A PROGRAMAÇÃO DE ÓPERAS DO NOSSO BRASIL. ARTIGO DE ANTÔNIO RODRIGUES NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.

Caros amigos, há alguns anos, talvez 3, li um livro editado no Brasil, com depoimento de vários personagens importantes no mundo da ópera.

Parecia uma orquestra de tão afinados, especialmente no que consistia à parceria para que fossem aproveitadas montagens de óperas, levado-as a vários teatros do país. Isso faria, obviamente, com que caíssem os custos. Também não era intenção dos protagonistas dos depoimentos reduzir o mercado de trabalho de artistas brasileiros, o que aconteceria se todas as óperas sofressem a mesma ação. Não… a ideia era baratear algumas produções, inclusive trazendo de fora do país algumas montagens, mas com cantores brasileiros.
Para os municipais do Rio e de São Paulo, foram nomeados como diretores artísticos, respectivamente Isaac Karabtchevsky e John Neschling. De cara, notou-se uma diferença enorme na contratação dos cantores: Rio com maioria de cantores brasileiros e São Paulo com cantores estrangeiros. Certamente, há uma explicação além de artística para isso, ou seja, a vontade das autoridades de São Paulo e o seu poder econômico, em contraposição à vontade pífia e ao poder econômico do Rio de Janeiro, mais pífio ainda.
Tudo isso que comentei acima é para fazer notar a seguinte coincidência nas programações de óperas de São Paulo e Rio, a saber:
- RJ: ópera “Salomé”, de Richard Strauss – de 22 a 26.08.2014
- SP: ópera “Salomé”, de Richard Strauss – de 06 a 20.09.2014
Como podem ver, menos de um mês separa as duas produções. Para serem mais perfeitos faltou apenas que fossem encenadas no mesmo período. O que parece? Um embate entre as duas cidades, para ver quem faz melhor? Uma continuação do ano passado? Seja lá pelo que for, isso só demonstra que nenhum dos dois diretores artísticos se deu o trabalho de ler o tal livro de que falei ao início do texto. Não leram mesmo… ou acharam que só havia bobagens nos tais textos.
Não pensem, porém, que foi uma coincidência só de 2014. Também em 2013, houve coisa parecida, com uma diferença de tempo um pouco maior. Foi a montagem de “Aída”, em abril no Rio e em agosto em São Paulo. No Rio, 3 artistas de fora e, em São Paulo, uns 6 ou 7. O pior é que os comentaristas que escreveram sobre as duas óperas, inevitavelmente, tiveram que fazer comparações entre as duas, com ampla vantagem para a encenação de São Paulo. Isso só fez acirrar os ânimos e os orgulhos.
Penso que este assunto de programação de ópera no Brasil merecia um encontro entre os diretores artísticos dos vários teatros brasileiros, quando da montagem das programações, para que pudessem tratar com inteligência este assunto: não programarem montagens das mesmas óperas tão juntas, programarem óperas itinerantes por vários estados, darem ao tema importância maior do que as suas picuinhas pessoais ou estaduais ou municipais.
Como os teatros não fazem vir a público as suas montagens ao mesmo tempo, requer-se um pouco de humildade, para que, se sua programação ainda não foi feita, ver o que o outro programou e, de repente, sentar e conversar para esticar a montagem a outros locais. Isso não deveria diminuir ninguém. Por exemplo, São Paulo já divulgou suas óperas para 2015. Seria humilhante que o Rio ou outro centro tentasse programar junto a São Paulo que alguma (s) dessa (s) ópera(s) pudesse(m) ser encenadas em outros teatros?
Não se trata de um concurso, para ver quem foi mais esperto, quem trouxe os melhores artistas, quem gastou mais, quem teve mais público… tudo isso é de somenos importância para quem ama de fato este tipo de arte que, ao que parece, contrariando muitas opiniões leigas, teima em recrudescer.
Não sou expert no assunto e gostaria apenas que este artigo fizesse vir à tona depoimentos de pessoas ligadas ao assunto e muito mais capazes do que eu, para que os “donos” das programações pudessem enxergar um pouco mais além dos seus narizes.
Vamos tratar de valorizar justamente quem dá sustentabilidade e vida a esta arte: o público.

