MÚSICA CLÁSSICA - OS ERROS NOSSOS DE CADA DIA. ARTIGO DE OSVALDO COLARUSSO NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.



Existem certos títulos, ou termos, usados por qualquer um que toca ou escuta música clássica, que são profundamente incorretos. Por mais incorretos que sejam continuam e, infelizmente, continuarão a serem utilizados. Mas vale a pena ver o monte de besteiras que se tornaram falsas verdades. Eis uma pequena lista:

Os nomes falsos das Suítes para cravo de Bach
Todo pianista ou cravista, estudante ou profissional, costuma dizer que está estudando uma Suíte inglesa ou uma Suíte francesa de Bach. Creio que até o próprio Bach ficaria surpreso com estes títulos. As chamadas Suítes inglesas, escritas por volta de 1720, só ganharam este título algumas décadas depois da morte do compositor. Quem fez a besteira foi um senhor chamado Johann Nikolaus Forkel (1749-1718). O estranho é que estas Seis Suítes são a obra mais francesa que Bach escreveu para cravo, e o próprio compositor colocou longas instruções na partitura escritas por ele mesmo em francês. Em resumo, chamar estas obras de forte sotaque francês e italiano de “Suítes inglesas” é um absurdo. Para diferenciá-las, as outras seis suítes de Bach para cravo, escritas na mesma época, foram batizadas postumamente de Suítes francesas. Mais uma besteira do senhor Forkel: as Suítes francesas utilizam uma textura que se distancia muito das obras francesas que Bach tanto amou. Enfim, essas obras primas mereceriam nomes mais precisos.

O nome errado da mais popular sinfonia de Mozart
A Sinfonia em sol menor, catalogada por Ludwig Köchel com número 550, é comumente chamada de Sinfonia Nº 40, e se tornou a mais conhecida do mestre. Este número, e das demais sinfonias de Mozart, é mais um título errado, mas que deverá se perpetuar. Há décadas se sabe que as Sinfonias 2,3 11 e 37 não são obras de Mozart, e sim, respectivamente, de Leopold Mozart, Carl Friedrich Abel, Carl Ditters von Dittersdorf e Michael Haydn. Quem diria: a Sinfonia mais popular de Mozart é na verdade a 36ª que o compositor escreveu. Em resumo o total de sinfonias para orquestra de Mozart está inflacionado. Ele compôs apenas 37, e não 41.

O “milagre” errado de Haydn
O compositor austríaco Joseph Haydn adorava que suas sinfonias ganhassem apelidos. Isso as tornava mais populares. Isto explica os nomes muitas vezes curiosos: “Surpresa”, “O relógio”, “Oxford”, etc. Uma Sinfonia de Haydn, a de número 96 tem o apelido de “Milagre”. Este tal de “Milagre” realmente aconteceu. No Hanover Square Rooms, teatro em que eram apresentadas as Sinfonias de Haydn em Londres no final do século XVIII, houve um acidente na estreia de uma destas sinfonias: o lustre despencou! Por um “milagre” ninguém se feriu. Apesar de que a Sinfonia Nº 96 em ré maior ficou com o apelido, na noite em que o lustre caiu a sinfonia que foi estreada foi a de número 102 em si bemol maior. A incorreção se deve ao próprio Haydn, que pensava que ninguém iria dar muita atenção para sua sinfonia Nº 96. Atribuiu-lhe então o tal do “milagre”.

Os falsos nomes das sonatas de Beethoven
É muito comum chamarmos a Sonata opus 27 Nº 2 de Beethoven de “Sonata ao luar”. Este meloso título foi colocado na obra muito depois da morte do autor por um certo Senhor Ludwig Rellstab (1799-1860), falando a besteira que a lua refletindo as águas do lago de Lucerna teriam inspirado o compositor. Beethoven nunca esteve em Lucerna. Beethoven teria aprovado os títulos “Patética” e “Apassionata”, mas chamar a Sonata em dó maior opus 53 de “Aurora” é de chorar. Se é para dar um apelido a esta obra prima é melhor chamá-la de “Waldstein”, nome daquele para quem a obra foi dedicada.
Chopin
Creio que por razões de ordem comercial e sentimental Chopin é meio o campeão dos apelidos apócrifos de péssimo gosto. Daí surgiram o “Prelúdio da gota d’agua” (em ré bemol maior Opus 28 Nº 15) e os estudos chamados de “Ventos de Inverno” (em lá menor opus 25 N°11), “Revolucionário” (opus 10 Nº12), “A queda d’agua” (opus 10 Nº 1) e o pior de todos “Tristesse” (opus 10 Nº 2). Bobagens que, infelizmente, se perpetuam.
Osvaldo Colarusso
Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/falando-de-musica/

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