"CAVALLERIA RUSTICANA" TAMBÉM TAPA BURACO NO MUNICIPAL DO RJ . CRÍTICA DE LEONARDO MARQUES NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.

Regente e orquestra são os grandes destaques da segunda récita.

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Depois do Requiem de Verdi, foi a vez de Cavalleria Rusticana tapar buraco na programação problemática do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Ópera em um ato e duas cenas de Pietro Mascagni, sobre libreto de Giovanni Targioni-Tozzetti e Guido Menasci, com base na novela homônima de Giovanni Verga, a Cavalleria foi levada esta semana, em forma de concerto, em datas que, inicialmente, estavam reservadas para a opereta A Viúva Alegre, que ficou para novembro, nas datas inicialmente reservadas para La Traviata – que por sua vez ficou para Deus sabe quando. Se isso não é uma bagunça, eu não sei o que é isso. Voltarei ao assunto logo depois da análise musical.

Fiquemos por hora com a performance deste sábado, 22 de setembro, na qual o Coro do Theatro Municipal, preparado por Maurílio dos Santos Costa e Jésus Figueiredo, esteve muito bem em todas as suas intervenções, com grande destaque para a passagem Inneggiamo, il Signor non è morto, em que ofereceu uma tocante interpretação, musicalmente consistente e bastante expressiva em seu aspecto religioso.

Dentre os solistas, a mezzosoprano Regina Elena Mesquita foi uma Mamma Lucia correta e de voz equilibrada, com bonitos graves. Sylvia Klein, que era soprano e mudou de voz para mezzo, foi uma bela e insinuante Lola: vocalmente segura, deu vontade de conferir como se sairia se exigida em partes maiores e mais complexas. O barítono Leonardo Páscoa foi um bom Alfio, com voz muito bem projetada e de belo timbre. O solista pecou, no entanto, ao esticar demais o agudo final de Il cavallo scalpita, o que não chegou a comprometer sua performance.

O tenor Richard Bauer também foi um bom Turiddu, com boa presença, ótima projeção e belíssimos agudos. Dentre todas as oportunidades que tive de ouvi-lo, esta foi sem dúvida sua melhor apresentação, ainda que tenha lhe faltado capricho em alguns arremates, ou seja, no final de certas frases musicais.

É muito fácil perceber quando estamos diante de um grande artista, e é exatamente esta a sensação despertada quando no palco está a soprano Leila Guimarães. É fácil notar, por exemplo, a qualidade e a precisão de sua técnica, assim como a forma através da qual seus graves de peito são emitidos com naturalidade – é sempre especial ouvir uma soprano que não se esconde apenas atrás de seus agudos. E é ainda estimulante saber que seu conhecimento, adquirido ao longo de anos de experiência nos palcos, está sendo transmitido a seus jovens alunos, alguns dos quais já despontando como promessas do canto brasileiro.

No entanto, é preciso dizer que a Santuzza de Leila demonstrou um cansaço vocal bastante evidente, sobretudo se compararmos esta performance com aquela de 2009 nesta mesma personagem, quando seu desempenho fora muito mais satisfatório e seu cansaço vocal apenas vagamente perceptível. O desempenho da soprano, portanto, oscilou entre bons momentos, como sua participação no Inneggiamo…, e outros que deixaram a desejar, jamais por falta de capacidade técnica, mas sim porque, em seus aspectos físicos, a voz já não consegue responder como em outros tempos.

Os grandes destaques da noite foram a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal e seu regente titular, Silvio Viegas. Com os gestos sóbrios que lhe são característicos, mas nem por isso menos expressivos, o maestro conduziu seus músicos com enorme precisão de ataques, arremates e dinâmicas, oferecendo uma leitura da obra ao mesmo tempo sensível e emocionante. Os professores da OSTM não ficaram atrás e, sem dúvida inspirados por seu condutor, responderam com uma sonoridade bastante coesa, em especial nas cordas, elegantes e quentes. Impossível não perceber a flauta de Marcelo Bonfim. E já que a orquestra está exibindo este bom nível, é, dentre outras coisas, por causa dela que retomo a ideia inicial deste texto.

Comecei estas linhas chamando a programação do Theatro Municipal do Rio de Janeiro de problemática. Segundo o dicionário de nossa língua, o adjetivo “problemático” pode ser definido como “incerto, duvidoso, questionável, equivocado”. E o que é a programação do Municipal se não incerta, duvidosa, questionável e equivocada?