Antônio Rodriques

Fonte: http://www.movimento.com/

Comentários

  1. alguns comentários de alguém que, também não sendo um expert, considera-se público da ópera há mais de quarenta anos:

    a) observa-se hoje no mundo todo a política das coproduções . Os grandes teatros de ópera não escondem e até divulgam com orgulho que as suas produções são compartilhadas: o MET de NY, o Covent Garden de Londres, o Scala de Milão para ficar apenas com três dos maiores ícones da ópera ocidental. Compartilhar significa realmente diminuir custos, o que é vital para a sobrevivência dos teatros diante da crise econômica pela qual todos passam ( o MET de NY está a ponto de fechar suas portas a partir de agosto se os contratos com os sindicatos não forem refeitos, com uma redução média de 17% nos salários). Não existe, então, vergonha ou submissão em coproduzir montagens de ópera no mundo..... somente aqui no Brasil parece existir esta ideia, tacanha e menor......

    b) os teatros brasileiros, fundações ou entidades subsidiadas pelo poder público ( nada contra, a ópera necessita de aporte de dinheiro público para sobreviver), não falam entre si: seus diretores, presidentes etc., a maior parte das vezes indicados por razões políticas não são gestores competentes; alguns têm formação artística, até, mas não são gestores - tornam-se burocratas, dedicam-se às atividades comezinhas do dia-a-dia, mas não desenvolvem ou implementam projetos de médio e longo prazo. Ficam nos seus cargos até serem trocados quando as conveniências assim o decidirem. A sua permanência não se faz pela produtividade de suas realizações.....
    c) ópera demanda planejamento de longo prazo: a complexidade de sua realização ( cenários, figurinos, escolha dos elencos, direção cênica, ensaios, etc.) demanda meses de preparação. Contratar os cantores requer conhecimento de vozes, negociação de agendas - algumas muito apertadas - o que implica em garantia de recursos, também a longo prazo, para que os compromissos possam ser cumpridos. No Brasil, onde impera o jeitinho e a improvisação públicas a ópera tem muita dificuldade em prosperar de maneira adequada. No final, quanto tudo se salva ( nem sempre), todos se dão por satisfeitos ... e só. Não existem lições aprendidas e nem se acumulam experiências ( positivas ou negativas) que possam garantir novos ciclos melhores nos anos seguintes.

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  2. ( continuação)
    d) reserva de mercado é sempre burra: existem no país excelentes cantores de ópera, como no mundo todo; alguns são excepcionais, são os poucos membros de um star system que atraem público e garantem os holofotes para a ópera. Por que não contratá-los? Existem papéis que demandam vozes de preparação, técnica e qualidade excepcionais nem sempre encontrados entre nós. Determinadas óperas de determinados estilos ou nacionalidades não têm aqui no Brasil cantores com fluência suficiente para encará-las. A troca de experiências e de vivências é sempre benéfica... mesclar elencos é muito bom - ganham os nossos excelentes cantores e ganham os excelentes cantores de fora... lembremo-nos que até a década de sessenta em SP e RJ - época de ouro da ópera no século XX no Brasil - havia os elencos nacionais e estrangeiros que se revezavam na mesma ópera sem que o fato gerasse desconforto ou crítica.
    e) ópera, além de arte, é negócio: demanda investimentos, planejamento, preparação, mas também pode gerar lucros, desde que os empreendedores e gestores saibam e queiram desenvolver atividades paralelas vinculadas aos espetáculos que produzem.... Parece que ninguém sabe, ou deseja, usar da experiência dos grandes teatros do mundo neste sentido.
    f) não se incentiva a iniciativa privada a investir recursos na ópera ( ouve-se falar apenas em determinadas instituições financeiras, planos de saúde, etc., que "compram" récitas para seus clientes e interessados; nenhuma delas, até onde vai meu conhecimento, investe na produção do espetáculo e usa dos recursos fiscais das leis de incentivo em seu benefício). Existe a lei Rouanet de incentivo fiscal..... sabemos que projetos de música popular recebem incentivos altíssimos de milhões de reais para realizar espetáculos com ingressos caros, produção de DVDs e CDs que serão vendidos no mercado e produzirão lucros adicionais para os artistas beneficiados ... Quantas montagens de óperas no Brasil recebem recursos da Lei Rouanet? quantas delas entram efetivamente com projetos para a captação de recursos privados? o que impede a ópera de se beneficiar desta fonte importante de subsídio?
    g) enfim, nada de infactibilidade, se encarado de modo profissional e sério por pessoas verdadeiramente interessadas na ópera no Brasil ... se realmente existem pessoas interessadas na sobrevivência desta forma de arte entre nós.

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