DANÇA E SIGNOS SEXUAIS. CRÍTICA DE WAGNER CORREA DE ARAUJO DO ESPETÁCULO BELLE QUE ESTARÁ EM CARTAZ ATÉ AGOSTO NO TEATRO JOÃO CAETANO/RJ.



A sexualidade faz parte do universo coreográfico desde a sua sistematização acadêmica. O que não quer mostrar o balé clássico, com seus fantasiosos enredos ,senão a relação sentimental e uma insinuada atração sexual entre um homem e uma mulher?.

Esta forma estética de sublimação, no alvorecer do século XX, fez as plateias reagirem furiosas com as posturas de ruptura do fauno de Nijinsky liberando seus desejos eróticos em cena ou o estado de excitação orgiástica causado pelo sacrífico de uma virgem na Sacre du Printemps. Como gerou estranheza a coreografia de Nijinska para Les Biches onde as pequenas corças ( biches) ou meninas adolescentes são assediadas por jovens atletas narcisistas .

Evoluindo nas décadas seguintes, com Martha Graham trazendo temáticas de liberação das tensões sexuais nas suas criações coreográficas. Para atingir, em nosso tempo, a conceituação de uma dança como teatro dos sentidos, sem limites físicos e fronteiras morais.

Estas reflexões são a propósito da Cia de Dança Deborah Colker que , em termos nacionais, é o grupo que foi mais longe na total liberação da rigidez acadêmica dos torsos , alcançando um estilo de movimentação física ,sensual e tão excitante , que a fez próxima dos riscos das competições atléticas. Com esta marca ganhou status e conquistou multidões em suas inúmeras turnês aqui e além mar.

A partir de 2011, a Cia passou a investir na concepção coreográfica narrativa com referencial neo-clássico , começando com Tatyana ( a partir do Eugene Oneguin, de Puchkin) e, agora, Belle, mais livremente inspirada no romance de Joseph Kessel e no filme de Buñuel , ambos com o título de Belle de Jour.

Experiência que dividiu parte do público e da crítica e que , ainda, não atingiu o acertado lance de seu estilo de aposta no gestual físico/acrobático. Onde mesmo a mecanicidade e a aparente robotização dos bailarinos traziam implícita uma vigorosa carga emocional.

Em Belle, a indiscutível qualidade da produção com figurinos exuberantes, a envolvente iluminação e o score musical preciso de Berna Ceppas,além da técnica perfeita dos bailarinos, não conseguem esconder uma sensação de espera por algo mais.

A substituição do abstrato pela narrativa sequencial, acaba incorrendo aqui na previsibilidade, especialmente no clima monótono inicial com sua limitada utilização de sapatilhas de ponta .Quebrada apenas com a sugestiva presença de uma cortina que cria envolventes e erotizadas formas escultóricas . Na sequência, a utilização do corpo como instrumento de prazer num bordel tem melhor alcance da identidade coreográfica da Cia , no dinamismo mais impactante de seu gestual.


E aí, mesmo sendo Belle um balé de enredo ficcional, é retomado o salto inventivo de Debora Colker na dança contemporânea brasileira ,na sua superlativa conjugação do físico com o emocional, apresentando um expressivo retrato coreográfico dos desejos humanos.

Wagner Correa de Araujo

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