CRÔNICAS OPERÍSTICAS: AIDA, CALLAS, DEL MÔNACO, TADDEI, MÉXICO , 1951. ARTIGO DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.

   
   Aída,  de Giuseppe Verdi,  é garantia de teatro lotado em qualquer época e lugar no mundo. Música de beleza inconfundível, apaixonante, você sai assoviando as melodias após a récita. Inspirada no gênero Grand-Opera francês onde predomina o exagero. Tudo é monumental nesse estilo, suas principais caraterísticas são: Temas históricos em lugares exóticos, grandes massas corais, orquestras enormes, efeitos cênicos de arrasar, cenários e figurinos grandiosos repletos de luxo e extravagância, grandes elencos com quatro ou cinco atos e a presença obrigatória do balé.  
   Os mexicanos contrataram o melhor time de cantores da época para a récita do dia 03 de Julho de 1951. Mario del Mônaco, Maria Callas, Oralia Dominguez e Giuseppe Taddei, todos no auge vocal. Mas uma récita nunca é igual a outra: fatores de palco fizeram essa Aída ser histórica, diria que inesquecível.   
   Callas sempre foi polêmica, adorava uma encrenca, fazia uma lambança atrás da outra. Em 1951 estava com a voz tinindo.         
   Começa o primeiro ato, nada de estranho, todos exercem com categoria seus papéis. Aplausos ecoam por todos os lados, sombreros voam para o palco. O mesmo acontece no segundo ato, mas um detalhe na cena final, incendiou tudo. Callas sabia que o soprano Angela Peralta, no longínquo século XIX,  emitira um MI BEMOL superagudo no final da cena triunfal. Resolve por conta e risco fazer o mesmo naquela noite, à toda força, com controle absoluto da voz  e sustenta a nota por eternos 8 segundos. Cobre todo mundo, solistas, orquestra e coro, todos  ficaram vendo as areias do deserto. Ninguém achou graça.  Del Mônaco,  furioso,  parte pra cima assim que fecham as cortinas, se fosse homem tomaria uns sopapos. Taddei se vingaria mais tarde. 

   O terceiro ato é pura eletricidade.  Taddei entra em cena, segura Callas com toda a força e lhe dá um baita empurrão, derrubando-a sobre o cenário. Os mexicanos deliram, acham que a queda faz parte do espetáculo. O soprano machuca as costas. Del Mônaco, por sua vez, sustenta todas as notas possíveis e imagináveis. O fôlego dele é raro, Callas tenta acompanhar, mas se cansa. Dessa maneira aplacou sua fúria, vingou-se em uma batalha de titãs. Felizmente existe uma gravação em áudio para confirmar os fatos.
   Alguns duvidam, acham que tudo é ficção barata,lorota, portanto vamos às fontes primárias. Taddei,  em visita ao Brasil, jantando na casa de Edson Lima,  confirma que ficou furioso e empurrou Callas com intenção de machucá-la. A própria também, confirma em conversa, com o mesmo Edson Lima,  na França,  que ficara com as costas machucadas. As notas emitidas por ela e por Del Mônaco estão presentes na gravação.
   Callas é pura polêmica, seu dom interpretativo é único, seu gênio também. Pavio curto, ou melhor, a mulher nem tinha pavio, explodia por qualquer coisa. Geniosa, as pessoas a aturavam pela sua arte. Trouxe a interpretação cênica para a ópera, foi capaz de desenterrar uma ópera que estava mofando em algum arquivo,  Medea,  de Cherubini, e trazê-la ao repertório. Casou com um grego cheio da grana, abortou um filho e arrumou um monte de encrencas pelo mundo. Para motivar a lenda, não nos ficou nenhuma mísera gravação em vídeo de uma ópera completa dela. Isso é Callas, uma mulher de extremos. 

Ali Hassan Ayache

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