DON QUIXOTE: ARMAÇÕES OPERÍSTICAS DO CAVALEIRO ANDANTE. CRÍTICA DE WAGNER CORREA DE ARAUJO NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.



Méliès , Pabst, Orson Welles, Gustave Doré, Portinari,  Petipa, Minkus, Massenet, Richard Strauss , são alguns dos gênios do cinema, das artes plásticas ,do balé e da música que se inspiraram no celebrado personagem de Miguel de Cervantes. Que ainda rendeu séries de animação e um musical da Broadway.

Fruto do imaginário literário  espanhol do século XVII, a figura anacrônica e grotesca de um cavaleiro andante, ultrapassou estes caracteres risíveis de um anti-herói. E, assim, assumiu uma metafórica definição da própria  trajetória da condição humana, entre o sonho e a realidade.

Estreada em 1910, esta isolada incursão operística nas aventuras quixotescas , não alcançou a mesma dimensão das outras criações de Jules Massenet a partir do universo livresco, como Manon, Werther e Thaís.

Fruto dos derradeiros anos do compositor, Don Quichotte ( no original francês) atendia a dois propósitos. O entusiasmo pela sequencia de suas  estreias em Monte Carlo e a dedicação da obra ao inolvidável talento cênico e vocal do baixo/barítono russo Fiodor Chaliápin.

Tornando-se este , sem dúvida, o responsável maior pelo êxito inicial, em detrimento da escrita musical não tão singular melodicamente e menos popularizada. Constatada no seu raro aparecimento no repertório dos grandes teatros e, naturalmente, em favor da arte de intérpretes da tessitura  baixos/barítonos na linhagem sucessória de Chaliápin, como, por exemplo, Nicolai Ghiaurov.

Abrindo a temporada lírica  oficial , ao lado da partida artística  dos 400 anos de morte de Cervantes,o Theatro Municipal retoma uma brilhante produção paulista ( Theatro São Pedro), onde são exponenciais tanto a concepção cenográfica, o naipe de intérpretes, como a régie e a condução musical.

Mais uma vez Nicolas Beni dá uma lição de bom gosto estético no seu desenho de cenários (a partir das gravuras de Doré). Extensivo aos tons pasteis e barroquizantes dos figurinos de Fábio Namatame, acentuados pelas luzes entre sombras de Ney Bonfante.

O elenco mostra-se ajustado, sempre revelando segurança e equilíbrio, incluindo-se os papeis coadjuvantes(Roseane Soares,Marianna Lima,Aníbal Mancini,André Rabello), sob a irretocável  e sensível direção de Jorge Takla.

Enquanto este sabe conduzir às alturas o domínio cênico, o timing e a magia da representação, o maestro Luiz Fernando Malheiro imprime ritmo, magnetismo e delicadeza (em especial nos interlúdios sinfônicos) à OSTM. Acrescida de eficiente atuação do Coro e envolvência nas cenas coreográficas (Nuria Castejón).

Graça, técnica e maturidade musical no Sancho Pança (barítono Eduardo Amir), presença cênica,um eficaz crescendo e iluminação vocal em Dulcinéia (mezzo soprano Luiza Francesconi).

Além da densidade dramática, verossimilhança física e apurado fraseado na protagonização titular do baixo Gregory Reinhardt. 

Capaz,  na empatia de sua carismática performance, de remeter às imagens fílmicas(1932) eternizadas de Chaliápin, no clássico expressionista de Pabst.

Wagner Correa de Araujo


(DON QUIXOTE fica em cartaz até o dia 22 de abril , no Theatro Municipal/RJ. Terça, às 20h; sexta, às 17h.)