RETROSPECTIVA COREOGRÁFICA 2016: O ANO EM QUE A DANÇA QUASE DANÇOU. ARTIGO DE WAGNER CORRÊA DE ARAÚJO NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.


O Lago dos Cisnes/Balé do Theatro Municipal/RJ/Foto Júlia Rónai

A crise, perceptível desde os primeiros meses do ano, acentuou suas temerárias consequências em todas as manifestações cênicas, do teatro à ópera. E a dança, acuada por todos os lados, na carência de espaços e patrocínios, sobreviveu ainda assim, apesar de ter, literalmente, quase dançado...

Significativamente, a temporada foi aberta com ainda alguma expectativa, na original apropriação do universo literário de Garcia Marquez pela Renato Vieira Cia de Dança, em obra inédita -  No Me Digas Que No.  

Em tempo de aniversários, recatadas foram as comemorações em raríssimas novas incursões e  sempre com obras antigas do repertório das cias. Como foi o caso do Grupo Corpo que, nos seus 40 anos, limitou-se a reapresentar a Dança Sinfônica , de 2015, ao lado de Lecuona, esta de onze anos antes.

Ou como os trinta anos da Intrépida Trupe que começaram bem com a criação de Mário Nascimento À Deriva, num mix de acrobacia /dança contemporânea explorando a tensão de corpos /pêndulos. Mas ficaram praticamente por aí .

Maior ousadia teve a Focus de Alex Neoral ao fazer varias temporadas de retomada do seu repertório de 15 anos, revisitando expressivos trabalhos exploratórios das relações da corporeidade com o tempo e o espaço, num fiscalidade reflexiva e dialogal com o mundo ao redor.

Na pegada da urbanidade, a Mimulus, com Pretérito Imperfeito de Jomar Mesquita, registrou suas trinta velas com o memorialismo domiciliar dos saraus e bailes à antiga. E na radicalização do virtuosismo clássico a partir das raízes periféricas, Thiago Soares ao lado do dançarino rapper Danilo D'Alma instaurou com Roots uma das mais incisivas experiências coreográficas de 2016.

Gramática cênica de visibilidade também nas coreografias deMourad Merzouki em Pixel no uso conceitual de elementos etno/ecológicos com uma digitalização corporal computadorizada. EOlivier Dubois que, em Mémoires d’um Seigneur, demole a corporeidade apolínea e a técnica perfeita na incorporação de um elenco de excluídos sociais que nunca pisaram num palco.

Num mesmo diapasão dança/artes plásticas, Esther Weitzman referenciou com inventividade a “minimal dance, de Cunninghan, ao “dripping de Pollock em Dançar(não)é Preciso e Márcio Cunha assumiu a seminal brutalização da arte/vida em enérgico Céu de Basquiat.


E duas companhias  mergulharam na espiritualização da fisicalidade. Sankai Juku com sua dança teatralizada com extroversão da interioridade em Meguri. E Angel Vianna com sua dança laboratorial  de revelação do auto conhecimento corporal, na vitalidade do solo autoral Amanhã é Outro Dia e no reflexo especular de seus discípulos em O Que Eu Mais Gosto é de Gente.

Da ritualização corporal à força testemunhal da tradição. O Balé do Teatro Municipal com seu Lago dos Cisnes de notável rendimento cênico, apurado senso artístico e singularizada entrega técnica /emotiva, responsabilizou-se por uma das mais exuberantes performances do ano.

Bravo, enfim, aos seus intérpretes e impulsionadores que, entre a sublimidade apolínea e a pulsão  dionisíaca, foram capazes, só assim,  de mimetizar a crise em catártico horizonte coreográfico.

                                              Wagner Corrêa de Araújo

                               Roots,duo Thiago Soares/Danilo D'Alma/ Foto Mariana Vianna

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