A ELETRIZANTE ELEKTRA DO THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO. CRÍTICA DE WILLIAN CARDOSO DE ABREU NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.



Confesso que muitas dúvidas pairavam no ar quando soube da demissão do maestro John Neschling da direção artística do Theatro Municipal de São Paulo.
A primeira logo de cara era: Quem ficaria a cargo da Elektra programada para outubro?
Iriam convidar às pressas alguém para assumir a produção? E quem assumiria essa responsabilidade em cima da hora, havia orçamento para contratação de um novo regente?
De todas as possibilidades, a que menos esperava era a de entregar uma ópera desse porte para um regente iniciante como Eduardo Strausser.
Apesar de já estar acompanhando as produções do teatro durante um bom tempo e de se revezar com John Neschling na regência de alguns espetáculos eu acreditava que entregar uma Elektra em suas mãos seria uma decisão pouco acertada. Poderiam ter convidado o Carlos Moreno ou mesmo Isaac Karabtchevsky que prontamente atenderiam o chamado do teatro? Talvez, mas não foi o que ocorreu.
Com todas essas dúvidas fui à récita do dia 18 de outubro. No elenco Eva Johansson como Elektra, Melanie Diener como Crisótemis e Susanne Resmark como Clytemnestra.
Confesso que escolhi essa récita de forma não aleatória. Tenho um excelente DVD da Opera de Zurique em que os papeis respectivamente são a própria Johansson, Diener e a Clytemnestra da excelente Marjana Lipovsek, que a meu ver, das gravações mais recentes, é um grande destaque apesar da produção de gosto duvidoso do diretor Martin Kusej que foi capaz de colocar passistas de escola de samba na dança final. O ponto alto dessa produção com certeza são os solistas e a excelente regência do maestro Christoph von Dohnanyi. Musicalmente impecável do início ao fim.
Em São Paulo fiquei surpreso que um dos elencos repetiria os cantores principais dessa versão que tanto gosto.
Pois bem, músicos aquecidos, toca o terceiro sinal e o público começa a fazer silencio no teatro lotado em plena terça-feira, entra o maestro e se posiciona. Após receber os aplausos, a cortina levanta-se revelando o belíssimo cenário montado em dois andares e quatro partes divididas onde o elenco se movimenta.
Nos primeiros acordes já posso sentir a falta de um regente mais experiente que com certeza colocaria muito mais densidade e maior volume, a meu ver o interessante de se fazer com mais força esses primeiros acordes é a de que sem cerimônias somos jogados sobre o drama de Elektra, não há abertura, de imediato mergulhamos no palácio de Micenas.
Logo de início é possível notar a excelente qualidade dos solistas do Theatro Municipal, as criadas foram muito bem interpretadas pelas nossas cantoras brasileiras. Destaco especialmente a Magda Paino, Lidia Schaffer e a excelente Lina Mendes que na gestão do Abel Rocha foi uma excelente Gilda no Rigoletto de Verdi.
Se por um lado a regência de Eduardo Strausser não impressiona, por outro é bastante equilibrada, acredito que pela falta de experiência o maestro tenha optado pelo equilíbrio à força da massa orquestral, o que resultou num bom trabalho com os cantores. Em nenhum momento durante toda a récita os cantores foram encobertos pela orquestra, o que em se tratando de Elektra é muito difícil.
Eva Johansson domina o palco do começo ao final, apesar de algumas irregularidades ,principalmente nos registros mais agudos , sua Elektra é intensa, ela mergulha no papel como poucas, ela é Elektra na aparência, no físico e em cada uma de suas expressões. Seu Allein, weh ganz allein já me conquistou de início. Mesmo demonstrando um certo cansaço na voz, diferente da versão de Zurique em 2005, sua atuação foi eletrizante.
Excelente também a Crisótemis de Melanie Diener, com voz quente e volumosa que toma todo o teatro, ela vive plenamente o drama de sua personagem. Suas cenas junto à Elektra são de uma intensidade de arrepiar.
Incrível a presença de palco de Susanne Resmark, uma Clytemnestra arrebatadora. Seu confronto com a filha é ponto alto do espetáculo. Ótima atriz, rivaliza com Elektra , sua interpretação é intensa, diferente de Marjna Lipovsek que faz uma Clytemnestra mais perturbada, ela só quer se livrar dos seus sonhos a qualquer custo, avança sobre Elektra como um animal selvagem. Cena arrebatadora.
O restante só foi consequência da ação que corria em torno das três personagens principais. Johmi Steinberg  com voz possante cantou um excelente Orestes, a cena da revelação com sua irmã foi de uma beleza incrível. Jürgen Sacher um ótimo Egisto, belíssima voz.
Em resumo uma produção arrebatadora, sem esquecer é claro da ótima direção de cena da Livia Sabag, os belos cenários de Nicolàs Boni, os figurinos impecáveis de Fabio Namatame e a iluminação que faz toda a diferença de Caetano Vilela.
Confesso que não me faria nenhum pouco de falta as projeções realizadas durante a produção. Não acredito que tenha acrescentado ao todo do espetáculo. Plasticamente a produção é belíssima, porém, ainda fico me perguntando qual é a fixação que muitos diretores têm em ambientar boa parte das produções, de Mozart a Strauss, no período que vai dos anos 30 aos 40.
Esperamos que o Municipal possa atingir uma condição mais estável como casa de ópera e que possa realizar com suas próprias forças produções como essa. E o principal, mantê-las em seu acervo para remonta-las com mais frequência.
Avaliando os últimos anos fico imaginando se não poderiam remontar a excelente La Traviata do Danielle Abbado da gestão Abel Rocha, a suntuosa produção de Aida que deu início à Era Neschling, bem como a Cavalleria Rusticana, Salomé e essa Elektra mais recentes.
Desejo sorte aos gestores do Theatro Municipal de São Paulo para enfrentar os desafios que estão por vir com um novo nome à frente da prefeitura e consequentemente da Secretaria de Cultura.

Um excelente espetáculo que merece remontagem para que mais pessoas possam ter acesso a essa ópera incrível.

Willian Cardoso de Abreu

Cena de Elektra, foto internet por Arthur Costa.  

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