"LOHENGRIN" E O AMANHECER DO DRAMA MUSICAL NO THEATRO MUNICIPAL. CRÍTICA EXCLUSIVA DE MARCO ANTÔNIO SETA NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.



    A bela ópera Lohengrin, de Richard Wagner (1813-1883) cuja música e libreto ele mesmo se incumbiu de criá-los; subiu ao palco do Theatro Municipal de São Paulo a partir da noite de 8 de outubro de 2015, com um total de oito apresentações que se seguem até o próximo dia 20 de outubro, às 20h00.
    A montagem cênica possui a linguagem simbolista, com espaços criados especialmente por Yannis Kounellis cenógrafo, pintor e escultor grego, que facilitou assim o ambiente cênico para Henning Brockhaus, diretor teatral, que tem a seu favor, uma instalação no palco, com recursos como o cisne, que nesta montagem, é uma escultura, em formato de cubo prateado de metal com partes do cisne. Trata-se de uma escultura simbolista e não um objeto realista. O resultado, com jogos de iluminação coerentes, bem como a cortina de instrumentos musicais que representam a própria música, são complementados com tonalidades de preto e cinza, até a entrada de Lohengrin à cena. Depois, as variações de tons, acompanham as remoções e temporalidades das cenas que se sucedem, cuja autoria é do iluminador italiano Guido Levi.  

    O diretor alemão Brockhaus apresenta influências do estilo de Pina Bausch, com seus movimentos característicos e utiliza máscaras de tecido, para deformar e brutalizar o psiquê dos personagens, acrescenta coreografias para preenchimento do transcorrer cênico de autoria da também italiana Valentina Escobar, as quais colaboram na movimentação cênica. Quanto aos figurinos de Patricia Toffolutti, nada apresentam da época e da mitologia a que Wagner se refere em sua criação operística e muito menos de Amberes e arredores, da primeira metade do Século X. Esse conjunto global cênico se distancia do belo e decepciona o aprimoramento plástico e visual do qual o público aguardava desta obra de Wagner. 
    John Neschling regeu com brilhantismo categórico a magistral partitura wagneriana desde o belo e lírico prelúdio do ato I, cujo ousado uso de harmonias sobre o único tema, já determinam o seu caminho para a concepção do drama musical; transcorrendo pelas importantes cenas concertantes, pela brilhantíssima introdução orquestral do ato III e o interlúdio que une os dois quadros desse mesmo ato, decorreram todos precisos, na interpretação da Orquestra Sinfônica Municipal; revelando grande avanço técnico em seus diversos naipes, incluindo-se os sopros de metais. 
    A importante parte coral ofereceu ao Coro Lírico Municipal oportunidades de demonstração da riqueza das vozes masculinas em seus coros, bem como nos concertantes, com seus integrantes femininos; cujos timbres diversos encorpam as massas sonoras. Preparou-o o maestro Bruno Greco Facio. 
    Na parte do rei Henrique há a presença do baixo brasileiro, de categoria internacional, Luiz-Ottavio Faria, cuja potência vocal e irrecusável linha de canto, somada à hierarquia lírico-dramática, sua participação como,  no momento da famosa prece,  implicou um dos pontos altos do espetáculo. 
    Marion Ammann, veio da Suiça; é um soprano lírico de registro equânime em timbre e tessitura, possui boa escola e enfrenta as dificuldades de sua parte com êxito. Embora com volume pequeno, sua "performance" de Elsa de Brabante, especialmente em seu sonho, é bastante satisfatória, ficando à deriva porém, no dueto com Ortrud (Ato II), compensando-o no belo e melodioso dueto de amor no último ato, onde vence galhardamente a sua difícil escrita musical. 
    Tomislav Muzek, tenor croata de voz apropriada para cantar Mozart (Don Ottavio, Tamino) e papéis como Edgardo, Nemorino (Donizetti), Lensky / Oneguim de  Tchaikowsky, Max em O Franco Atirador, e Macduff (Macbeth/Verdi), os quais tem representado na Europa; como também a Missa Solemnis, de Beethoven, em Berlim e Salzburgo. Entretanto, sua performance de Lohèngrin não satisfaz e não logrou dar o devido realce ao seu personagem: faltaram-lhe o volume  da voz de um tenor lírico-spinto, vigor e presença cênica, também não assinalados em sua narração no ato III.
    Marianne Cornetti, nas vestes de Ortrud é ponto alto do elenco: voz plena, extensa, quente e vibrante de mezzo-soprano dramático e flexível na tessitura wagneriana, possui ademais o domínio cênico e carismático que requer o personagem vilão. Embora em instantes de escrita musical autenticamente medíocres (primeira parte do dueto com Telramund, no Ato II) ela consegue quebrar a monotonia proporcionando motricidade à cena. Um "bravo" à artista norte-americana, que engrandece todo conjunto lírico. 
    Federico de Telramund está escrito a um "heldenbariton".  Tómas Tómasson pertence o tal registro vocal, realizando-o com  propriedade, senhor da cena, plenamente satisfatório em seu personagem também vilão. 
    Lohengrin estreada em 28 de agosto de 1850 no Teatro Weimar, sob a regência de Franz Liszt, é ao mesmo tempo a despedida de Wagner ao gênero operístico, e o amanhecer do drama musical a que o mundo conheceria.
Escrito por Marco Antônio Seta, em 11 de Outubro de 2015.
Jornalista inscrito sob nº 61,909 MTB / SP 

Lohengrin, fotos Internet

Comentários

  1. Encontro com Richard Wagner no Teatro Municipal - ópera "Lohengrin". Regência de John Neschling. A mezzosoprano italiana Marianne Cornetti brilhou no personagem Ortrud. Coro e regência e orquestra Sinfônica de São Paulo merecem destaque. Cenário, figurinos fracos. direção cênica de Hennig Brockhaus não convenceu com a sua montagem. Muitos perguntavam cade o cisne. No todo os cantores não decepcionaram com mestria brindaram uma bela noite no dia dos professores. Casa lotada.

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  2. Mais uma vez vc brinda o público com uma análise que abrange não apenas os aspectos históricos, mas também posiciona cada item do espetáculo, com uma avaliação tecnicamente embasada e com equilibrio nas colocações, criticando sem desviar para a desqualificação e elogiando as partes e os artistas que se destacam.



    A leitura permite que se assista o espetáculo melhor posicionado quanto ao seu contexto global, possibilitando àqueles que apreciam a ópera um desfrute mais completo do que ocorre no palco.

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