UMA GISELLE CORRETA E MENOS FÉERICA. CRÍTICA DE WAGNER CORREA DE ARAUJO NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.



Enquanto Spartacus, o primeiro programa do Balé do Teatro Bolshoi, provocou um envolvimento mágico na sua convergência de técnica e emoção, Giselle ficou marcada pelo distanciamento, na concepção de Vladimir Vassiliev.

Na sua tentativa de dar-lhe novos retoques ,ainda que sutis e perceptíveis quase que apenas para os experts na sua composição e proposta coreográfica , depois da energia pulsante de Spartacus, o clássico dos clássicos do balé romântico – Giselle – deixou um gosto por algo mais.

Alterações cenográficas, com telões em tons pastéis quase impressionistas, tentaram fugir da tradição realista ,além de figurinos ,com referencial do estilismo contemporâneo( Hubert de Givenchy) , quebrando a caracterização tradicionalista de personagens , nas suas cores menos sóbrias .

Fatores que, mal ou bem, chegaram a afetar o confronto da nuance realista do 1º ato e a essência romantizada do segundo, mais do que algumas ligeiras interferências no desenvolvimento narrativo da trama coreográfica, não tão rigorosamente fiel às versões originais (Coralli/Perrot 1841 e Petipa 1887).

Quanto ao desempenho técnico foi coeso e dinâmico no ato da aldeia ,tanto com as cenas de conjunto, solos e duos, quanto nas danças características , apesar da prejudicial e incomoda tonalidade aquarelada dos décors.

Com um preciso diferencial na interpretação de Ivan Vasiliev ( Conde Albrecht), ainda que este não tenha um tão destacado porte físico no confronto com a esguia figura de Maria Vinogradova (Giselle), responsável pela primeira explosão entusiasta da plateia, na sua dança - pantomima da alienação direcionada à morte.

No segundo ato ,o chamado balé branco perdeu, em parte, a atmosfera do efeito sedutor soturno, entre nevoas e túmulos sob o luar, com uma iluminação menos precisa na sua climatização ,enfatizando uma não consonância temática com a cenografia.

Foi digna, em sua discrição, a performance juvenil de Yuri Baranov ( Hilário, o camponês),até a sua saída de cena. E a entrada de Maria Allash( Myrtha) circundada pela expressividade plástica do séquito das Willis, alcançou as exigências de frieza e altivez do personagem .

Na total entrega de Vinogradova ao sotaque etéreo exigido e o superlativo vigor e timing de Ivan Vasiliev , no contraste orgulho/fragilidade e na dualidade corpo/espírito , estabeleceu-se , enfim, a densidade necessária e o permanente encantamento deste exemplar drama-balé .



Wagner Correa de Araujo



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