THEATRO SÃO PEDRO TEM ACADÊMIA DE ÓPERA VIBRANTE ENQUANTO ESCOLA MUNICIPAL DE MÚSICA É COMO CABEÇA DE BACALHAU. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.



  O Theatro Municipal de São Paulo vive o caos administrativo e a incerteza com a demissão de John Neschling, enquanto isso a galera do Theatro São Pedro arregaça as mangas e põe os talentos nacionais para cantar. Ambos os teatros tem escolas de canto, pena que a forma de utilização seja bem diferente. A Academia de Ópera do Theatro São Pedro é atuante, vibrante e sempre vemos novatos em seu palco. A da Praça Ramos intitulada Escola Municipal de Música existe no papel, é uma teoria furada, onde seus alunos nunca tem a chance de se apresentar no palco do maior teatro paulistano. A formação de cantores fica só na teoria, parece cabeça de bacalhau, todo mundo sabe que existe, mas nunca ninguém viu.
   O concerto da Orquestra do Theatro São Pedro com canções de Ravel, Chausson, Debussy e Jackson Lúcio apresentado no dia 09 de Setembro teve altos e baixos, fato normal em cantores e orquestra em formação. A começar pela abertura, "Prélude à l'après-midi d'un Faune" de Debussy que apresentou sonoridade confusa nas mãos do regente Flávio Lago, enormes desencontros de naipes e musicalidade fria transformaram a peça em um emaranhado de notas sem sentido. A partir da segunda peça a orquestra se adaptou as partituras e graças a Deus a musica foi atingindo níveis melhores.
   Marli Montoni não se entendeu com o "Poème de l'amour et de la mer" de Ernest Chausson . O compositor levou uma década para compor a obra e a cantora precisou de meia hora para destruí-la. Toda a delicadeza melódica e poética da língua francesa foi detonada por uma voz sem brilho em um francês que sai aportuguesado. As duas longas canções foram cantadas com enorme insegurança, seu timbre se mostrou inadequado à obra e a potência explosiva da voz é desnecessária em uma peça que prima pela delicadeza.
   Rosana Lamosa mostrou excelente forma vocal em "Shéhérazade" de Maurice Ravel: voz lírica, sensual, doce, leve e com uma técnica capaz de emocionar. As três canções da peça seguem um caminho progressivo, do oriente voluptuoso ao sensualismo leve, a voz do soprano explora isso e mostra sensibilidade vocal. A estreia do poema sinfônico "Sonho Interminável" de Jackson Lúcio, músico da ORTESP, tem composição de bom nível com temas que ressaltam as qualidades melódicas. Lamosa conseguiu ser expressiva, sua voz saiu com excelente dicção mesmo cantando em português.
   "La Daimoselle élue" de Claude Debussy tem participação de soprano e mezzo, mais uma vez Lamosa esteve soberba enquanto Catarina Taira apresentou voz densa com bom volume e graves expressivos. O Coro da Cidade de Santo André postado no balcão lateral cantou afinado e enriqueceu a peça.
   Cantar bem ou mal faz parte e a tentativa aumenta a experiência. Melhor pecar pelo erro do que pela omissão. A direção do Theatro São Pedro coloca os jovens no palco para ganhar cancha e teve a ousadia de apresentar uma peça composta por um músico da casa. Pena que outros teatros não façam o mesmo.
Ali Hassan Ayache
 
 
   
         

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