EM VIAGEM À EUROPA PAGA PELO TEATRO, ASSISTENTE BUSCOU CARGO PARA NESCHLING.


Dez dias antes de viajar, a serviço do Theatro Municipal de São Paulo, para a Europa –roteiro que incluía Berlim, Munique, Zagreb, Bucareste e Viena–, um funcionário da casa enviou um e-mail a John Neschling, diretor artístico do teatro e seu chefe, detalhando estratégias a fim de conseguir novos empregos para ambos no Velho Continente.
Ao menos dois dos seis destinos previstos na viagem do chileno Thomas Yaksic coincidem com a lista de interesses apontados na correspondência. No texto, ele comunica a prospecção de emprego em Zagreb, na Croácia, e em Augsburg, que fica a 60 km de Munique, listando outras opções na Alemanha.
Três especialistas em políticas culturais apontam possíveis irregularidades na viagem: ausência de um relatório de resultados –a Folha solicitou o documento à prefeitura e ao teatro e não teve resposta; e uso de verba pública para Yaksic visitar familiares, o que Neschling confirmou ao ser questionado pela reportagem. Houve gastos lançados no orçamento da casa.
O e-mail de Yaksic foi enviado em outubro de 2015 –dez dias antes de ele viajar à Europa– com o título "Zagreb". Nele, o assistente do maestro expõe as chances de Neschling a respeito de um cargo na capital da Croácia.
No texto, Yaksic prenuncia a troca da direção da instituição croata e diz que, quando novos diretores assumem aquela casa, é permitida a formação de nova equipe. "Não haveria problema de levar Eduardo e a mim", escreveu, referindo-se a Eduardo Strausser, maestro-assistente de Neschling no Municipal.
A prospecção de trabalho, prossegue no e-mail, se estenderia à Alemanha e é neste ponto que cita Augsburg. Yaksic se compromete a fazer contato com o Ministério da Cultura alemão e promete ampliar sua busca "na Itália e em outros teatros da Europa". A pesquisa de oportunidades foi realizada em vista da troca de gestão na prefeitura de São Paulo em 2017.
Zagreb foi visitada por Yaksic entre 16 e 18 de novembro. A explicação de Neschling para a visita é que o assistente tem família na cidade. O maestro não aponta compromisso profissional para a ocasião.
Em Munique, sua tarefa teria sido assistir a uma récita "para conhecer vozes interessantes", diz o maestro. Yaksic é administrador artístico e trabalha observando o cenário da ópera, incluindo possibilidades de contratação.
O resultado efetivo da viagem fornecido na resposta à Folha foram audições em Berlim e a consequente contratação de um cantor lírico, Lukasz Golinski, para a ópera "Fosca", a ser montada em novembro. O maestro diz que Yaksic, na capital alemã, também fez reuniões.
OUTRO LADO
A Secretaria de Comunicação Municipal diz desconhecer "qualquer irregularidade" na viagem, com verba pública, de Thomas Yaksic.
À Folha, o maestro John Neschling negou interesses particulares. O diretor artístico do teatro conta que o primeiro destino foi a China. Yaksic viajou a convite da Ópera de Guangzhou para participar de seminários, com passagem e estadia pagas pela instituição chinesa, diz.
Na volta, fez escala em Paris, onde havia programado reunião com o editor da revista "Opera Magazine", afirma o maestro. A partir daí começa o trecho cujos recursos foram pagos pelo Municipal, incluindo as cidades alemãs e Zagreb, citadas no e-mail em que Yaksic a Neschling discutem busca de emprego.
O destino seguinte seria Bucareste, onde, pelo Municipal, Yaksic participaria de um congresso. Mas Neschling diz que o chamou de volta a São Paulo, onde um conflito por causa das contas do Municipal ganhava volume.
De acordo com o maestro, o então diretor-geral do teatro, José Luiz Herencia, acusava-o pela insuficiência orçamentária na casa. Ele defendeu que o rombo se devia a desvios de Herencia.
No dia 19 de novembro, Herencia pediu exoneração e, um mês depois, estourou o escândalo. Herencia confessou ao Ministério Público ter participado de esquema de desvio de verba e envolveu Neschling em sua delação, bem como outros funcionários do teatro e da prefeitura.
À Folha, Neschling protestou contra a violação de seu e-mail. "É inadmissível que correspondência eletrônica minha, protegida por sigilo, seja usada para distorcer fatos e atingir minha honra." Yaksic foi procurado pela reportagem, mas não respondeu.
CONDUÇÃO COERCITIVA
A Justiça determinou, na terça (30), a condução coercitiva de Patrícia Melo à CPI da Câmara dos Vereadores que investiga desvios no Municipal. A escritora já faltou a duas sessões a que foi convocada. Ela é sócia majoritária da empresa pela qual Neschling, seu marido, recebe seu salário. O maestro foi citado em duas delações de ex-diretores investigados no caso. Segundo membros da comissão, Melo disse que não irá à sessão de quarta (31). A medida judicial valerá para uma sessão posterior a esta.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/08/1808614-em-viagem-a-europa-paga-pelo-teatro-assistente-buscou-cargo-para-neschling.shtml

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