MANON - BALÉ COM A MELODIA DE MASSENET. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.



   Manon é uma das poucas óperas que tem duas versões no repertório dos grandes teatros líricos do mundo. Puccini e Massenet , cada um a seu modo transformou a história de Antoine François Prévost em música de grande sensibilidade e beleza. Mas a riqueza dessa história é pouco demais para apenas duas óperas. Na literatura, pintura, no teatro e no balé, a mulher fatal foi representada. Personagem ambígua, as vezes apaixonada, volúvel e principalmente  ambiciosa, agrada em cheio ao público.
   O The Royal Opera House já nos apresentou uma versão em balé de Manon, com produção de 1974. O coreografo Kenneth Macmillan tem uma visão realista da história, mostra a ambiguidade da personagem através de uma coreografia direta, muitas vezes incisiva. Retrata a França do século XVIII , sociedade decadente, voluptuosa, interesseira. Reduz a história para três atos, mas mantém sua essência. Sua dança apresenta a face humana, o lado escuro. Ninguém é ingênuo na Manon de Macmillan. Na versão gravada em 2008, ele faz uma releitura da obra, moderniza o balé, atualiza a história e amplia as emoções . Abusa dos " Pas de deux" , a obra apresenta quatro deles. Todos bem coreografados, misturando passos da dança contemporânea com o balé balé clássico.   
   A adaptação musical de Leighton Lucas não se limita a tocar as belas melodias de Massenet. Usa temas para definir personagens, lembrar cenas. No melhor estilo wagneriano, os "lietmotivs" estão presentes à toda hora. Combinam com o clima e se acertam com a dança. Missão das mais difíceis é acertar música e dança, isso porque, as canções  foram compostas para outros propósitos. No balé, Manon , música e dança são um casamento perfeito. Todo o leque de belas melodias do compositor foi aproveitado, desde 11 óperas, suítes orquestrais e peças para canto. 
   Os solistas são de primeiro nível. Tamara Rojo é uma Manon que parte da ingenuidade a malandragem com extrema facilidade. Sua personagem explode em sensualidade, mulher que sabe do que é capaz e consegue o que quer com sua beleza e charme. Dança graciosamente, espontânea, e uma segurança poucas vezes vista. Manisfesta Manon nas expressões faciais e na leveza dos passos. Convence como atriz e bailarina, as vezes com inocência, outras vezes com galanteios e muitas vezes com sexualidade. Uma dançarina moderna, antenada com o que há de atual em seu meio e com plenas condições de fazê-lo.
   O cubano Carlos Acosta é bailarino de destaque internacional. Seu diferencial é a técnica, aprimorada pela escola russa e transmitida aos cubanos via revolução socialista. Alguma coisa boa do Fidel ficou. Carismático e forte faz Tamara Rojo parecer leve em seus fortes braços. Seus arabesques são cativantes, sua interpretação é convincente. Manon é balé que exige técnica e grande capacidade de interpretação, Acosta e Rojo conseguem isso com louvor.
   José Martin faz um Lescaut fanfarão. Sua cena do segundo ato é seu ápice. O personagem se apresenta ébrio, dança de forma cômica e arranca risos da plateia. Única cena engraçada em meio a um balé que se destaca pela seriedade  e interesses próprios.
   Os três atos de Manon são apresentados em pouco mais de duas horas, desnecessário a gravação em dois DVDs. Os extras mostram a criação da obra , mas sem legendas. A direção de TV acerta nas tomadas, a imagem  e o som  são de excelente qualidade. Os cenários leves contrastam com figurinos ora pesados, retratam a Paris do século XVIII. A luz é dinâmica, auxilia a evolução do enredo. Tende para o laranja, clara , límpida, atraente. A orquestra tem excelente sonoridade, Martin Yates tira suavidade e força, conforme a necessidade.
   Realmente uma Manon inesquecível.
Ali Hassan Ayache

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