TMSP APRESENTA "MACBETH" , DE VERDI. CRÍTICA DE MARCO ANTÔNIO SETA NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.

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A total lotação das quatro récitas de “Macbeth”, como também de todas as de “La Traviata”, de Verdi no TMP, confirmam a predileção do grande público pelos títulos consagrados através dos tempos em todo o Universo. 
A Temporada Lírica de 2012 primou por uma sucessão de óperas desconhecidas  e impopulares, exceto as duas de Verdi. Resultado em balancete: casa vazia na maioria de suas récitas, muitas vezes nas quais, havia somente 1/7 de sua capacidade de lotação! Um verdadeiro desperdício do dinheiro público em seus cofres municipais,  conferido por mim em diversas de suas funções líricas, no decorrer do ano. .
Acontece que o Theatro Municipal não se compara com o Met de Nova Iorque, bem como a Company Lírica  de Chicago ou a San Francisco Opera House onde, entre dezenas de títulos, intercalam-se algumas menos populares e contemporâneas ou barrocas. Realizar uma temporada como foi a de 2012, contempla sobretudo o diretor artístico da casa e aos diretores de cena convidados para tal, satisfazendo um interessante “curriculum” e aos “egos” dos mesmos.
Para enfrentar “Macbeth” há necessidade de um regente sensível que logre sublinhar a gama de sutilezas instrumentais de que está cheia a partitura; para Lady Macbeth, um soprano dramático ou meio soprano, de voz necessariamente escura e talvez acre, de incomum extensão (vai até o ré bemol agudo), dotada de grande expressividade teatral, capaz de representar a figura sanguinária e maquiavélica, a figura trágica e feroz da loba medieval, que depois se decompõe na histeria e na loucura. Finalmente ao barítono  (Macbeth) que seja mais ator que cantor, que saiba viver os problemas de consciência.
O criminoso atormentado protagonista veio de Roma, através do Teatro Comunale de Bologna, e deixou uma boa impressão em interpretação muito aplaudida, oscilando entre o bem e o mal, ora animado de crescente volúpia sanguinária, sob instigação do satânico ardor da sua mulher, ora atormentado pelo remorso de seus crimes. Angelo Veccia, seu intérprete,  possui uma bonita voz de barítono lírico-dramático e poderia voltar entre nós para viver outros “verdianos” ( Nabucco, Simon Boccanegra ).
Anna Pirozzi, napolitana, pela primeira vez no Brasil,  deixou transparecer um volume satisfatório para a Lady Macbeth, com extensão regular e timbre escuro nos agudos, porém a voz é desigual, com evidentes problemas nas passagens de registro: as suas notas médias são muito opacas e os graves inexistem. Já na leitura da carta notou-se uma voz clara, na ária “La luce langue”, que contém frases inteiras escritas no registro grave, o realce ficou por ser ouvido. Vale ressaltar que nos conjuntos vocais-sinfônicos dos dois primeiros atos, ela soube conduzir muito bem o seu volume e a sua colocaçao vocal desgastando-a em seu potencial junto às outras vozes e coral lírico. Já exausta nos terceiro e quarto atos,  decaiu muito em seu rendimento, conferido na última ária “Una macchia è qui tutttora”, cantada como um “dolce” soprano lírico. Faltaram-lhe ademais, a veracidade de uma histeria sonâmbula. Muito aplaudida por aqueles que nunca viram nada superior e que, por incrível coincidência, aqui já aportaram com grande eloquência. Basta nos lembrarmos de Olívia Stap e Giuseppina Dalle Molle.
Carlo Cigni, o baixo italiano (Banquo) deu interpretação muito correta ao seu personagem, também dramático e sombrio, traduzindo  sua ária “Come dal ciel precipita” com propriedade e convicção. Os demais satisfatórios, coro subestimado a 2º plano,  em muitas das cenas não havia luz para as coristas (bruxas) sobretudo no 3º ato. Raramente se viu o coral encenar como desta vez, especialmente nos conjuntos corais e por esse trabalho merece mérito o corpo coral do Municipal. Apenas 65 vozes aproximadamente entraram em cena numa ópera em que o coro é primordial. Por que então um coral com quase cem vozes no Theatro Municipal, quando nesta deveriam entrar todos?
Bob Wilson foi o grande astro da noite, nesta produção conjunta com o Teatro Comunale de Bologna, veio para renovar tudo em iluminação principalmente. Obcecado pelas lâmpadas de gás neon, inovou o que não se havia ainda visto por aqui. Longos filetes de neon branco chegam a dividir horizontalmente a cena ( final da cena do banquete no 2º ato) sem nada iluminarem: são uma espécie de estorvo planejado para quebrar novamente a ilusão de que aquilo é verdade. Palco escuro basicamente, tudo em preto com aberturas de branco ao fundo da cena e laterais do palco também em negro. A esse visual somam-se figurinos de época negros e cinzas, com sombras esverdeadas,  somados a canhões de luz e o coro também manipula objetos luminosos dando uma originalidade à concepção de Wilson.
Isso tudo embalado por uma mistura de teatro No em rítmos vagarosos, quase estáticos com focos de luz somente em seus rostos pintados de branco e,  em alguns momentos com evocações do teatro grego. Coros iniciaram a ópera pouco ajustados com a orquestra, conseguindo ao longo do espetáculo melhor entrosamento, o que é surpreendente, tendo em vista ópera de seu surrado repertório,  e quanto à Sinfônica Municipal,  deu presságios de reconhecida melhora no ajuste de seus acompanhamentos aos solistas.
A ópera de Verdi, baseada no drama homônimo de Willian Shakespeare, inspirada em episódios ocorridos no período lendário e semi-bárbaro da Escócia, com libreto de Francesco Maria Piave, obteve aqui produção de Change Performing Arts, de Milão em colaboração com BG Promoções Culturais, de São Paulo.
Escrito por Marco Antônio Seta, em 26 de Novembro de 2012.
Fonte: http://www.movimento.com/

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