TINA TURNER – O MUSICAL : O TRAUMA EXISTENCIAL TRANSMUTADO NO LEGADO ICÔNICO DE UMA CANTORA NEGRA NO UNIVERSO DO ROCK.CRÍTICA DE WAGNER CORRÊA DE ARAÚJO NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.

Tina Turner - O Musical. Katori Hall / Dramaturgia. Katherine Hare/Supervisão e Direção Artística. Junho/2026. Caio Gallucci/Fotos.


Por intermédio de um ideário da dramaturga  Katori Hall, de uma geração mais recente e ganhadora do Premio Pulitzer,  foi elaborado o roteiro de Tina Turner - O Musical. Favorecido pela identidade de cor e por sentir de perto o resistente preconceito racial, enfrentado especialmente na trajetória biográfica e artística da cantora.

Cinco anos antes de sua morte, em 2023, aos 83 anos, Tina Turner acompanhou de perto todo o processo de criação do espetáculo, incluídos aí vários encontros pessoais entre ela e a roteirista Katori Hall, fundamentais tanto no dimensionamento verista dos aspectos confessionais de sua vida e obra, como na própria seleção da trilha musical.

Com a sua estreia definitiva acontecendo em 2018, no West End londrino, seguida da Broadway e de várias outras montagens mundo afora, chegando finalmente aos palcos brasileiros, através de uma versão paulista, entre 2025/2026, com absoluto sucesso de público e de critica.

Onde a extrema fidelidade ao original, através de sua supervisão, produção e direção artística (Katherine Hare) por intermédio da mesma equipe da montagem anglo-americana, impressiona por seu apuro cenográfico, musical e performático, não só pela interpretação titular (Analu Pimenta) como pela unicidade qualitativa na escolha de seu elenco.


Tina Turner - O Musical. Katori Hall / Dramaturgia. Katherine Hare/Supervisão e Direção Artística. Junho/2026. Caio Gallucci/Fotos.


Com diferenciais destaques, sob convictas e convincentes atuações, mais que merecidas para o compulsivo Ike Turner (César Mello) e para o amoroso Erwin Bach (Bruno Sigrist), o empresário alemão que resgatou, por sua sensitiva dedicação, toda a tragicidade pessoal representada na vida de Tina Turner.

O enredo não escapa de uma narrativa cronológica  sequencial, indo desde a infância de Tina Turner, enfrentando uma vida doméstica conturbada pelos conflitos conjugais de seus pais e na incompreensão da mãe sobre o talento vocal de Tina, embora esta já se destacasse, menina ainda, no gênero gospel.

Continuado com sua participação na dupla Ike & Tina Turner Review, após adoção do sobrenome de seu parceiro musical com o casamento, incentivando  seus primeiros hits mas que, ao mesmo tempo, tornando-se abusivo no comportamento violento do marido, levando-a ao rompimento quando alcançava êxito estelar, das gravações às pistas dançantes.

Depois de um período de instantâneo obscurecimento após os quarenta anos, tem um retorno ascendente chegando a ser reconhecida como rainha do rock’n’roll,  por seu show de 1988, no estádio do Maracanã, sob o público recorde de toda sua carreira - 180.000 espectadores.

E é a atriz/cantora Analu Pimenta, em seu primeiro papel protagonista, que se torna o signo maior deste musical em sua versão brasileira, com sua irreprimível potencialidade vocal ao lado de uma performance presencial irradiante, das passagens dramáticas aos júbilos do sucesso.

Dos muitos hits de seu repertório, entre os quais tem culminâncias canções emblemáticas por sua temática como River Deep Mountain High, e pelos acordes energizados em Private Dancer, Proud Mary, What’s Love Got to Do With It?, tratados, aqui, no consistente comando musical por Jorge de Godoy.

E que, na última cena, com Simply the Best, no entremeio de luzes psicodélicas e jogo de espelhos, cores e brilhos exuberantes, extensivos em sua indumentária, transmuta com arrebatamento contagiante a plateia teatral, evocando o histórico show carioca.

 Ressaltando o simbolismo político-social da carreira de Tina Turner, incluído o Brasil na problemática do preponderante machismo tóxico, pela frequência inaceitável para nossos dias de um surto feminicida, registramos as reflexivas palavras da conceituada psicóloga e ativista americana - Leonore E. Walker - no seu empenho pelos direitos da mulher, em depoimento para a BBC:

“As mulheres não eram levadas a sério quando denunciavam a violência doméstica, então, quando Tina Turner, uma cantora famosa e respeitada, se manifestou, isso deu coragem a outras mulheres para fazerem o mesmo”...


Wagner Corrêa de Araújo



Tina Turner – O Musical está em cartaz no Teatro Santander, São Paulo, de quinta a domingo, em horários diversos, até o próximo dia 12 de julho.


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