FALSIFICAÇÕES MUSICAIS. ARTIGO DE OSVALDO COLARUSSO NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.

                                 Quadro de Han Van Meegeren de 1936 vendido como se fosse um verdadeiro Vermeer

Quando falamos de falsificações nos vem à mente um quadro que tem sua autoria questionada. Lembramos, por exemplo, da dúvida a respeito da autoria de um suposto quadro de Rembrandt no MASP ou de um trabalho de um pintor que em 1936 foi vendido como um verdadeiro Vermeer (foto).O que gostaria de lembrar é que na música clássica também já atuaram inúmeros falsários, com produtos enganadores que levaram grandes intérpretes a “pagar o mico” de promoverem obras falsas. Eis uma breve lista:
Adagio de Albinoni
Exemplo de uma famosa falsificação musical é um Adagio em sol menor atribuído ao compositor barroco italiano Tomaso Albinoni (1671-1751). Esta partitura apareceu em Milão no ano de 1948, como um movimento perdido de uma sonata em três movimentos. Sua estética que se aproxima mais de um verismo italiano do início do século XX levantou dúvidas dos especialistas desde sua “descoberta”. No entanto o maior defensor da autenticidade, o musicólogo italiano Remo Giazotto (1910-1998), foi quem realmente compôs a chorosa página. Depois de um intrincado e policialesco caso de investigação descobriu-se que seu sonho era colocar Albinoni, por quem era apaixonado, no mesmo patamar de popularidade de Vivaldi e Corelli. O pior desta falsificação é que o famoso maestro Herbert Von Karajan caiu direitinho na armadilha. Gravou a obra mais de uma vez, mesmo sendo alertado que era uma grosseira falsificação.
O falso Concerto para violino de Mozart
Em 1929 o violinista e maestro francês Marius Casadesus (1892-1981) noticiou que havia encontrado na França uma partitura perdida de Mozart: um concerto para violino e orquestra que Mozart teria escrito com pouca idade. Teria sido uma obra composta quando o compositor tinha 10 anos de idade dedicada à princesa Adélaïde, filha de Luiz XV. A obra foi editada pela Schott alemã (que o chamou de Concerto Adélaïde) e até ganhou um número suplementar no famoso catálogo Köchel: 294a. Uma das maiores vergonhas neste caso é que quem conferiu este número de catálogo foi Alfred Einstein, autor de uma das mais respeitadas biografias de Mozart. Fez-se todo um alvoroço e diversos violinistas se esbofetearam para ter a honra de mostrar ao mundo o concerto perdido de Mozart. Quem “pagou o mico” foi o grande violinista Yehudi Menuhim, que além da estreia em 1931 gravou no mesmo ano para o selo EMI. Em 1977, depois de uma árdua briga sobre direito de autor Marius Casadesus confessou que ele compôs a obra. Vergonha para muitos, glória para os diversos músicos que desde o início defendiam que a obra era uma falsificação.
Um concerto dito de Johann Christian Bach
Ao que parece a família Casadesus, que teve um grande pianista (Robert Casadesus) e um excelente maestro (Jean-Claude Casadesus) tem também um lado obscuro. O violista Henri-Gustave Casadesus (1879 -1947), tio de Marius Casadesus, teria sido o descobridor de um concerto para Viola e orquestra de um dos filhos de Bach, Johann Christian Bach (1735 – 1782). Mais uma vez ao se discutir as questões de direito de autor foi levado a gaguejar de que o Concerto teria sido escrito por um outro filho de Bach, Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788). Pressionado acabou confessando que o autor era ele mesmo, o próprio “descobridor”. Ele teria feito um longo e astuto trabalho de falsificação, fazendo-o aparecer numa obscura edição russa em 1911, e pedindo que um conhecido maestro fizesse uma edição do “achado”. Quem “pagou o mico” desta vez foram grandes nomes da regência como Eugene Ormandy e Felix Prohaska, que gravaram a obra acreditando que a mesma era verdadeira. Os violistas, tristes com seu parco repertório, adotaram o concerto como Concerto para viola e orquestra de J.C. Bach/Casadesus. O título certo seria mesmo: Concerto para viola e orquestra de Henri-Gustave Casadesus, vagamente baseado no estilo barroco.
Um livro fantasioso
Para completar a lista chegou a vez de se falar de um livro. Falo das memórias da segunda esposa de Johann Sebastian Bach, Anna Magdalena Bach. O livro, bem conhecido, se chama “Pequena crônica de Anna Magdalena Bach”. Até mesmo um filme foi feito baseado nele. O que se descobriu é que a pobre Anna Magdalena Bach nunca escreveu este livro. A autora foi uma dona de casa inglesa chamada Esther H. Meynell, que escreveu a falsificação em 1925. Por mais apaixonante que sejam suas narrativas, são todas obras de sua imaginação. Hoje em dia o fantasioso livro é ainda vendido, mas por uma questão legal, a dona de casa aparece como a autora. A imprecisão e a omissão foram muito vantajosas para os editores.
Osvaldo Colarusso
Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/falando-de-musica/

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