MARIN ALSOP ESTARIA CERTA OU ERRADA, SOBRE A PARTICIPAÇÃO DE MULHERES NAS GRANDES ORQUESTRAS? ARTIGO DE ISAAC CARNEIRO VICTAL NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.

 



De fato não existem mulheres ocupando cargo de diretora musical em orquestras de primeiro escalão mundial. Sobre a regência orquestral a constatação recorrente de Marin sobre a falta de mulheres está absolutamente correta, mas como se deu a aceitação das mulheres como integrantes das grandes orquestras?

Surpreendam-se com a informação, mas a Orquestra do Concertgebouw de Amsterdam admitia algumas poucas mulheres praticamente desde a sua fundação no final do século XIX. As filarmônicas de Berlin em Viena só integraram mulheres ao grupo no final do século XX, mesmo assim com ressalvas.

Em 1982 Madeleine Caruzzo foi a primeira a ser aprovada para a Filarmônica de Berlin, enquanto no mesmo ano Sabine Meyer passou numa audição às cegas mais foi rejeitada em votação esmagadora pelos músicos. O então diretor musical Karajan tomou partido em defesa de Sabine e brigou com a orquestra, nunca tendo a relação entre ambos voltado a ser como antes. O maestro passou a se apresentar e gravar mais com a Filarmônica de Viena ao invés da de Berlin depois disso.

Em se tratando de Viena, a filarmônica dessa cidade do início dos anos 70 até 1996 solicitou os serviços da harpista Anna Lelkes sem que ela tivesse do direito de ser considerada membro do conjunto. Como se tratava da única mulher do ensemble, sua imagem era proibida de aparecer nas transmissões televisivas dos concertos, no máximo se tolerava a exibição das mãos da instrumentista.

No caso da Filarmônica de Munique, a aprovação numa audição às cegas em 1980 de uma mulher, Abbie Conant, como primeiro trombone, gerou uma batalha judicial que durou os 13 anos, uma verdadeira queda de braço entre o famoso diretor musical geral Celibidache, que afirmou "precisamos de um homem como primeiro trombone" e a pobre instrumentista. Ela chegou a se submeter a exames para comprovar sua capacidade pulmonar no intuito de justificar sua contratação. Tais exames identificaram dotes assombros que fizeram médicos perguntarem se Abbie não era atleta. A história dela foi tema de várias matérias na imprensa mundial e ela inclusive tem um site contando tudo que passou nesses 13 anos fazendo parte dessa orquestra, como o hábito de músicos de seções mais "masculinas" como os metais terem fotos de mulheres peladas no camarim. Confessa inclusive ter ouvido piadas chulas proferidas por membros e pessoal da orquestra Filarmônica de Munique em sua presença, a saber, por exemplo a comparação de mulheres com privadas.

Outros casos extremos são o da Philharmonia Orchestra, lá desde a fundação em 1945 por Walter Legge mulheres foram permitidas e a contratação como assistente de Legge do indiano SuvI Raj Grubb, suscitou, segundo o biógrafo Richard Osborne, o seguinte comentário da parte de Herbert von Karajan, "QUEM É AQUELE HOMEM NEGRO ALI?" Karajan depois veio a considerar Grubb um dos MAIORES TONMEISTERS DO MUNDO, afirmação com a qual concordo.

Algumas orquestras do leste europeu como a Staatskspelle Dresden e a Filarmônica Checa tinham pouquíssimas mulheres antes da queda do comunismo, inversamente orquestras soviéticas de prestígio como a Filarmônica de São Petersburgo de Mravinsky teve uma das esposas desse maestro nomeada como flauta principal já em 1960.

As orquestras de rádio, por serem públicas, foram durante muito tempo o lugar mais fácil onde uma mulher conseguia ser admitida numa orquestra, tanto como efetivas tanto como extras. Em vídeos dos anos 60, podemos ver várias mulheres na orquestra da Rádio da França, nos Gurrelieder de Kubelik e a orquestra da Rádio Bávara, nas apresentações de Celibidache com a Orquestra da Rai de Torino e de Markevitch diante da Orquestra da Rádio e Televisão Espanhola.

Essa disparidade, em certos casos centenária entre a aceitação de mulheres, como nas famosas bandas de Amsterdam, Berlin ou Viena, me pareceu um fato digno de ser comentado.

Isaac Carneiro Victal

Comentários

  1. Comentário no facebook de : Ricardo da Mata
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    O preconceito era cruel e absurdo. No jazz, as mulheres não eram tão rejeitadas. Na verdade, as poucas que apareciam eram até bem vistas como Dottie Dogion que tocava bateria, algo que ninguém havia visto e que chamou muita atenção. Mary Osborne e Emily Remler era grandes guitarristas, Mary Lou Williams grande pianista e arranjadora, como era também Melba Linston, trombonista, que sabia tudo de música, entre outras mulheres.

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