A CRÍTICA, OS ARTISTAS E QUESTÕES DE QI. ARTIGO DE MARCUS GÓES NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.





Nesta minha longa, atribulada e gratificante trajetória de frequentador mais que assíduo de espetáculos de música e dança, com errantes presenças em camarins, corredores, filas de bilheteria, palcos, rodas de entendidos, aulas de canto, de instrumentos, de dança, redações de jornais e tudo que se possa inserir no circuito, tenho percebido uma invencível tendência dos artistas “performers” brasileiroa a se acharem inatacáveis e incriticáveis, porque artistas.

Exemplificando, se um pianista passa dez anos estudando uma peça e a apresenta ao público cheia de erros, com troca errada de andamentos, acordes com ffff"s quando deveriam ser com pppp"s, tempos mal escolhidos, etc... etc..., e um crítico aponta os erros e defeitos, a reação comum do artista é dizer que “não se denigre assim um artista”, “há que haver respeito”, e expressões semelhantes.

Ora, amigos, ser artista não torna ninguém imune a apreciações críticas e a palavras que exprimam com exatidão o que ocorre em casos de julgamentos desfavoráceis do crítico. Se um soprano canta por exemplo a “NORMA” de Bellini e erra muito a música, desafina frases inteiras, “stecca” todos os superagudos da partitura, cai em cena, deixa cair a peruca, e por aí, o crítico não pode nem deve dizer apenas que “fulana cantou mal”, ou “não esteve em seus melhores dias”, ou “não foi feliz em sua apresentação”. Deve ele sim dizer que o espetáculo foi horroroso por causa da protagonista, que tudo virou circo por causa da protagonista, que tudo foi vergonhoso, e tudo mais. Não pode a artista sentir-se “denegrida” pelo crítico, nem ofendida, nem desrespeitada.

Quem sobe no palco para tocar, dançar ou cantar, está sujeito a palavras amargas, se amargurante for sua atuação. O “ser artista” não é uma armadura de aço protegendo ninguém das farpas atiradas por quem não gostou.

Se muitos no Brasil lessem as expressões usadas por críticos de outros países quando julgam ruim uma atuação, aprenderiam que a crítica não é só um mar de rosas, com participação de críticos com viagens, estadias, alimentação, tudo pago por quem vai receber críticas, como ocorreu na vergonhosa ida a vários países de críticos dos principais jornais brasileiros com tudo pago pela OSESP ou seus patrocinadores.

Crítica de espetáculos é tarefa árdua. Todo artista gosta de elogio e detesta a menção a seus defeitos. Este que escreve já viu bailarina importante cair de trazeiro no chão e não gostar que lembrassem o fato na imprensa. Já viu em tape a Callas fazendo feiuras no Japão, já viu pianistas fazerem soar notas erradas, já viu em tape o Menuhim desafinando como ninguém, já viu ao vivo o soprano Giovanna Casolla interromper récita e sair do palco, já viu regente se enrolar todo e pedir “da capo”, já viu famoso tenor cantar “La Traviata” quando a récita era de “Un Ballo in Maschera”, já viu um baixo intercalar palavras em português na ópera “Don Pasquale”, “y muchas cositas más...”.

O baixo QI de certos performers os leva a concluir que apontar más atuações é “denegrir” o artista. É não respeitar o artista. Escrever que fulano atuou mal, que sicrana esteve péssima, que a regência foi sem inspiração, que um “grand jeté” abriu pouco, que a viola desafinou o tempo todo, para esses de QI baixo é ofensa pessoal, falta de respeito, quase uma injúria, uma difamação.

Amigos e artistas, crítica é necessária e contribui para a melhoria dos artistas criticados. Inclusive daqueles cobertos de elogios e exaltações, que nem só de más atuações vive a arte no Brasil. Eu mesmo cansei de elogiar, de exaltar, de incentivar. Mas disso ninguém fala. Só do “desrespeito”, do “denigrimento”.

TO DIE UPON A KISS...
MARCUS GÓES – (1939-2016)

Comentários

  1. Marcus Góis foi uma pessoa detestada por muitos exatamente por sua língua ferina. Agora vejo-o ressuscitado por aqui. Assiste-lhe um pouco de razão nesse seu escrito acima, com relação aos bibelôs do palco, que se julgam incriticáveis, principalmente aqueles realmente medíocres, e existem. Mas diria ao autor, se vivo fosse, que a palavra do crítico nunca pode ser a última, jamais poderá ser o julgamento definitivo. Crítico pode errar, ter mau humor, perseguir. O crítico pode ser arrogante e se julgar também intocável e deve receber sim o troco por suas palavras. Afinal o crítico não pode também ter a sua "armadura de aço" a protegê-lo das farpas dos artistas, das respostas aos seus ataques. A profissão é ingrata, produz inimigos, é preciso ter estômago para julgar os outros e aguentar o rojão das indignações . Por isso ele precisa de muito conhecimento, classe, senso de justiça e respeito. É tão ridículo e triste ver alguém que não canta e nem sequer toca um instrumento julgar um artista ! Em suma, ser crítico é também uma grande arte, para pouquíssimos. Muitos querem ser Rodolfo Celletti mas bem poucos têm competência para chegar aos pés.

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    1. Perfeito! Direto ao ponto. Parabéns.

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  2. Bem, já que o escritor gosta tanto de criticar, não custa lembrar que pelo o menos a ortografia deveria estar correta em seu artigo. Escreve-se "traseiro" e "denegrimento".

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  3. Saudoso Marcus Góes,vulgo Nabucondonosor;ainda recordo-me como este homem admirável me tratou,humilhando-me publicamente tachando este que vos fala de ignorante querendo dar-se ares de inteligente,usou outra forma de dizer isso,tachou-me de pernóstico.Qualquer palavra minha merecia ser solenemente ignorada obviamente pelo grão-senhor Nabucondonor,argumentos não importam,a autoridade do oráculo não podia ser questionada.Deve ter sido recebido nos céus por um coro de anjos das hostes celestiais!Isaac Carneiro Victal.

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