MUNICIPAL DO RIO ABRE TEMPORADA LÍRICA COM "FIDELIO" CONTEMPORÂNEO. CRÍTICA DE MARCO ANTÔNIO SETA NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.



Fidélio foi a primeira e única tentativa de Beethoven no setor lírico e fê-lo derramar lágrimas de sangue.
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Explicava ele mais tarde: “esta obra conquistou-me a coroa de mártir”.  A obra desafiou sua capacidade e tornou-se-lhe uma obsessão.  Foi feita e refeita com o mais meticuloso cuidado; uma ária chegou a ser escrita dezoito vezes. Beethoven, o supremo dramaturgo das nove sinfonias e das sonatas para piano, escrevia agora o seu primeiro trabalho para o verdadeiro teatro. Deparou-se-lhe um enredo relativamente fraco, mas ele procurou convertê-lo numa afirmação de amor e liberdade.
Ópera em dois atos, com libreto de Joseph Sonnleithner e Georg Friedrich Treitschke,Fidelio foi apresentada pela primeira vez no Theater an-der-Wien  a 20 de novembro de 1805 num momento infeliz, quando os franceses haviam entrado em Viena e a corte fugiu para Shonbrunn; e a cidade de Viena, por conseguinte, não se encontrava predisposta para ouvir uma nova ópera. Na plateia só havia soldados, que lá acorreram para se distrair ouvindo música.
Beethoven realizou profundas modificações, persuadido por amigos, preparou uma bela abertura completamente nova e reduziu os três atos iniciais para dois, simplificando também, o texto. Revisou a orquestração e então reapresentou-a em 23 de maio de 1814 (2ª versão), no Karntnertor Theatre em Viena, assegurando para si um êxito permanente.
Para Beethoven, Leonora (soprano dramático) era o símbolo da liberdade que, livrando Florestano das trevas de sua cela, libertava igualmente todos os outros prisioneiros. Uma das grandes páginas da ópera, uma das mais nobres do repertório lírico romântico, é o sublime Coro dos Prisioneiros – O welche Lust -, empolgante hino à liberdade, no qual o compositor retrata a saída dos prisioneiros de suas celas para a luz do sol. O Coro do Theatro Municipal canta brilhantemente aquelas páginas, que são as mais elevadas afirmações de fé na democracia feitas por Beethoven. Bravos ao Coro, que participou cantando na plateia.
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Isaac Karabtchevsky abre a temporada carioca numa regência categórica e brilhante, conduzindo os músicos e os solistas, protegendo-os de serem encobertos pela sonoridade da Orquestra do Theatro Municipal.  A abertura de n. 3 –  Leonora,  foi preferida pelo maestro Karabtchevsky para abrir a récita em ótima leitura pelos músicos, ficando a abertura Fidelio desconsiderada nesta produção.
Na direção cênica brasileira, destacou-se recentemente na dobradinha lírica (Um homem só e Ainadamar, TMSP), na qual Caetano Vilela brilhou rotundamente em trabalho ágil, gabaritado e sobretudo moderno. No Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em récita vesperal de estreia, Christiane Jatahy, diretora de cena do espetáculo, declara: “Beethoven fala de liberdade, de igualdade de direitos, de integração”; o que a faz tomar esse rumo neste trabalho. E nesse sentido, é que a encenação de Jatahy apaga a fronteira entre as linguagens da ópera, cinema e teatro.
Ela resolve, então misturar essas linguagens artísticas, rompe com a quarta parede e aproxima os artistas do público, unindo palco e plateia como única zona de encenação. Contudo, isso não justifica a encenadora anular a cena dos solistas, colocando-os sentados em cadeiras, na maior pare da execução, fazendo-os cantar estáticos, numa enfadonha situação em favor de projeção de um filme mudo e de péssima visibilidade com solistas cantando o que lá se passa. E ao considerarmos que o palco totalmente aberto, escancarado daquela forma, se torna uma cratera para os cantores, dificultando assim a audição do público. E fica aqui uma pergunta aos espectadores: o palco nu, sem cenários, só com os mecanismos internos… será que é instigante levar o teatro contemporâneo à ópera?
Resta registrar que o resultado final não agradou e Jatahy levou várias manifestações de desagrado ao entrar no palco para agradecer. E pensar ainda que contrataram-se dois figurinistas para realizar aqueles figurinos. Por favor, tenham pena do dinheiro do povo do estado do Rio de Janeiro.

O elenco
O soprano portorriquenho Melba Ramos tem bom currículo, todavia seus recursos canoros, sua tessitura vocal e a sua técnica não se encaixam com a escrita de Beethoven, tornando insatisfatório o seu rendimento como Leonora.
Martin Homrich, o tenor dramático alemão, demonstrou possuir boa escola. Já emGott! Welch’ Dunkel hier! revelou-se um cantor que sabe e domina a fonética, seus desígnios, fazendo do Florestan uma correta interpretação do prisioneiro.
No papel de Rocco, o baixo brasileiro Savio Sperandio saiu-se muito bem vocalmente. Santiago Ballerini, tenor lírico argentino, como Jaquino, mostrou-se musicalmente competente e desenvolto. A norte-americana Julie Davies, soprano lírico, apresentou-se muito à vontade como filha de Rocco (Marzelline), apesar de enfrentar os problemas do palco sem fronteiras.
O barítono Sebastian Noack tem a formação específica para as óperas alemãs em papéis variando de Mozart, Berg, Wagner, antecedidos por Bach, Händel e Schumann, que lhe possibilitam satisfatória a sua interpretação de Don Pizarro. E, finalmente,Paul Armin Edelmann é um baixo convincente na pele de Don Fernando. Colaboraram eficazmente o tenor Ricardo Tuttmann (1º prisioneiro) e o barítonoFabrizio Claussen (2º prisioneiro). em suas breves intervenções.

Marco Antônio Seta

Fonte: http://www.movimento.com/

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