edições do Panorama da Arte Brasileira, promovido pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo. Trabalhando entre linguagens como o filme, a instalação e a performance, tem obras nos acervos do MAC-SP, MAM-RJ, MAM-BA, MAMAM-PE, entre outras instituições.

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