GUSTAVO DUDAMEL E PLÁCIDO DOMINGO ENCANTARAM PLATEIAS DISTINTAS NO RIO. CRÍTICA DE LEONARDO MARQUES NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.

Regente venezuelano deu grande concerto no Municipal, enquanto famoso tenor fez show crossover nos cafundós da Barra.


Em uma cidade cujo teatro de ópera apresenta uma programação própria de quinta categoria, não espanta que os melhores concertos e espetáculos apresentados em seu palco sejam produzidos por terceiros. A Dell’Arte, que não tem nada a ver com isso, trouxe pela segunda vez ao Rio de Janeiro (a primeira fôra em 2011) a Orquestra Sinfónica Simón Bolívar e o destacado regente venezuelano Gustavo Dudamel para um concerto no Theatro Municipal, na última quinta-feira.
No dia seguinte, o célebre tenor Plácido Domingo e alguns convidados apresentaram na HSBC Arena, na Barra da Tijuca, um show crossover que lembrou, vagamente, o formato dos “Três Tenores”, ainda que com apenas um tenor desta vez.

Mahler, por Dudamel
Quinta-feira, 10 de julho, Theatro Municipal. Plateia tradicional de concertos.
Em sua segunda visita ao Rio de Janeiro, Gustavo Dudamel e a Orquestra Sinfónica Simón Bolívar interpretaram a Sinfonia n° 9, em Ré Maior, de Gustav Mahler. Última sinfonia completa escrita pelo compositor (ele iniciou a décima, mas não viveu o suficiente para completá-la), a nona é costumeiramente interpretada como a despedida de Mahler da vida.
Composta entre 1908 e 1909, e estreada postumamente em 1912, ela reflete um período complicado na vida do gênio austríaco, marcado pela recente morte de sua filha, Maria, por sua demissão da Ópera de Viena e pela descoberta de uma doença cardíaca incurável. Não é difícil concluir (e perceber na música) que foi acometido por algum grau de depressão que Mahler se lançou à composição.
A interpretação de Dudamel começou morna e sua leitura do primeiro movimento, embora satisfatória, pareceu-me apostar demais na cautela. Em certos momentos, a impressão era de que o regente não tinha convicção dos caminhos escolhidos para dar vida à partitura. A partir do segundo movimento, porém, o nível de coesão sonora e interpretativa aumentou consideravelmente, com destaque para passagens nas madeiras (em especial nos fagotes), nos metais e nos violinos. E, do terceiro movimento em diante, movimento este marcado pela precisão e por um final enérgico (que chegou a arrancar aplausos de parte da plateia), Dudamel e seus músicos alçaram altos voos.
O quarto e último movimento, um adagio lírico e sensível, que retoma alguns dos temas anteriores, foi interpretado com enorme expressividade, pautado em uma dinâmica impecável e em uma sonoridade penetrante. A opção de Dudamel por retardar o “desarme” da orquestra ao fim do último compasso, criando um silêncio ao mesmo tempo longo e inquietante (respeitado pelo público, registre-se), reforça a tradicional leitura da obra como a despedida do compositor.
Foi um grande concerto no Municipal, e merecem ser destacados os solos de flauta e violino ao longo da noite, assim como a atuação da primeira harpista.

Plácido Domingo
Sexta-feira, 11 de julho, HSBC Arena. Plateia eclética.
Voltando ao Rio depois de longo período ausente, o tenor Plácido Domingoapresentou-se na Barra da Tijuca com alguns convidados: a soprano porto-riquenhaAna María Martínez, o pianista chinês Lang Lang, o regente norte-americanoEugene Kohn, a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) e o Coro Ópera Brasil, preparado por Jésus Figueiredo. Participou também a cantora popular Paula Fernandes. Por óbvio, reinou o crossover, especialmente na segunda parte, e o que se viu foi mais um show do que propriamente um concerto.
Como já era esperado, devido às dimensões do local, o espetáculo foi microfonado, o que por si só dificulta qualquer avaliação musical mais embasada. A primeira parte, dedicada aos clássicos, começou com Domingo regendo a OSB na abertura da ópera O Guarany, de Carlos Gomes, e seguiu com Ana María Martínez entoando o primeiro movimento da Bachianas Brasileiras n° 5, de Villa-Lobos, sob a regência de Jésus Figueiredo. Lindo o solo de violoncelo de David Chew.
Trechos de ópera vieram a seguir, com Domingo apostando num repertório de barítono: cantou Nemico della pátria, do Andrea Chénier, de Giordano; uma pouco satisfatóriaEri tu, de Un Ballo in Maschera, de Verdi; e o dueto do Conde de Luna com Leonora no começo do quarto ato de Il Trovatore, também de Verdi. Ainda nesta primeira parte, Lang Lang solou o terceiro movimento do Concerto n° 2 para piano e orquestra de Rachmaninoff, e o Ópera Brasil atacou o Coro delle Campane da ópera I Pagliacci, de Leoncavallo.
A segunda parte começou com trechos de musicais americanos e seguiu com Lang Lang exibindo grandes musicalidade e virtuosismo na Polonaise n° 6, Op. 53, de Chopin. Logo depois, ouvimos passagens de zarzuelas, em especial Carceleras, de Las Hijas del Zebedeo, de Ruperto Chapí, interpretada por Ana María Martínez.
A noite terminou com as homenagens de praxe ao país onde este tipo de show é realizado – Aquarela BrasileiraTico-Tico no Fubá (por um Lang Lang impagável),Garota de Ipanema e Cidade Maravilhosa (estas duas com participação de Paula Fernandes). E ainda houve espaço para Bésame MuchoLippen Schweigen (o famoso dueto da opereta A Viúva Alegre) e Granada.
Quem saiu de casa com a expectativa de ouvir um concerto clássico se decepcionou, mas quem se aventurou pelos cafundós da Barra da Tijuca já sabendo o que viria pela frente e encarando a apresentação como um show, e não como um concerto, pode ter saído de lá satisfeito.

HSBC Arena
A casa de shows escolhida pela produção é mal localizada, com pessoal mal preparado (apesar de simpáticos, os funcionários de apoio posicionados na entrada não sabiam informar o local exato da bilheteria para retirada de ingressos, por exemplo). Além disso, com a chuva que caiu na cidade na sexta-feira, o exterior da HSBC Arena apresentava muita lama. Os assentos eram desconfortáveis, e deu trabalho pegar um táxi para voltar para casa.

Foto do post: Gustavo Dudamel e a Orquestra Simón Bolívar,

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