LEMBRANÇAS PESSOAIS DO MURO DE BERLIM : SCHOENBERG E A TAMPA DA PRIVADA. ARTIGO DE OSVALDO COLARUSSO NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.


                           O muro de Berlim, como conheci em 1988. O lado oriental sempre escuro e triste
25 anos da queda do muro de Berlim. Por que não narrar um experiencia pessoal? Lá vai: em 1988 ganhei uma bolsa do Instituto Goethe para fazer meu KDS (Kleines Deutsches Sprachdiplom) em Berlim. Vivi na então Berlim ocidental alguns memoráveis meses até abril de 1989. A bolsa era excelente, com um curso de altíssimo nível, ajuda de custo para livros, alimentação, e ainda por cima morei num magnifico apartamento alugado pelo próprio Instituto. Aproveitei o que pude para ver concertos e óperas, e cruzei diversas vezes o muro para assistir espetáculos únicos (uma Sinfonia de Berio regida pelo autor por exemplo) e muitas, muitas óperas na Staatsoper, a ópera de Berlim Oriental. Agradeço aos céus por ter vivido em Berlim naquela época pois quem não viu a grotesca separação da cidade pelo muro não faz ideia do que existiu por lá. Berlim oriental, a capital da Alemanha comunista, parecia uma cidade fantasma, vazia e sem turistas. Mas a vida cultural não ficava a dever em nada a Berlim Ocidental. Ir do lado capitalista para o lado comunista não era impossível: tínhamos que apresentar passaporte, enfrentar fila, fazer um câmbio obrigatório bem desvantajoso e podíamos permanecer em Berlim Oriental até a meia noite. Do lado comunista para o lado capitalista a travessia era impossível para a maioria das pessoas. Só podiam atravessar os que tinham pelo menos 70 anos de idade ou privilegiados funcionários do governo. Xereta como sempre fui estive em Supermercados e vi donas de casa disputando cenouras quase podres, prateleiras vazias e muitas latas de sardinha. E Berlim Oriental era a capital. Imagino o que ocorria nas pequenas cidades. As partituras eram baratíssimas, mas tínhamos que comprar o que tinha, pois inexplicavelmente alguns itens sumiam. Meu pai, que falecera em 1987, era um admirador do regime comunista. Sem dúvida ele ficaria muito triste se eu contasse o que vi na Alemanha oriental e na Tchecoslováquia, países que visitei no meu período alemão.
Na minha primeira ida a Berlim Oriental fui na Staatsoper para ver o que seria apresentado até o fim de meu curso. Me interessei por diversas produções, e a primeira que assisti foi um Tristão e Isolda de Wagner, com Ingrid Haubold, Heikki Siukola e Theo Adam. Era um domingo à tarde.
A Ópera Estatal de BerlimA Ópera Estatal de Berlim
Achei estranho ter que usar o passaporte para ver uma ópera na mesma cidade mas lá fui eu. Descobri a coisa mais sensacional de Berlim Oriental: o público. Era uma plateia que vivia o drama dos amantes da ópera de Wagner como se fosse uma experiência de catarse, comparável ao que teria sido o público das tragédias na Grécia antiga (Infelizmente pude constatar que este tipo de público não existe mais por lá). No intervalo do primeiro para o segundo ato desci para conhecer um pouco mais o teatro quando vi um grupo de rapazes brasileiros. Um deles me reconheceu e disse bem alto: “Estamos salvos, este é o maestro Colarusso”, disse um deles que já tinha assistido alguns concertos didáticos que tinha regido por aqui. Era um grupo de engenheiros curitibanos que estavam fazendo uma especialização na Universidade Humboldt. O orientador deles achava que tinham que ver uma ópera e os pobres coitados não tinham entendido nada daquele longo primeiro ato. Bom, expliquei o que tinha acontecido no primeiro ato e adiantei o que se passaria nos atos seguintes. Um jovem alemão (tinha 17 anos) chamado Johann ficou curioso e me perguntou: “Que língua o senhor (Sie) está falando?”. Disse que era português, que eu era brasileiro. Johann se tornou o meu amigo berlinense. Bem “nerd”, extremamente culto (sabia onde ficava Curitiba), era doido por Wagner. Infeliz por não poder ir para Berlim Ocidental, pois sabia das produções wagnerianas que se faziam por lá, não podíamos nem mesmo nos telefonar, cada um morando de um lado diferente do muro. Acabamos nos encontrando todas as vezes que ia a Berlim Oriental. Numa das vezes ele, com inúmeros rodeios, me pediu para trazer uma coisa de Berlim Ocidental que há meses não se encontrava na capital comunista alemã: uma tampa de privada. Eu, que a princípio não entendi bem o que ele estava pedindo, prometi tentar. No dia seguinte, em Berlim Ocidental, depois da aula, fui procurar o que Johann tinha pedido. Comprei a tal da tampa de privada e na minha próxima ida a Berlim Oriental, quando ia assistir Moses und Aron de Schoenberg (com Theo Adam e Reiner Goldberg) pensei em levar a encomenda. Quando a polícia comunista viu aquele embrulho na estação de Friedrichstrasse (onde fazíamos a passagem pro lado comunista) fizeram o maior escândalo. Desfizeram o embrulho e depois de muita conversa deixaram eu passar. Mas como o embrulho estava desfeito, todos na rua viam aquele cobiçado objeto. Me encontrei com o Johann na porta da Staatsoper que ficou vermelho ao ver o mico que eu estava pagando. Mas o mico foi ainda maior: a funcionária do Guarda Roupa (onde deixa-se os casacos no teatro) não aceitou ficar com a tal da tampa. Resultado: assisti Moses und Aron segurando uma tampa de privada, com as pessoas todas me olhando como se eu fosse um ET. Felizmente o espetáculo foi bom demais: que coro e que orquestra maravilhosos, regidos por um maestro fantástico chamado Friedrich Goldmann, um dos melhores maestros que já vi. A encenação (de Ruth Berghaus), bem comunista, fazia que quando Deus falava para Moisés, um orelhão era fortemente iluminado: para os “materialistas dialéticos” a voz de Deus vinha por um cabo telefônico…
Em 1992, três anos depois da queda do muro, voltei a Berlim, e procurei o Johann. Ele não tinha mais nada de “Nerd”. Estava cabeludo, tatuado, e ao invés de Wagner curtia rock pauleira. A queda do muro transformou sua vida…
Osvaldo Colarusso
Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/falando-de-musica/

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