NASCE UMA DIVA, "ADRIANA LECOUVREUR" NO THEATRO SÃO PEDRO. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.



   A ópera "Adriana Lecouvreur" é o maior sucesso de Francesco Cilea, representante do verismo tem uma característica única, necessita de uma grande solista para o título. Muitas aceitaram o desafio e destacam-se no papel : Renata Tebaldi, Mirella Freni, Leyla Gencer, Raina Kabaivanska, Renata Scoto e a maior de todas, Magda Olivero. 
   Não é fácil encarar uma personagem complexa que exige muito da solista e ter como referência sopranos mais que consagradas no passado. Daniella Carvalho aceitou o desafio e nem se lembrou das divas de outrora, impôs seu estilo. O soprano esteve cenicamente impecável, encarnou "Adriana Lecouvreur" de forma dramática e intensa. Atuação cênica rebuscada unida a uma voz com um timbre calibrado com o estilo de ópera verista. Possante e encorpada, sua voz explode em agudos estratosféricos sempre consistentes. Uma das poucas cantoras brasileiras que entende o estilo de cantar da personagem e faz o que é necessário para incorporá-la.
   O diretor cênico André Heller-Lopes fez de tudo para complicar um enredo que prima pela complexidade. A história não é das mais simples e a visão do nobre diretor não facilita e sim complica. Trouxe o enredo para os dias atuais, onde o culto a si próprio e a imagem ganha relevância, exagera na dose com clichês de selfies e personagens caricatas como a Princesa de Bouillon. Os cenários simplistas de Renato Theobaldo ambientam a ópera no nada e os figurinos de Fábio Namatame misturam épocas com personagens modernos e outros que parecem ter saído da aristocracia russa do século XIX. A luz de Fábio Retti se manteve escura no primeiro e segundo ato e não dialoga com as cenas.
   A Orquestra do Theatro São Pedro regida por Flávio Lago na récita do dia 08 exibiu sonoridade volumosa com falta de sincronia nas entradas com os solistas em algumas passagens. Os demais cantores oscilaram, Denise de Freitas fez uma Princesa de Bouillon exagerada e caricata. Sua voz esteve inconstante com agudos sem brilho, não mostrou os grandes dotes vocais de outros carnavais. Eric Herrero se perdeu vocalmente com o personagem Maurizio, voz inadequada ao personagem e com grande carência técnica. 
   O trabalho do Theatro São Pedro foi brilhantemente resumido pelo colega Ching Chang em uma postagem nas redes sociais que publico aqui; “O trabalho honesto que está se fazendo no Teatro São Pedro é tão importante e indicativo do futuro da ópera do Brasil, que praticamente mal importa se obcecar com a quantidade de polimento técnico ou estético. Mas o fato que está sendo tão bem feito (mesmo se visto com diferenças de opinião) é a cereja no bolo."


Ali Hassan Ayache



Adriana Lecouvreur, fotos Internet