UM ROUXINOL E UMA SUBLIME MISSA DOS MORTOS. CRÍTICA DE LEONARDO MARQUES NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.

Em um intervalo de dois dias, Joyce DiDonato exibe técnica apurada, enquanto obra-prima de Verdi recebe interpretação primorosa de regente francês.


Em menos de 48 horas – entre a noite de quinta-feira, 28 de abril, e a tarde de sábado, 30 –, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro abrigou dois importantes momentos da temporada musical carioca do corrente ano: um recital da mezzosoprano norte-americana Joyce DiDonato e um concerto cujo programa oferecia o sempre aguardado Réquiem de Verdi. Como se verá abaixo, foram momentos musicais de nível bastante elevado.
O rouxinol DiDonato
Acompanhada pelo piano errático de Craig Terry (aparentemente em virtude de problemas com o piano), a mezzo-soprano Joyce DiDonato apresentou-se pela terceira vez no Rio de Janeiro na série O Globo/Dell’Arte Concertos Internacionais, e abriu seu recital no Theatro Municipal com uma interpretação bastante jovial da conhecida ária De España vengo (da zarzuela El Niño Judio, de Pablo Luna), na qual desde já começamos a apreciar sua exímia técnica de agilidade
Foi um começo animado, logo seguido pelo ciclo de canções Shéhérazade, de Maurice Ravel (AsieLa flûte enchantée e L’indifférent). Aqui, a artista pôde demonstrar toda sua capacidade expressiva, e, por meio de um jogo de contrastes entre claro/escuro e também forte/piano, ofereceu momentos de delicadeza e sensibilidade. A primeira parte da noite encerrou-se com a mezzo cantando o que mais sabe: Gioacchino Antonio Rossini. Do gênio italiano, DiDonato atacou de maneira irrepreensível a ária Bel raggio lusinghier, da ópera Semiramide – uma dentre tantas óperas que, infelizmente, nunca serão apresentadas no Brasil. Técnica impecável, projeção excelente e um rico fraseado: as armas da cantora.
Depois do intervalo, Joyce DiDonato interpretou três canções (La maja dolorosa, números 1, 2 e 3) do ciclo Tonadillas, de Enrique Granados. Aqui, destacou-se especialmente a intensidade dramática empregada à primeira. Logo em seguida, a artista ofereceu uma tocante versão da ária Lascia ch’io pianga, da ópera Rinaldo, de Händel, e uma sensível interpretação da canção Caro mio ben, de Giuseppe Giordani.
A mezzo-soprano, sempre simpática, comunicativa e conversando com o público em inglês (inclusive se dirigindo de maneira bem-humorada aos jovens cantores presentes) encerrou o programa oficial com um de seus cavalos de batalha, a ária Tanti affetti, seguida da cabaletta Fra il padre, da ópera La Donna del Lago, de Rossini. E quando DiDonato canta Rossini, não tem jeito: o público prende a respiração e espera por momentos de elevada musicalidade aliada a uma técnica refinada, até chegar o momento da previsível ovação, com aplausos entusiasmados e gritos de “brava!”, dentre outros elogios.
A artista, que chegou a tropeçar e a cair no palco, sem, contudo, perder o rebolado e o bom-humor, ofereceu de bis três canções, sendo duas de caráter popular e uma clássica: Over the Rainbow, de Harold Arlen, que faz parte da trilha do filme O Mágico de OzI Love a Piano, de Irving Berlin; e Morgen, de Richard Strauss. Esta última, que encerrou definitivamente a noite, foi interpretada com requintes de expressividade. Simplesmente memorável.

Joyce DiDonato (em foto de Renato Mangolin)

