BEETHOVEN E SEU LEGADO À HUMANIDADE. CRÍTICA DE MARCO ANTÔNIO SETA DA NONA SINFONIA APRESENTADA NO MUNICIPAL SP .


       O programa realizado no domingo 04 de setembro, em vesperal às 17h00, no Theatro Municipal de São Paulo, encerrou o Festival Beethoven lançado pelo maestro John Neschling à frente da Orquestra Sinfônica Municipal. A soberba Nona Sinfonia em ré menor, opus 125 (Coral) foi a récita única e derradeira da proposta sobre a obra de Ludwig van Beethoven, cujo início de composição ocorreu em 1817, só terminada em 1824, intitulada como a "Grande Sinfonia, escrita para a Sociedade Filarmônica de Londres", cujo manuscrito definitivo está dedicado ao Rei da Prússia, fez carreira luminosa por todo o universo. Cada audição da Nona Sinfonia, conduz a um enriquecimento para o ouvinte, para os destinatários e para a humanidade, uma vez que Beethoven é um legado de música e humanismo. 
        A composição contém a seguinte distribuição instrumental: três flautistas (o terceiro dobra no flautim), dois oboés, dois clarinetes em si bemol; dois clarinetes em lá (1a. e 2a.); dois fagotes e um contrafagote;  duas trompas em sib e duas trompas em ré; dois clarins em ré (em si bemol no terceiro movimento);  três trombones (alto, tenor e baixo); tímpanos em ré, la, si bemol e fá em oitava); pratos, bombo e triângulos, adicionados ao quinteto usual das cordas (primeiros e segundos violinos, violas, violoncelos e contrabaixos).
         O público de Viena, como o de Paris e Londres, estava empolgado pela música de Rossini, e Beethoven tinha, em 1824, duas grandes obras inéditas, sua Missa Solemnis e  Sinfonia  n. 9 (com os coros). Resolveu ele, então, fazê-las ouvir, em primeiro lugar, no estrangeiro. Isto foi suficiente para estimular os vienenses, que exigiram a primasia, ao que Beethoven com prazer acedeu. A primeira audição desta sinfonia com coros, foi um sucesso sem precedente. No final do concerto, enquanto o seu gênio, pairando ainda sobre o auditório, fazia desencadear lágrimas e aplausos numa ovação delirante, o compositor, na sua dolorosa surdez, permanecia mergulhado no original de sua partitura. O primeiro soprano, tomando-o pelo braço, fê-lo chegar ao proscênio a ver ao menos o que não lhe era permitido ouvir. A sua consagração !  
          Durante o segundo movimento, um Scherzo, pode-se observar a técnica e o trabalho minucioso dos sopros de madeira (1ª flauta, 1º oboé, 1º fagote e 1º clarinete) em exímias intervenções, bem como o predominante tímpano, em fá em oitava, que é empregado durante  todo o movimento num efeito inebriante. O terceiro movimento, um Adagio molto cantabile; representa as paixões humanas no que elas têm de mais elevado e de mais puro. Beethoven mostra,  nesse movimento,  todo o seu grande poder expressivo através das cordas em suas potencialidades, nos sopros de madeira, trompas em si bemol e mi bemol e tímpanos em si bemol e fá. 
           Causa-nos admiração a mestria com que Beethoven, pelo emocionante recitativo dos contrabaixos e violoncelos,  prepara a intervenção da voz humana de modo a torná-la ambicionada  como imprescindível. A introdução da voz humana empresta à realização instrumental o calor e a emotividade só possíveis a esse único instrumento dotado de vida. A exortação inicial do baixo (Carlos Eduardo Bastos Marcos), seguido do coro e do agora quarteto vocal solista; o solo do tenor Marcello Vannucci; bem como Lidia Schaffer (alto) e o soprano Masami Ganev (de muito boa técnica vocal), assinalaram coesão de trabalho musical. 
            Um "bravo" ao Coral Lírico e Coral Paulistano Mário de Andrade, por tão bela sonoridade e vibrante participação, cuja junção resultou excelente.  Cumprimentos sinceros ao maestro John Neschling a quem é indiscutível a sua capacidade de realização artística, demonstrada na execução de toda a obra sinfônica de Beethoven. Sob uma vibrante e apoteótica ovação do público, colheram-se os louros daquele que compôs uma obra imensa, incomensurável, a que todo homem se refere com o mais profundo respeito. 

 Escrito por Marco Antônio Seta em 05 de Setembro de 2016.
Jornalista Inscrito sob nº 61.909 MTB / SP



Foto -solistas da Nona Sinfônia, fonte facebook de Masami Ganev.

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