MÊS DO VIOLINO: DOIS GÊNIOS E UM BOM SPALLA. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.


   
   Se o mês de Maio foi dos pianistas, definitivamente Junho é dos violinistas. Em um intervalo de dez dias tivemos três destacados eventos que contaram com um bom e dois excelentes solistas.
   O primeiro foi o concerto da Osesp, onde seu Spalla, Emanuelle Baldini, como relatado anteriormente, abriu a noite solando o Capricho de Paganini número 24. Como dito anteriormente, foi uma apresentação burocrática, discreta e competente.
   Dias depois temos a benção divina de assistir dois dos maiores monstros do violino atual: Vadim Repin e Julian Rachlin. Detalhe marcante, uma semana de intervalo entre os dois, o que comprova que a programação daqui está no mesmo nível das grandes capitais da música clássica.
   O Mozarteum Brasileiro trouxe nos dias 20 e 21/06 a Orquestra Estatal de Istambul e o solista russo Vadim Repim. Menino prodígio, deu uma aula de virtuosidade, musicalidade e limpeza sonora com seu Stradivarius. Agudos ecoavam e entravam nos ouvidos como um bálsamo para a alma. Solou o concerto de Sibelius e Max Bruch com garbo e elegância. Sua fineses, tranquilidade, exatidão e precisão nas notas são inesquecíveis. O ponto baixo da noite foi a Orquestra Sinfônica Estatal de Istambul, uma orquestra imensamente inferior ao talento do violinista.
   A Sociedade de Cultura Artística apresenta ao público paulistano a Royal Northern Sinfonia com o regente e solista Julian Rachlin. O lituano duela com Repin e Joshua Bell para o posto de galã do violino da atualidade. Tirando as vaidades estéticas, há o duelo na arte. Rachlin é um verdadeiro monstro, seu concerto de Mendelssohn foi perfeito: sonoridade equilibrada, nenhum esbarro, frases longas com legato impecável e afinação limpa. 
   Acompanhado da Royal Northern Sinfonia, orquestra de câmara de primeiro escalão, tirou um som aveludado e maduro da mesma, dignos do violinista que estavam acompanhando. 
   Rachlin mostrou toda sua versatilidade como músico, regendo e solando a Música fúnebre para viola e orquestra de cordas de Hindemith. O solista começou a se dedicar a esse instrumento no final dos anos 90, por influência do seu mestre, outro gigante do violino Pinchas Zukerman. Para arrebatar o público e fechar com chave de ouro a primeira parte do concerto solou no bis uma peça de dificuldade quase sobre-humana do compositor belga Eugène Ysaÿe. O público ficou em estado de êxtase, hipnotizado pelo talento sobrenatural do jovem violinista.
   Do mês dos violinistas fica a lição: Com todo respeito aos Spallas, sem demérito nenhum a esse louvável cargo. A diferença entre um solista de primeira grandeza e um Spalla é desproporcional e gritante. Um abismo sem fim. Difícil explicar com palavras, fica nítido para os ouvidos e para os olhos. A postura de palco, a sonoridade, a maneira da troca de energia com a plateia, a afinação (principalmente quando se mantém o tempo todo), os agudos, graves e acordes perfeitos. É tudo primoroso, fluido e principalmente natural.  
    Existem coisas inexplicáveis no domínio da mente, a solução esta na alma. As sonoridades dos dois solistas de primeiro escalão tiram do instrumento (ambos com Stradivarius) é  paranormal. Observando estes monstros tem se a falsa impressão que tocar é a coisa mais fácil do mundo (sabemos que não é verdade). 
   Muitos vão torcer o nariz para este parágrafo, já estou preparado para as cacetadas, a verdade é a seguinte: No Brasil, infelizmente, não temos ninguém que toque neste nível. Mais uma vez repito, não é demérito para ninguém ser apenas um bom Spalla, isso aliás é louvável, mas a diferença entre este e um solista internacional abismal.

Ali Hassan Ayache

Fotos: Vadim Repin e Julian Rachlin.Internet.

Comentários

  1. Daniell de Andrade8 de julho de 2017 03:51

    Ksksksks engraçado
    Mas meu caro, tem certeza que estava no concerto? Teria cochilado? Algum terceiro lhe contou como foi o Sibelius? ... com todo respeito, mas, se for pra descer no mesmo nível de crítica do seu último parágrafo, assistir o sibelius tocado por Repin daquela noite, era melhor ter ido assistir ao filme do Pelé. Um abraço

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