TRISTÃO E ISOLDA NO THEATRO MUNICIPAL DE SP: APESAR DE UMA ORQUESTRA INSEGURA, UMA GRANDE MONTAGEM. CRÍTICA DE OSVALDO COLARUSSO NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.



A montagem da ópera Tristão e Isolda de Richard Wagner, que assisti no último dia 22 no Teatro Municipal de São Paulo, foi um bom espetáculo, sobretudo pela poética encenação de Alex Aguilera e por um elenco extremamente competente. 
Simon O'neill, o intérprete de Tristão, deixou claro o porquê dele ser tão requisitado nos mais importantes teatros de ópera da atualidade. Voz infatigável, foi memorável a sua atuação na longa e extenuante agonia do último ato. Realmente um dos grandes intérpretes do papel atualmente. Vale a pena lembrar que Oneill nos últimos anos gravou três vezes o papel de Siegfried, uma delas com Sir Simon Rattle. Raramente temos um solista dessa importância, nos últimos anos, em montagens brasileiras.
Annemarie Kremer, a intérprete de Isolda, não é exatamente uma especialista nesse papel, mas tem se direcionado a papéis de soprano dramático (vai cantar Brünnhilde no Colon em novembro). Pode-se dizer que virou-se muito bem com os recursos que tem. Projeta pouco a região central, mas seus agudos são fáceis e volumosos. Altamente expressiva, vigorosa, inflamada, se sua narrativa do primeiro ato teve problemas de projeção, seu Liebestod, no final da obra, foi belíssimo. No longo dueto do segundo ato, sua voz harmonizou de forma de rara beleza com o tenor. Em resumo, uma Isolda de alta qualidade.
Para mim, a grande surpresa foi a brasileira Luísa Francesconi, intérprete do papel de Brangäne, a criada de Isolda. Se o seu alemão ainda precisa melhorar, sua enorme voz e a compreensão que tem da personagem me surpreenderam muito. No início do segundo ato, a cena mais difícil do papel, sua atuação, sobretudo nos agudos, demonstrou que ela é uma grande artista, notável cantora. 
Leonardo Neiva, intérprete de Kurwenal, o criado de Tristão, ao contrário de Francesconi, tem um alemão impecável, apesar de esperar mais dele no terceiro ato, quando tem uma participação maior. Em relação a Kurwenal, uma das poucas derrapadas da encenação é fazer com que o personagem se suicide. Achei isso sem lógica.
Hernan Iturralde, intérprete do Rei Marke, com voz escura e potente, foi outra boa atuação.
Paulo Queiroz, apesar da bela voz, cantou o Marinheiro, no início da obra, de forma bruta e quase grosseira. Esse canto, a capela, é quase como um sonho. Achei estranho tamanha violência. Os outros pequenos papéis, Jessé Vieira como Melot (voz enorme, notável), e Cleyton Pulzi (voz bela e doce) fizeram desse elenco algo sem nenhum ponto fraco.
Se o elenco foi perfeito e a encenação, tirando o já mencionado suicídio de Kurwenal e um butô discutível no início do terceiro ato, foi muito boa, musicalmente muita coisa ficou a desejar. A orquestra estava insegura e os trechos de virtuosidade das cordas saíram sujos, as trompas derraparam, enfim se denotou falta de ensaios. No entanto a Harpa e o Clarone (no monólogo do Rei Marke) se destacaram como pontos orquestrais de alta qualidade. Um absurdo não ter o Holztrompet quando da chegada de Isolda no terceiro ato. Nunca ouvi essa passagem tocada num corne inglês. Foi um anticlímax total. Além disso se fez um corte no segundo ato, que nos priva do primeiro contato do Leitmotiv da Noite de amor. O "lado bom" dessa insegurança da orquestra é que ela nunca cobriu os cantores. Enfim, uma orquestra que raramente toca uma obra de Wagner ter tido tão poucos ensaios, beira a irresponsabilidade.
Nos últimos dois anos assisti essa ópera três vezes: em 2024 em Bayreuth, em 2025 em Hamburgo (com o mesmo Simon O'neill) e no último mês de abril em Frankfurt. Posso afirmar que a montagem paulista não ficou muito atrás, e aliás julgo que foi muito melhor do que a récita que vi em Hamburgo.
 Assisti a última vez que a obra foi montada no Teatro Municipal de São Paulo, em 1978. Naquela vez a obra sofreu inúmeros cortes, sobretudo no terceiro ato. No entanto senti falta do apuro musical do maestro austríaco Dietfried Bernet, que regeu a obra naquela ocasião, que ensaiou exaustivamente a orquestra e foi extremamente criativo com as limitações da época, fornecendo até uma boa solução para o Holztrompet no terceiro ato. De qualquer forma, mesmo com os problemas que lembrei, o Teatro Municipal de São Paulo pode se orgulhar de ter apresentado uma versão tão primorosa da obra prima Wagneriana. Tive a sensação, no último dia 22, de presenciar uma data histórica.
Osvaldo Colarusso

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