FIDELIO : ÓPERA LIBERTÁRIA. CRÍTICA DE WAGNER CORREA DE ARAUJO NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.



Fidélio teve uma trajetória conturbada desde à sua primeira versão( 1805), fracassada, até a definitiva de 1814, um sucesso. Esta única incursão operística de Beethoven , inspirada na dramaturgia original de Jean Nicolas Bouilly, ainda sob os efeitos ideológicos da Revolução Francesa, fascinou o compositor por seu caráter de ode lírica à liberdade através do amor.

Sem nenhuma concessão ao imediatismo melódico e a malabarismos vocais tão ao gosto do público da época , Fidélio seguiu outro caminho, apostando na solidez da arquitetura musical /dramática e no sensível apelo humanista do libreto.

Pouco frequente no repertório usual das temporadas ( chegando mesmo a ser apresentada em versões italianas ,como sua première no Municipal carioca em 1927), apesar de tudo impressiona por sua tessitura orquestral e vocal, capaz de colocá-la na mesma dimensão de sua Missa Solene e da Ode à Alegria ,no fechamento da Nona Sinfonia.

Neste aspecto, foi valorizada pela significativa condução orquestral de Isaac Karabtchevsky, no preciso dimensionamento dos diferentes planos sonoros, acentuados,mais ainda, pela vigorosa consonância do Côro do TM. Este último, sem dúvida , responsável pela culminância interpretativa na calorosa cena final de júbilo do Coro dos Prisioneiros.

Quanto ao elenco, teve um desempenho vocal satisfatório, atendendo, às difíceis exigências da partitura. Embora sem brilhos absolutos, vale destacar a linha cantável de solistas,entre outros, como a soprano norte-americana Julie Davies, em sua expressiva coloratura dada a Marzelline.Ou o tenor argentino Santiago Ballerini, de apuro convincente como Jaquino.
E ainda a feliz revelação , mesmo em breves acordes , do tenor brasileiro Ricardo Tuttmann(Prisioneiro).Valendo ainda ressaltar pela especificidade vocal alemã adequada ,Martin Homrich(tenor) , Sebastian Noack( baritono) e Paul Armin Edelmann( baixo).




O questionamento da montagem ficou na pergunta sem resposta para o público no que se refere à concepção cênica. No intervalo entre os dois atos prevaleceu a dúvida sobre se estava ali para um concerto cênico , para uma ópera em forma de concerto ou , talvez, para a um drama lírico contemporâneo.

Polemizou ,enfim, a visão particularista de uma excepcional encenadora teatral (Christiane Jatahy) ,em sua estreia no gênero operístico, com a proposta de quebra total de paradigmas do espetáculo lírico ,no mix de experimentações estéticas e diversidade de linguagens.

O exclusivo uso da ambientação do teatro além do palco, em detrimento da construção de cenários, a utilização de figurinos cotidianos sem unificação visual( Antonio Medeiros/Tatiana Rodrigues), além da quase não representação gestual do elenco( preso a cadeiras) , interferiram na apreensão da essência do drama.

Vazio que não foi preenchido nem mesmo com a exibição do belo filme da diretora, ficando o desvendar do enredo ora distanciado da performance cênica,ora circunscito ao songspiel ( textos falados) e a instantaneidade narrativa da exibição das legendas.

E fragilizando ,assim, sua efetiva compreensão que ,ali, se faz mais que necessária, pois já dizia , em 1950, o maestro Wilhelm Furtwängler:

“Fidélio é , em verdade, mais uma missa que uma ópera. Os sentimentos expressos em suas palavras a aproximam de uma religião, a religião da humanidade”.


Wagner Correa de Araujo

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