A simples escolha de Cavalleria Rusticana para ser apresentada em forma de concerto já é um grande equívoco. Ora, a ópera já fora apresentada em 2009 também em concerto e, em virtude dos transtornos que nunca lhe abandonam (em 2010 foi a exposição dos painéis Guerra e Paz, de Portinari; este ano foi a queda de três edifícios e a diminuição de verba; em 2013 haverá alguma coisa, podem apostar), com “trocentas” óperas no repertório internacional à sua disposição, o Municipal decide fazer a Cavalleria de novo? Se isso não é falta de imaginação, me digam por favor o que é. Na pior das hipóteses, para não sair da escola italiana e do Verismo, poder-se-ia levar I Pagliacci, ou estou dizendo alguma asneira?

Pior do que isso, soa como piada de mau gosto toda vez ter que ler nos programas de sala vendidos pelo Theatro a cada ópera, concerto ou balé, alguma baboseira escrita pela Secretária de Cultura, do tipo “Ao investir nesta programação de qualidade…” e, claro, a leitura para por aí. Afinal, que programação de qualidade é essa, Secretária? É a qualidade dos cancelamentos? Realmente, a qualidade dos cancelamentos do Municipal é exemplar. Ninguém cancela tanto como o Municipal do Rio. Se você, leitor, precisa cancelar alguma coisa, qualquer coisa, e não sabe bem como fazê-lo, conte com a consultoria do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que é o maior expert no assunto.

A coisa não para por aí. Em anúncio publicado na Agenda VivaMúsica! deste mês, algum marqueteiro pago pelo Governo do Estado escreveu “Inventividade, criatividade e ousadia são marcas do Rio de Janeiro há muito tempo. (…) A vocação do Rio de Janeiro é pensar grande”. Que engraçado… não parece! A julgar pela programação do Municipal, senhor marqueteiro, o Rio de Janeiro, ou pelo menos o Governo do Estado do Rio de Janeiro, não é criativo e tampouco ousado e, na verdade, pensa pequeno.

Dizem que o governador do Rio se empenhou pessoalmente em obter patrocínios para a reforma do Municipal. Dizem. Ele até, na época, chegou a dizer que o Municipal era a “joia da coroa” do Estado. Sempre fui um defensor da reforma, mas para que reformar o Theatro se não é para ele produzir a sério? É este o tratamento que o governador dispensa à sua “joia da coroa”?

Tem mais. Andei pesquisando e descobri coisas interessantíssimas, vejam só: todo mundo sabe da crise econômica por que passa a Grécia. Apesar de tal crise, a Greek Nacional Opera (seu nome em inglês), de Atenas, produziu nada menos que oito óperas entre outubro de 2011 e junho de 2012, considerando que óperas diferentes apresentadas num mesmo dia contam como uma apenas.
Certamente mais afetada pela crise, sua temporada 2012/2013 conta com cinco títulos, dentre os quais I Vespri Siciliani e Werther – o que, apesar de pouco, é superior à temporada ridícula de óperas do Municipal do Rio.

Aqui mesmo na América do Sul, o Teatro Colón, de Buenos Aires, tem oito títulos em sua temporada 2012, incluindo uma ópera contemporânea e até mesmo uma aberração para os puristas: uma versão compacta de 7 horas de todo o ciclo do Anel de Wagner, apresentado numa única função. Ainda assim, oito óperas… O Municipal de Santiago do Chile programou seis óperas para este ano, dentre as quais uma Lucrezia Borgia e um Tannhäuser que foi motivo de crítica de Marco Antônio Seta aqui no www.movimento.com. Isso tudo, claro, para não falar das 10 óperas que o Municipal de São Paulo programou para esta temporada, incluindo um programa duplo, uma ópera em forma de concerto e outra ao ar livre.

Ninguém espera um milagre, mas pelo menos um pouco de vontade política de fazer do Municipal um verdadeiro produtor de cultura de qualidade. Sim, porque neste país onde vivemos não se faz nada em termos públicos sem essa tal “vontade política”. A OSESP é o que é e John Neschling conseguiu fazer o trabalho maravilhoso que fez, porque houve “vontade política” por parte do então governador de São Paulo. Se não fosse Mário Covas, não conheceríamos a OSESP como ela é hoje. O Brasil será sede da próxima Copa do Mundo porque houve uma “vontade política” geral para que isso ocorresse, e o Rio de Janeiro será sede das próximas Olimpíadas porque houve forte apoio governamental, para que a candidatura carioca vencesse até mesmo a Chicago de Obama. O problema é que, no Brasil, a “vontade política” oscila de acordo com a possibilidade de angariar mais votos nas próximas eleições.

