PRA QUE SERVE UMA ORQUESTRA. ARTIGO DE VIVIANE CARNIZELO NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.



Esta pergunta tem rodado jornais de grande circulação, saguões de salas de concerto e conversas pouco amigáveis há algum tempo. Ela voltou à tona depois das notícias vindas de uma das Filarmônicas mais respeitadas do mundo, a de Berlim, a respeito da sucessão de seu regente, Sir Simon Rattle. Sem acordo entre os músicos, que votam diretamente para eleger um novo nome, a decisão foi postergada para daqui um ano. O problema da sucessão também esteve em pauta em nossa orquestra, a OSESP. Depois de problemas e rejeição de grande parte dos músicos, Marin Alsop foi o nome escolhido por um conselho para seguir à frente da orquestra.
Ambos os exemplos apenas ilustram a grande questão que é chefiar um corpo musical de tamanha magnitude, e traz de volta a questão de sua importância. Nessas horas as opiniões divergem e muitos defendem o fim ou a dissolução do trabalho das grandes orquestras, argumentando que elas não mais estão de acordo com o mundo em que vivemos, como se estivessem restritas à época de suas criações ou a uma normatividade que não mais se enquadra nos tempos atuais.
Há de se discordar por um simples motivo: é justamente por oferecer um ponto de vista tão diferente da realidade da rotina que uma orquestra e o lugar onde ela habita são tão importantes. E isso de maneira nenhuma significa que não sejam acessíveis, apenas que estão para além das dores dos dias comuns. Funciona assim:
Imagine alguém que vive em uma sociedade com o ritmo conturbado, as normas rígidas e as relações amornadas. Em tais condições, este alguém está sempre correndo de casa para o trabalho e do trabalho para algum curso de especialização, sendo que nenhum dos dois é promessa de crescimento ou estabilidade. Este alguém tem poucas chances de exercer sua liberdade, pois está preso a regras criadas antes dele e sem sua anuência, como os períodos pré-determinados para se estudar, começar a trabalhar, casar e ter filhos, sem que absolutamente nenhuma dessas etapas possa ser deixada de lado ou postergada. Imagine que as relações afetivas deste alguém são de algum modo banalizadas pelo egoísmo próprio, alheio ou até mesmo pela falta de tempo para se dedicar a elas. Agora, para concluir o quadro, este alguém, que tem tão poucas possibilidades de vivência, gasta o excesso de seu dinheiro, oriundo do excesso de seu trabalho, com bens que excedem qualquer necessidade. Perto de um colapso nervoso, tal infeliz precisa ter algum lugar não relacionado a normas e rotinas para suspender a falta de reflexão que impera em sua vida. Aqui mora a importância de uma sala de concerto.
Uma sala não é um lugar rotineiro, por mais que se frequente uma. A quietude de seus ambientes internos, a execução de obras compostas em tempos que não os atuais, a atmosfera de concentração e a possibilidade de suspender, por algumas horas, o ritmo conturbado da vida para entrar no ritmo da música configuram uma oportunidade para que a reflexão possa agir. É em lugares assim, na presença de artistas e grandes intelectuais da arte que surge a chance de criticar a própria vida e tudo o que está relacionada a ela: o tempo, a sociedade, as regras, a política, as normas. Isso leva à seguinte conclusão:
Afirmar que uma orquestra não deve ter residência fixa, que seu trabalho não é mais necessário, que sua atuação pode ser diluída ou simplesmente eliminada, é colocar fim ao último lampejo de lucidez de uma sociedade pouco sã. O mesmo vale para os grandes museus com suas atuais preocupações com lucro. Os templos artísticos precisam configurar um espaço para o pensamento, a suspensão do tempo e ordem vigentes. Não é à toa que grandes transformações político-sociais só se alastram quando recebem apoio da classe artística. É a arte que faz o elo entre as pessoas e a possibilidade da mudança, pois é ela que tem a vocação de materializar o que, em algum momento, foi apenas uma ideia.
Aproveitar-se das corriqueiras e infindáveis disputas por sucessão de cargos para banalizar um trabalho tão valioso e necessário é um grande problema. As questões internas de um corpo artístico bem ou mal se resolvem. O que importa é que sua sobrevivência tem de estar para além do tempo, das brigas internas e das regras vigentes, pois só tal corpo é capaz de atravessar eras a fio e não só sobreviver às transformações como estar na vanguarda.

Vida longa às orquestras.

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