"MADAMA BUTTERFLY" NO MUNICIPAL DO RJ - UM SUCESSO. CRÍTICA DE MARCUS GÓES NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.

HIROMI recebeu exaltante e merecida ovação ao final.

Todas as direções do TMRJ – musical, cênica, artística, e mais que seja – incidiram no conhecido e propagado erro da criação de MADAMA BUTTERFLY na Scala em 1904: levaram o segundo ato sem intervalo, fazendo dele um ato longuíssimo. Se o próprio Puccini o dividiu em dois, é muita falta de visão teatral, operística e musical mantê-lo uno.
Isso no entanto não impediu o sucesso do evento, principalmente pela atuação da protagonista HIROMI OMURA, soprano lírico puro japonês que, mesmo apresentando em algumas passagens o problema principal das líricas – a voz cresce nos agudos e super-agudos e perde volume no centro, nos parlatos e nos graves – nos deu uma Butterfly como há muito não víamos no TMRJ.
A região aguda da voz de HIROMI é entusiasmante pela firmeza, sustentabilidade, beleza de timbre e riqueza de harmônicos, o que não quer dizer que seus médios e graves fujam destas qualidades. É com extremo deleite que a ouvimos nessas regiões, mesmo com menor volume. Sua atuação cênica é simples e sentida, e por isso mesmo convincente. Aí já se nota o dedo da encenadora, de que falaremos mais tarde.
Mas MADAMA BUTTERFLY não é só a protagonista. O tenor FERNANDO PORTARI atuou muito bem, voz agradável e correta, figura ideal para a personagem. A Susuki de DENISE DE FREITAS é excelente, na voz e no desempenho cênico.( ……) O Sharpless de RODOLFO GIUGLIANI esteve abaixo do que se esperava. Cantou ele com voz pequena, sem entusiasmo, com extrema frieza, o que o fez destoar de seus colegas acima mencionados. Já o vimos em outras ocasiões e o sabemos capaz de atuações mais convincentes.
Para o sucesso geral da récita, em muito contribuiu a regência de ISAAC KARABTCHEVSKY. Houve trechos de antologia, como o coro “a bocca chiusa”, mantido em notável pianíssimo, o intermezzo do segundo ato, o final triste e solene. E no geral foi mantida uma melancolia expressa através da contenção da orquestra, o que é a marca registrada de MADAMA BUTTERFLY.
A direção cênica de CARLA CAMURATI acompanhou o nível geral da empreitada, com detalhes preciosos, como o bater continência de Pinkerton (quando o oficial na cena do casamento fala em “marina degli Stati Uniti”), o uso do boné de oficial na mesma cena, a disfarçada demonstração de desagrado do mesmo Pinkerton (quando Butterfly demora a atender seus chamados de “vieni, vieni”), a leitura da carta sem exageros, a morte de Butterfly, idem. Como pontos de menor valia na encenação, a entrada lateral de Butterfly e o posicionamento do coro em linha atrás de todos.
Os outros cantores, todos prejudicados pela acústica atual do teatro, apresentaram uns vozes menores que as que possuem, outros vozes mínimas, outros nenhuma voz. Não é agradável para quem escreve citar nomes.
Os cenários de RENATO THEOBALDO são muito bonitos, para o que contribui a iluminação de CARINA STASSEN, incerta em alguns momentos, mas ainda assim eficiente. Os figurinos de CICA MODESTO: uns são merecedores de maior brilho e presença (Yamadori e Comissário, por exemplo), outros de menos idem (Bonzo). Os demais são bonitos e combinam com os cenários.
Há um chamado “coreógrafo de ação”, o que a nós soa estranho. ”Coreógrafo de ação” deve por força ser o encenador, o diretor de cena, o “régisseur”, o “metteur em scène”, o “reggista” e por aí. “Coreógrafo de ação” é uma anomalia.
Mas essa BUTTERFLY foi um sucesso e pronto. O TMRJ encerra um ano pobre de óperas, mas rico de balés, música sinfônica, de câmera e recitais. Sem esquecer aquela magnífica SALOME e agora esta MADAMA BUTTERFLY com a mais que magnífica HIROMI OMURA.
Puccini não gostava que se escalasse soprano japonês para BUTTERFLY. Dizia ele que a ópera era italiana e que a ser assim se devia chamar um soprano etíope para Aida e uma francesa para Violetta Valéry… Mas dizia isso porque não viu HIROMI OMURA como Cio-Cio-San…
DIEDI IL PIANTO ALLA ZOLLA/ ESSA I SUOI FIOR MI DÁ (LUIGI ILLICA)
MARCUS GÓES – 30 NOV 2014

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