Então, meus amigos, só posso concluir que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro não tem uma programação decente única e exclusivamente porque o governador do Estado não quer, uma vez que, como todo mundo sabe, ele tem maioria na Assembleia Legislativa. O interessante é ver como Adriana Rattes, empresária de sucesso no mercado exibidor de filmes, e Carla Camurati, atriz e diretora de cinema amplamente reconhecida, emprestam seus nomes a este fracasso chamado Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Será que vale a pena assinar esta programação? Será que elas se sentem felizes de produzirem menos óperas que uma Grécia à beira da bancarrota?

Bem, mais uma vez toquei neste assunto porque, como disse acima, a Orquestra Sinfônica do Municipal está passando por um bom momento e precisa de desafios. Depois de ótimas performances em O Castelo do Barba-Azul, no final de 2011, e, recentemente, no Requiem de Verdi, além desta Cavalleria Rusticana, esta orquestra precisa de mais. Precisa de um repertório mais ousado, de coisas diferentes, de deixar um pouco de lado a mesmice dos últimos anos, precisa de Ponchielli, Boito, Cilea, Giordano, Rossini, Massenet, Wagner, Strauss, Mozart, Tchaikovsky e tantos e tantos outros. E claro que precisa de Verdi e Puccini, mas precisa do Puccini e do Verdi que não são montados aqui há muito tempo, ou seja, óperas como Manon Lescaut, Il Trittico, La Fanciulla del West, Otello, Falstaff, Aida, Don Carlo, La Forza del Destino.

Manaus este ano fez Lulu, Belém fará Salomé em novembro, São Paulo fez O Crepúsculos dos Deuses, Pelléas et Mélisande, e fará Violanta, Uma Tragédia Florentina, Orfeu e Eurídice, O Rouxinol. O Rio… bem, o Rio fez Rigoletto, Cavalleria e fará A Viúva Alegre. Isso é ousado? É estimulante?

Como escreveu uma musicista do Theatro Municipal em comentário à minha resenha do Requiem de Verdi, “Isto tem sido um pedido constante dos artistas da casa. Sabemos da nossa capacidade e da nossa vontade. Entrei no TM em 1990 e sei que temos condições de fazer muito mais títulos e récitas do que estamos fazendo atualmente”. Preciso dizer mais alguma coisa ou o que ela já disse está de bom tamanho? Até porque, se o Municipal tivesse mais títulos e récitas, aí sim, o Theatro poderia unir numa mesma temporada óperas mais populares, mas nem por isso menos belas, com outras mais ousadas ou, pelo menos, a que o público carioca se desabituou a assistir.

Encerro mencionando a homenagem que o maestro Silvio Viegas fez a João D’Angelo, músico aposentado do Coro do Municipal que faleceu neste mesmo sábado, 22 de setembro. Num dia tão inspirado musicalmente, Viegas podia tudo, até quebrar o protocolo e interromper a apresentação da ópera no momento em que deveria atacar seu intermezzo. Dirigindo-se ao público, o maestro falou sobre D’Angelo e em como, mesmo aposentado e com mais de 90 anos, o músico ia sempre ao Theatro dar aulas a seus alunos do Coro. Um exemplo de amor à música que deve servir de inspiração a todos nós.

Leonardo Marques

Comentários

  1. Uma vez o célebre tenor Assis Pacheco, em uma entrevista à Rádio MEC durante uma das muitas crises pelas quais o Municipal do Rio tem passado, perguntado sobre qual seria a solução para o Teatro, respondeu: “O homem certo, no lugar certo”.
    É simples assim. Sempre que a presidência do Teatro for ocupada por pessoas (ainda que bem intencionadas) sem nenhum compromisso com a ópera, o balé e a música de concerto, o quadro continuará o mesmo. Não por acaso, a última vez que o Teatro “bombou” foi durante a última gestão de Dalal Achcar. Dalal que, como todos sabem, é uma autoridade em balé, teve o cuidado de colocar na direção artística, com plenos poderes, o Maestro Luiz Fernando Malheiro. Em uma gestão anterior, nomeou Fernando Bicudo, também com plenos poderes para a realização de temporadas líricas. Solução simples: uma autoridade em balé na presidência e uma autoridade em ópera na direção artística.
    De 2002 para cá, os presidentes foram Grassi, Helena Severo e, atualmente, Carla Camurati. Todos merecem respeito, mas não têm nada a ver nem com ópera, nem com balé e nem com música clássica. No meio disso, um também respeitável professor de música que ocupou a presidência por alguns meses, nomeou como diretor artístico um empresário da área que tinha como único objetivo beneficiar os amigos: foi um desastre!
    O atual diretor artístico, Maestro Silvio Viegas, sem autonomia e sem o apoio da presidente Camurati, pode muito pouco e o muito pouco que pode, faz. Só que não é suficiente.
    Aí está o problema e aí está a solução. Depende do Governador e da Secretária de Cultura.

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