O PIOR DE KARAJAN. ARTIGO DE ISAAC CARNEIRO VICTAL NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.



CICLO DE SINFONIAS DE SCHUMANN

Poucos momentos se salvam pois essas parecem interpretações no piloto automático. Uma excelente orquestra, Filarmônica de Berlin no início dos 70, mas não conseguimos identificar nenhuma concepção interpretativa interessante. Esse é o pior lado de Karajan, ter desenvolvido um conceito de fazer musical que ele aplicava indistintamente a qualquer tipo de obra, com resultados tanto excepcionais quanto medíocres. Nesse caso temos interpretações pesadas, em parte por causa da imensa orquestra utilizada, ouve-se um som orquestral embolado, culpa também das habilidades limitadas de Schumann como orquestrador. Além disso o estilo legato de Karajan não se adapta bem às melodias schumanianas, por exemplo ouçam o início do finale da Renana. A Sinfonia Primavera é um exemplo de desequilíbrio orquestral entre o naipe de metais exagerado e o resto da orquestra. O maestro regravou a quarta sinfonia em 1987, com um pouco menos de legato, melhorou um pouco.

CICLO DE SINFONIAS DE MENDELSSOHN

Registrados os dois ciclos para a DG mais ou menos na mesma época, o peso da mão do maestro já parecia excessivo em Schumann, em se tratando de Mendelssohn, a coisa piora. Passagens polifônicas como o desenvolvimento do primeiro movimento da Italiana estão muito confusas, parece que cada voz está brigando com a outra para chamar mais atenção, não temos um diálogo. Por outro lado no Saltarello final, as cordas antes furiosas no primeiro movimento onde não deviam, aqui carecem do vigor rítmico necessário. Confundem fazer barulho com boa articulação. A primeira sinfonia, composta enquanto seu autor era um adolescente, encontra a mais pesada e mal articulada interpretação que já ouvi nas mãos dos berlinenses e de Herbert von K. O regente parece forçar a música no intuito de obter maior volume sonoro do que as obras podem oferecer. Não importa para o diretor o compositor ter escrito por exemplo no finale da Sinfonia Reforma complexas passagens polifônicas, pois a batuta pesada não nos permite escutar bem as diversas vozes. Apesar dos fracassos nas empreitadas dos ciclos sinfônicos desse dois compositores, von K se saiu bem melhor executando as sinfonias de Schubert.

RESPIGHI PINI DI ROMA FONTANE DI ROMA

O mesmo regente que nos legou uma das melhores versões disponíveis da obra mais popular de Respighi com a orquestra Philharmonia pela EMI em 1958, ensemble londrino superior aos filarmônicos berlinenses nessa época, repetiu a dose na capital prussiana 20 anos depois. Agora tudo parece tão exagerado, mal calculado e amaneirado, quase como se Karajan estivesse produzindo uma caricatura de si mesmo para oferecer aos detratores. O balanceamento orquestral é bizarro, principalmente nos momentos mais estrondosos do terceiro movimento das Fontes e no quarto dos Pinheiros, esse último com um órgão excessivamente protuberante. Karajan esfrega na nossa cara contramelodias e o material melódico que ouvimos claramente em todas outras interpretações, fica em segundo plano. O momentos mais silenciosos das duas obras estão muito melhor, pode-se ouvir delicadíssimos timbres orquestrais nessas passagens, mas no geral trata-se de uma visão muito subjetiva das obras. Existe um vídeo de uma visita ao Japão da Filarmônica de Berlin em 1984, no concerto apresentaram Pini di Roma sob direção de Karajan e nesse caso estamos mais próximos das qualidades da gravação de 1958 com a Philharmonia, do que dos absurdos desse registro de 1978 enumerados aqui. Lorin Maazel diga-se de passagem gravou com a Filarmônica de Berlin em 1958, na acústica da Jesus Christus Kirche espaço preferido por Karajan para gravações por anos a fio, uns excelentes Pinheiros de Roma, demonstrando como a célebre banda prussiana poderia em certas ocasiões soar até melhor quando dirigida por outras grandes batutas, do que sob Karajan. Isso aconteceu no passado, não acontece mais hoje. A orquestra nunca mais soou tão bem quanto soava na época de Herbie.

Isaac Carneiro Victal

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