LOHENGRIN NO TMSP E A DITADURA DOS DIRETORES CÊNICOS. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.

   


   A ópera tinha como principal elemento o canto e a música até as décadas de 80 e 90 do século XX. Cantores e regentes eram as estrelas, as montagens eram básicas e os solistas ficavam em geral estáticos. Nas duas últimas décadas os diretores de cena tomaram o poder e os cantores passaram a ter forte atuação cênica. Elementos vitais da ópera como música e canto agora tem que dividir espaço com cenários, figurinos e concepções de diretores muitas vezes amalucados e de gosto duvidoso. Estamos na época da ditadura dos diretores cênicos, alguns se acham maiores que a obra que dirigem e adoram aparecer. A ópera ficou mais teatral e está com os elementos de produção superando o canto e a música. 
   "Lohengrin" de Richard Wagner  em cartaz no Theatro Municipal de São Paulo até o dia 20 de Outubro segue essa tendência. A visão de Henning Brockhause desse título entra no campo do enigmático, do misterioso e da religião. O negro e o escuro se contrapõem ao personagem central Elsa que esta de branco. O diretor provoca em todos os aspectos, some o famoso cisne e entra um cubo estilizado, o negro dos cenários de Yannis Kounellis onde cortinas de instrumentos musicais e facas dão uma cutucada no espectador. O uso de máscaras de pano é impactante e remete ao teatro grego.  
   Teatro atual, moderno e simbólico que leva à reflexão. Alguns espectadores se irritam, esperam o tradicional e se deparam com o enigmático. Os figurinos de Patricia Toffolutti seguem a ideia do diretor onde a atemporalidade reina única, personagens são puro sentimento e expressam o amor ideal.

   Na apresentação do dia 13 de Outubro a Orquestra Sinfônica Municipal regida por Eduardo Strausser entregou música wagneriana da melhor qualidade, poucas vezes vi no Brasil metais tão eficientes e de tão bela sonoridade. Prelúdios, cenas e interlúdios tocados com sonoridade impecável onde orquestra, solistas e coral conseguem uma rara harmonia musical.
   Juntamente com a orquestra o Coro Lírico Municipal mostrou vozes masculinas de grande gabarito e vozes femininas com volume adequado. Os solistas mantiveram o nível elevado, destaco Viktor Antikenko que como Lohengrin apresentou um timbre lírico de grande beleza embora sem o peso para um tenor wagneriano. Nathalie Bergeron fez uma Elsa cênica e vocal competente, soprano lírico-spinto de timbre melódico e excelente atuação cênica. Luiz-Ottavio Faria fez um Vogler com voz penetrante.
   "Lohengrin" é a última ópera a ser apresentada no Municipal de São Paulo esse ano, conversando com assinantes soube que alguns sequer sabiam que o próximo título "Cosi fan Tutte" foi cancelado. Faltou uma melhor comunicação com eles. Enquanto isso, no mundo maravilhoso de John Neschling o setor privado é o culpado pelo cancelamento desse ano e do ano que vem por se eximir "quase completamente de suas responsabilidades frente ao Theatro Municipal". Convenhamos John, 99 milhões da Prefeitura de São Paulo para apenas três óperas em 2016 é muito pouco. 
Ali Hassan Ayache

Lohengrin, fotos Internet.
  

Comentários

  1. Comentário de Ana Luiza Daltro no Facebook: "Eu poderia passar horas aqui reclamando de diretores cênicos que colocam coreografias de dança em óperas de Wagner (e, como até o que já é ruim pode piorar, dança modernete do tipo bizarrinha, daquelas que nem é preciso ser bailarina/o pra conseguir fazer). Eu poderia praguejar contra diretores cênicos que cobrem os rostos de cantores com máscaras de borracha, fazendo-os parecer vítimas de queimaduras severas. Eu poderia chorar de preguiça de diretores cênicos que penduram panos de chão no cenário e fazem o coro carregar trouxas pretas de roupa suja. Mas vou poupar vocês e resumir a minha tristeza após esta montagem (até razoável musicalmente falando) artsy fartsy de "Lohengrin" atualmente em cartaz no Theatro Municipal de São Paulo com o seguinte apelo: EU QUERO CISNE SIM!!!!! \o/"

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