225 ANOS DA MORTE DE MOZART: SEGREDOS E MENTIRAS. ARTIGO DE OSVALDO COLARUSSO NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.



Pintura anônima e fantasiosa do século XIX descrevendo o suposto enterro de Mozart
Creio que a morte do compositor Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), acontecida há 225 anos, em 5 de dezembro de 1791, é o falecimento de um compositor mais cercado de fantasias e inverdades de toda a história. A quantidade de lendas e mentiras é tão grande que fica difícil até mesmo questiona-las, não só porque a grande maioria das pessoas torce para que elas sejam verdadeiras, mas pelo fato de estarem já impregnadas no imaginário coletivo. As lendas vão de um suposto envenenamento (cujo causador teria sido o compositor Antonio Salieri, músico injustiçado pela hostória) até uma detalhada teoria de um plano conspiratório elaborado no século XX por uma “sensitiva” alemã, Mathilde Ludendorff. Não há dúvida de que Mozart morreu cedo demais, completaria 36 anos no mês seguinte de sua morte, mas a tragédia tem aspectos muito mais de uma consequência de sua vida pregressa do que de uma fatalidade causada por uma incompreensão coletiva. Mozart nunca teve uma saúde excelente, e durante sua vida “colecionou” uma série de doenças: Varíola, tonsilite, bronquite, pneumonia, febre tifoide, reumatismo e problemas graves das gengivas. Ter contraído uma infecção séria que o levou à morte prematura não é, portanto, algo inesperado para alguém que conviveu com tantos problemas de saúde.
Gravura da imagem de Mozart realizada em 1789
As últimas obras de Mozart: mais alegria do que tristeza
Ao conhecermos as obras que Mozart escreveu em 1791, último ano de sua vida, vemos que há uma contradição enorme frente ao lento e progressivo calvário que muitos acreditam que o compositor teria vivido. Em janeiro deste ano Mozart escreveu a mais alegre de suas canções, “Sehnsucht nach dem Frühling” IK 596 (Ansiando pela primavera) e em abril deste mesmo ano escreve sua última obra prima de música de câmera, seu Quinteto para cordas em Mi Bemol Maior IK 614, obra das mais alegres e bem-humoradas de toda a sua produção camerística. Sua ópera “A flauta mágica”, de setembro deste ano, contém algumas das páginas mais alegres de toda a história da música, e o Concerto para clarinete e orquestra IK 622, composto no final de outubro de 1791, é uma obra recheada de paz e alegria. A única obra que pode ser vista como trágica e mórbida é seu inacabado Requiem IK 626, e sobre esta obra vale a pena tentarmos também desmistificar sua concepção.
Manuscrito inacabado do Requiem de Mozart
O Requiem de Mozart: uma obra cercada de lendas
Não há dúvida que uma Missa de Requiem ser esboçada junto à morte de seu autor é um combustível bem eficaz para lendas fantasiosas. A realidade dos fatos é, no entanto, muito menos glamorosa. Mozart foi procurado em maio de 1791 por um nobre, o Conde Franz von Walsegg, que financiava obras que ele fazia passar como sendo de sua autoria. Ele encomendou para Mozart uma Missa de Requiem para sua falecida esposa (que morreu aos 20 anos de idade), e lhe pagou um adiantamento bastante substancioso. A ansiedade de Mozart em completar o Requiem era muito mais uma questão financeira do que uma razão de cunho místico, e a própria pressa da viúva de Mozart de fazer com que a partitura fosse completada após a morte do compositor tem a ver com a expectativa de receber a última parte do pagamento de Walsegg. Não há dúvida de que o Requiem de Mozart poderia se tornar sua maior obra sacra, mas da forma apenas esboçada deixada pelo compositor não há uma coerência típica de uma obra prima. Apenas o primeiro movimento do Requiem foi composto integralmente por Mozart. Todo o resto foi completado por um discípulo e amigo do compositor, Franz Xaver Süssmayr (1766-1803), que além de completar os esboços compôs movimentos inteiros. O Santus, o Benedictus e o Agnus Dei não contem uma nota sequer de Mozart, e mesmo o famoso “Lacrimosa” tem apenas 8 compassos de Mozart. É um pouco melancólico pensar que na prática o Requiem em Ré menor IK 626 é menos da metade do próprio Mozart.
Gravura de 1882 absurdamente fantasiosa
Enterro de indigente: outra grande mentira
Muito tem se falado que Mozart foi enterrado anonimamente numa vala comum como indigente. Robbins Landon em seu livro “1791- o último ano de Mozart” desmente completamente esta lenda. O funeral foi custeado pelo Barão Gottfried van Swieten e acompanhado por músicos da estatura de Salieri e Süssmayr. A lenda de um cachorrinho ter sido o único a acompanhar o féretro de indigente é de um tal de Joseph Deiner, num fantasioso texto de 1856 publicado num jornal de Viena no dia do centenário do nascimento do compositor que, infelizmente, acabou sendo incluído em diversas biografias de Mozart. Um desserviço. Mozart foi realmente um dos maiores músicos de todos os tempos. Sua morte prematura é uma perda irreparável, mas não há necessidade alguma de torna-la mais patética às custas de mentiras. Por si só já é uma tragédia.
Osvaldo Colarusso
Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/falando-de-musica/225-anos-da-morte-de-mozart-segredos-e-mentiras/

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