Réquiem de Verdi, por Jacques Delacôte
Quando morreu Rossini, o compositor tão bem defendido pela mezzo-soprano Joyce DiDonato conforme relatado acima, seu conterrâneo Giuseppe Verdi se propôs a unir forças com seus colegas italianos para escrever um réquiem coletivo em memória do gênio de Pesaro. Nessa criação a várias mãos, na qual os grandes compositores da Itália naquele momento homenageariam o autor de O Barbeiro de Sevilha, caberia a Verdi o movimento Libera me. O projeto acabou não vingando, e o grande mestre da ópera, que havia cumprido a sua parte e escrito a mencionada passagem da missa dos mortos, manteve-a guardada consigo
Anos depois, quando do passamento do célebre escritor Alessandro Manzoni, a ideia voltou à mente de Verdi, mas, desta vez, o compositor decidiu que escreveria sozinho a missa completa, utilizando inclusive o Libera me, que havia escrito originalmente para a inconclusa missa por Rossini. Verdi, que não mantinha relações próximas com Manzoni, mas o admirava com sinceridade, especialmente pela atuação do escritor em prol da reunificação da Itália, escreveu sua Messa da Requiem (Missa de Réquiem) durante o ano de 1873, e a apresentou em público pela primeira vez, em Milão, em 22 de maio de 1874, exatamente um ano depois da morte de Manzoni.
Verdi era um homem de teatro até a medula, e sua missa, além de ser uma composição magistral sob todos os aspectos, é também, na devida medida, uma peça dramática. Não só o peso e a exuberância do coro e dos metais no Dies irae e no Tuba mirumratificam a presença desse caráter dramático na obra, como também os bem marcados contrastes, presentes na brilhante orquestração de toda a partitura. Além disso, a música do Réquiem une-se ao texto da missa de maneira exemplar, e cada passagem da obra liga-se à seguinte por um processo de coesão preciso e cuidadoso. Dentre outros predicados, é por esses aqui citados que a missa verdiana pelos mortos localiza-se entre as grandes obras-primas não só do compositor ou do período em que foi escrita, mas da História da música.
No Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o time de solistas escalado deu muito boa conta de suas partes, exceto pela soprano, que não esteve à altura de tudo o mais que se ouviu na tarde do último sábado. Daniella Carvalho apresentou na capital carioca exatamente os mesmos problemas detectados por este autor em sua atuação recente no Theatro São Pedro, de São Paulo, quanto interpretou o papel-título da óperaAdriana Lecouvreur (leia crítica): um esgarçamento aqui, uma tremidinha ali, uma nota não atingida acolá; ataques abruptos, ligeiro excesso de vibrato e por aí vai. É pena, pois os demais intérpretes, como se verá, estiveram em nível superlativo.
O tenor Paulo Mandarino esteve sempre bem, e exibiu lindíssimo fraseado no seu importante e impecável solo (Ingemisco). O baixo Carlos Eduardo Marcos não ficou atrás, e, com a responsabilidade de cantar o Confutatis logo depois do magnífico solo de Mandarino, não deixou a desejar. A mezzo-soprano Ana Lucia Benedetti, artista em franca ascensão na cena lírica nacional, mostrou a que veio desde o Liber scriptus, o solo que Verdi adicionou posteriormente à partitura. Com uma voz ricamente expressiva e um timbre lindíssimo, Benedetti cantou com a alma. Um dos melhores momentos da noite, aliás, foi quando esses três solistas se uniram no penúltimo movimento do Réquiem verdiano (Lux Aeterna).
Coro do TMRJ teve, creio, sua melhor performance desde que o maestro Jésus Figueiredo assumiu o cargo de regente titular do conjunto. O estupendo Dies irae, retomado algumas vezes ao longo da obra, foi de arrepiar: um som vibrante e dramático na medida exata chegou ao público com uma sonoridade avassaladora, sem, no entanto, deixar de lado a musicalidade. Nos momentos mais contidos, o conjunto, e em especial suas vozes masculinas, atingiram um nível de expressividade poucas vezes alcançado. Durante todo o concerto, pôde-se deduzir a dedicação de seus membros durante a preparação da obra: ataques precisos e cuidado nos acabamentos de frases foram predicados facilmente notados.
Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal também esteve em uma tarde inspiradíssima, exibindo sempre um som firme, coeso e expressivo, com destaque para as cordas e os metais. Todos estavam sob a regência do francês Jacques Delacôte, que já regera muito bem a ópera Ievguêni Oniéguin, de Tchaikovsky, no Municipal de São Paulo na temporada passada.
Excelente regente, Delacôte empregou neste Réquiem uma dinâmica operística que valorizou bem os contrastes e fez a orquestra articular maravilhosamente, tanto nos momentos mais intensos, como nos mais delicados. O maestro conferiu unicidade e homogeneidade ao todo: podia-se perceber claramente como todos os músicos e cantores que reviveram esta obra-prima soberba estavam em suas mãos. Delacôte será sempre muito bem-vindo ao Rio de Janeiro.
Leonardo Marques
Fonte: http://www.movimento.com/
Foto do post (de Júlia Rónai): Jacques Delacôte, Daniella Carvalho, Ana Lucia Benedetti e Paulo Mandarino

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