MAHLER NA VERSÃO DE NESCHLING. CRÍTICA DE MARCO ANTÔNIO SETA COM EXCLUSIVIDADE PARA O BLOG DE ÓPERA E BALLET.

    

     A sinfonia nº 2 em do menor, "Ressurreição" de Gustav Mahler foi a escolhida para abrir os concertos corais-sinfônicos do Theatro Municipal em 2016. Na versão de John Neschling a Orquestra Sinfônica Municipal subiu o palco de sua casa para  nos brindar com uma execução de alto nível. No domingo à tarde, sob calor intenso e sem ar condicionado, o público aferiu ao teatro com frequência acentuada. A primeira execução da sinfonia ocorreu em Berlim, a 13 de dezembro de 1895, sob a regência do compositor e, é excepcionalmente grande a escrita para a orquestra nesta sinfonia. 
      O primeiro movimento é uma marcha fúnebre em dó menor em grande escala sinfônica (Allegro maestoso) Oferece uma variação da forma sonata, com uma seção secundária de desenvolvimento em  mi bemol menor. Com um tempestuoso prelúdio inicia fortemente um tema rítmico nos violoncelos e contrabaixos, aqui muito coesos e sonoros. O andamento   arrefece à medida que a tonalidade muda para mi maior e um motivo romântico é tocado  pelas cordas e trompas. A tonalidade de     dó menor, volta   para reafirmação da seção de abertura, havendo então    uma breve antecipação do tema do coral (Dies Irae), que também voltará no final. 
       O Andante moderato, em lá bemol maior é um gracioso ritmo 3/8, caracteristicamente mahleriano em estilo oscilante de sofisticação pastoral. Nos violoncelos novamente se ouvem o tema principal do movimento nos violinos em surdina como exemplo particular de uma atraente e sedutora orquestração. O segundo tema é leve e bem humorado traduzido pelos sopros de madeira .
        Para compor o Sherzo em forma de rondó, Mahler utiliza a melodia de seu belo lied da coleção "wunderhom Des Antonius von Padua Fischpredigt" - Santo Antonio pregando (sem êxito) aos peixes. Solos bizarros na clarineta em mi bemol, um tema de trompete nostálgico no trio e um ruído de cordas col legno, isto é, batidas com as costas do arco. O contralto solista , amparado pelas cordas, entra em ré bemol com as três notas ascendentes da ária "Urlicht " Um voz de contralto profundo, amplo e escuro é o que Mahler requer para esta obra, e com certeza, não é o caso de Lidia Schaffer cuja voz não corresponde.
         Os efetivos da orquestra agora são aumentados : oito trompas, seis trompetes, quatro trombones e contrabass-tuba. A partitura prevê também um número considerável de reforços nos bastidores para melhor dar uma impressão espacial desse confronto entre a terra e o céu. O Grito de desespero, que já ouvimos no Scherzo, inicia com uma viva explosão na orquestra. Ouvimos  dos bastidores os apelos das trompas, que Mahler diz representarem "a voz daquele que clama no deserto". No último movimento (im tempo de Scherzo) ouvem-se a bela execução de trompas e trompetes vindos de todos os lados enchendo o ar com seus apelos, separados por sons delicados de flauta e flautim. O Coro Lírico Municipal inicia suavemente o coro a cappella cantando os primeiros versos do hino de Klopstock; ouve-se então a voz do soprano solista num impulso alucinado,  Camila Titinger com sua voz de soprano lírico,  em fraseados bem trabalhados e com uma voz compacta e límpida, emprestou  sua musicalidade positivamente. A sinfonia avançou majestosamente no sentido de sua admirável coda, numa interpretação coesa e elegantemente tratada por Neschling. Bravos à OSM.

Escrito por Marco Antônio Seta em 15 de Fevereiro de 2016.
Jornalista Inscrito sob nº 61.909 MTB /SP 

Mahler, foto Internet.

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