MILTON, O BODE NA SALA E O DESAFIO DE ANDRÉ. ARTIGO DE LEONARDO MARQUES NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.

Reflexões e questões sobre a reviravolta na diretoria do Theatro Municipal do Rio de Janeiro

Como já é de amplo conhecimento, no começo da noite de 07 de março, a secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro emitiu um comunicado oficial no qual informa que o ator Milton Gonçalves não mais assumiria a presidência da Fundação Theatro Municipal, cargo para o qual jamais deveria ter sido indicado pelos mais óbvios motivos. A razão para a desistência do ator não tem a menor importância, soa como desculpa esfarrapada e sequer merece ser repetida aqui. Com isso, o deputado André Lazaroni acumulará as funções de secretário de Cultura e presidente do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O encenador de óperas André Heller-Lopes foi indicado para ocupar o cargo de diretor artístico da casa.

Milton: o bode na sala
A anedota ou teoria do “bode na sala” é bastante conhecida e bastante utilizada na política brasileira: “uma família vivia apertada em uma casa minúscula. Ela foi se aconselhar com um sábio e ouviu a recomendação de colocar na sala um bode. A vida tornou-se insuportável. Voltaram ao ancião, que mandou tirá-lo de lá. Ficaram tão contentes livrando-se do bode que, mesmo ainda apertados na mesma minúscula casa, acharam que a vida estava bem melhor agora. Conclusão: às vezes, para resolver um problema, é preciso criar artificialmente outro maior”.
É, ou não é, um artifício pra lá de comum na politicagem vadia que vemos por aí? E podem anotar: verificar-se-á (o uso da mesóclise é proposital) a sua utilização na reforma da previdência, que certamente será abrandada no Congresso. Pois bem, ao que parece, essa teoria também se aplica ao que ocorreu no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
André Lazaroni queria se livrar de João Guilherme Ripper, o então presidente da casa. Por que, não se sabe. Talvez porque quisesse “dar a sua cara” ao Theatro Municipal, seja lá o que isso queira dizer. O fato é que o secretário já havia escolhido o novo responsável pela gestão administrativa do Municipal: Ciro Pereira da Silva. Se o responsável pela área artística, Heller-Lopes, também já estava definido antes da exoneração de Ripper, ou se somente foi escolhido posteriormente, também não se sabe. Sabe-se apenas que a divulgação de seu nome foi feita depois. Milton Gonçalves era tão somente um rosto, um nome para assinar a papelada. Nada mais.
A divulgação da informação de que o ator ocuparia a presidência da casa, porém, causou um rebuliço no meio musical clássico carioca e brasileiro. Afinal, era um absurdo que um gestor que se mostrava tão competente como Ripper fosse exonerado para dar lugar a alguém que pouca ou nenhuma ligação tinha com o Municipal e com as artes que se produzem dentro do Municipal; a alguém que pouco ou nada entende de administração pública e suas amarras, labirintos, obstáculos e armadilhas. As redes sociais entraram em polvorosa, em sua maior parte, por indignação com decisão tão estapafúrdia.
Alguns poucos (pouquíssimos!!!) dias se passaram, e chegou a notícia resumida no primeiro parágrafo deste texto. E o que aconteceu? Uma vez mais as redes sociais se agitaram, mas agora, em sua maior parte, comemorando a reviravolta no caso, uma vez que agora a gestão artística do Municipal estaria entregue a um profissional da ópera. A indignação pela exoneração de Ripper? Bobagem, coisa do passado… Ah, as redes sociais!
No fim das contas, o que se conclui é que o ator Milton Gonçalves acrescentou mais um personagem à sua carreira: ele interpretou o bode.

O desafio de André Heller-Lopes
Nesta quarta-feira, dia 08 de março, o Movimento.com conversou com vários artistas ligados à ópera no Brasil. Sempre sob a condição do anonimato, todos disseram, com pequenas variantes, a mesma coisa. Para ter sucesso na direção artística do Theatro Municipal do Rio, André Heller-Lopes terá que:
1- Domar seu ego e seu gênio; 2- Aperfeiçoar-se na arte da habilidade interpessoal; 3- Ser democrático na escolha dos solistas que trabalharão nas produções líricas da casa, abrindo mão da chamada “panela” com quem tem o hábito de trabalhar sempre; 4- Convidar para as produções do Municipal os melhores encenadores de ópera do país, reconhecidos pela crítica especializada nacional, como vinha fazendo a gestão anterior; e 5- Ter a noção exata de que sua gestão artística será diretamente comparada com a gestão anterior, devendo ser, no mínimo, igual ou superior a esta última, em termos qualitativos e quantitativos, para justificar toda essa bagunça (um sai, outro entra, agora o outro sai, entra um terceiro, mexe, ajeita) que o secretário de Cultura promoveu na direção do Municipal.
A tudo isso, soma-se um agravante: o seu é um mandato tampão que se encerra no fim de 2018, quando o PMDB será escorraçado do governo do Estado, considerando que não faltarão argumentos aos outros partidos para derrubá-lo (o ladrão Cabral, o incompetente Pezão, etc.). Não se tem notícia na história recente de que, quando se troca o partido do governo, mantém-se a gestão do Municipal. Aí será a vez desse outro partido “dar a sua cara” ao Theatro Municipal, seja lá o que isso queira dizer.
Reconhecido não só como um competente encenador de óperas, mas também como um grande conhecedor e estudioso do gênero no Brasil (praticamente todos os interlocutores consultados afirmaram isso), André Heller-Lopes tem a chance de provar que pode, sim, ter sucesso como diretor artístico de um teatro de ópera. Para vencer esse desafio, terá que cuidar com carinho da listinha apresentada ali em cima.
Se começar cancelando o que foi programado por Ripper e seu então diretor artístico, maestro André Cardoso, para este ano, talvez por querer “dar a sua cara” (seja lá o que isso queira dizer) à programação da casa, começará mal, muito mal. A propósito, já correm boatos à boca miúda de que Lohengrin, um Wagner previsto para o segundo semestre, teria sido cancelado. Já Un Ballo in Maschera, o Verdi previsto para maio, também periga ser adiado ou talvez ter o título trocado.

Atualização – 9 de março, às 12h32
Nota conjunta do Autor e do Editor: O último subtítulo e o último parágrafo deste texto foram suprimidos por solicitação de um dos profissionais citados, que garantiu ao Movimento.com que a informação veiculada originalmente não era procedente, mas tão somente motivo de boatos infundados. Em respeito ao profissional, e sem motivos para duvidar de sua palavra, optamos pela supressão do referido trecho.
Leonardo Marques

Fonte: http://www.movimento.com/

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