DANÇA SACRALIZADA. CRÍTICA DE WAGNER CORREA DE ARAUJO NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.



A segunda noite do Festival O Boticário na Dança trouxe a surpresa inventiva de “Torobaka”, realização conjunta dos coreógrafos Israel Galván( Espanha) e Akram Khan( Inglaterra).
Inspirada num poema fonético do escritor dadaísta romeno Tristan Tzara, de origem judaico/cigana , a coreografia reúne a tradição das danças flamenca e kathak (do norte da Índia), promovendo um mix de influências cigano/religiosas, com um sotaque de contemporaneidade.
Na obra fica evidenciada a transposição de duas linguagens gestuais de polos aparentemente opostos. De um lado a paz e espiritualidade da cultura indiana através de Akram Kan ( de família bengali radicada em Londres) e a pulsão e paixão do flamenco pelo andaluz Israel Galvan.
Num primeiro momento, poderia parecer mais uma destas experimentações “fusion” , termo que os dois criadores preferem substituir por “con/fusion”. E vão mais longe, ao compararem este trabalho “à destruição de uma pintura seguida de sua reconstrução, recolocando seus elementos em lugares diferentes do original”.
Recorrendo à ancestralidade indiana, na raiz etimológica do sânscrito tan (tanz, danza, dance, dança) como energia, pulsão, tensão, encontramos em “Torobaka”esta nuance simbológica de sacralização irradiada na matéria humana em movimento.
Galvan e Akram, os dois intérpretes coreográficos revelam detalhamento primoroso na largueza dos braços e manipulação das mãos ,volteios do corpo e precisão das batidas dos pés ora nus, ora com o ruído dos sapatos flamencos ou dos sinos indianos nos tornozelos.
Acompanhados, ao vivo, por quatro músicos/cantores (que acabam se integrando à performance coreográfica), em sensíveis cânticos e efusivas sonoridades instrumentais, de tablas e cítara,e nas vocalizações polifônicas de música gregoriana a hinos védicos (sob a direção musical de David Azurza).
Num tablado /arena, marcado por um belo círculo cênico de luzes( Michael Hulls), um quase tributo desenhado a la Picasso, de touros e vacas, como animais artisticamente sacralizados .
Neste caminho de um dinamismo extático, configura-se uma obra em processo, sujeita certamente ao entusiasmo dos improvisos estéticos,em seu explosivo gestual que arrasta, numa mesma emoção, palco e plateia.
Enfim, um espelho interativo de duas culturas , espírito e matéria num processo mimético , no mágico fluxo desta singular proposta coreográfica onde, na reflexão de seus próprios mentores:
“Ambos nos transformamos em monges, dois homens santos, no retirado mosteiro da dança”.
Wagner Correa de Araujo.

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