LA TRAGÉDIE DE CARMEN: ENTRE BIZET OU PETER BROOK. CRÍTICA DE WAGNER CORRÊA DE ARAÚJO NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.


FOTOS/JÚLIA RÓNAI

Desde sua estreia em novembro de 1981, numa concepção pensada inicialmente para a rusticidade do espaço arena do Théâtre des Bouffes du Nord -  inabitual para a padronização da ópera original, La Tragédie de Carmen vem sendo regularmente reapresentada , com pequenas variações da montagem de Peter Brook.

Marcada por seu minimalismo cênico que se estende inclusive à parte musical, nela há uma intenção de fazer prevalecer os elementos dramáticos do romance de Prosper Merimée, potencializados numa retomada cerimonial dos arquétipos da tragédia grega.

Concentrando-se em quatro personagens ( Carmen, Don José, Micaela e Escamillo) , eliminando as cenas corais , as intervenções de outros personagens do libreto  de Meilhac-Halevy. E reduzindo sensivelmente  a orquestra para uma formação de câmera, na supressão de  partes e   alteridade da ordem  partitural , para um resultado final de cerca de hora e meia.

Nesta reconstituição, com olhar armado na contemporaneidade, Brook teve ainda a colaboração roteirista de Jean-Claude Carrière e das adaptações musicais de Marius Constant. Acentuada na progressão narrativa de um clímax obsessivo, entre pulsões de sexualidade e violência.E identificando seus personagens por um comportamental egocêntrico , amoral e antiético.

Nesta primeira vez, em que La Tragédie de Carmen  é reinventada para o palco do Municipal carioca, alguns de seus paradigmas estéticos não são fielmente recuperados como no caso da  ambiência hispânica da indumentária . Que na opção de Brook acena por uma atemporalidade plástica primitivista  priorizando, assim,  uma ritualística teatralidade de paixões selvagens.

Mas que o artesanal comando diretorial dúplice  (Julianna Santos/Menelick de Carvalho) transmuta , na ausência proposital de uma arquitetura visual operística, em esparsos elementos cênicos. Transubstanciados nas projeções visuais com laminares simbologias metafórico/conceituais, sob um incisivo recorte de efeitos luminares(Paulo Cesar Medeiros).

Se as incidências coreográficas (Marcelo Misailidis) escapam à habitualidade das performances secas e diretas deste espetáculo, aqui elas acabam sendo bastante funcionais no preenchimento do vazio de um amplo espaço cênico. Destacando uma boa atuação de integrantes do Balé do TM e Escola Maria Olenewa, com destaque no elegante pas de deux , de sotaque neoclássico, dos primeiros bailarinos  Claudia Mota e Filipe Moreira.

A pequena orquestra, com músicos da OSTM,  habilmente conduzida, por Priscila Bomfim mostrou fluência e segurança na ininterrupta sequencia de temas clássicos e arranjos modernos. Por vezes soando um tom acima dos cantores, mas  de natural resultado , tanto nos solos instrumentais como nas sonoridades grupais, em representativa estreia feminina no podium operístico do Municipal.

Quanto ao quarteto protagonista, de talentos e revelações da nova lírica nacional, o desempenho foi  digno, tanto no perceptível amadurecimento destas vocações musicais como na entrega teatral aos personagens.

Na  bela tessitura de mezzo-soprano de Carolina Faria, tanto na espontaneidade sensual de sua fisicalidade como  no dimensionamento psicológico de seu papel titular. E que , num crescendo , venceu a timidez dos primeiros compassos da Habanera , defendendo ainda, com sensorial energia, sua Seguidilha.

Destacando-se , ainda no restrito elenco, a soprano Flávia Fernandes, aqui mais Bizet e menos Brook na sua faceta angelical.  Em expressivo registro de tonalidades líricas na episódica aparição, seja no dueto de Micaela com Don José  (Parle-moi de Ma Mère) ou na romança “Je dis que rien ne m’epouvante”.

E , também, no  jogo cênico e na generosa coloração melódica do tenor Eric Herrero (Don José), especialmente na ária “La fleur que tu m’avais jetée”. Completando-se o naipe masculino com uma efusiva Canção do Toureador, na ressonância da voz baritonal e na impositiva figuração  de Leonardo Neiva (Escamillo).

Mesmo com o recurso enunciativo e quase óbvio da tipicidade dos figurinos e das referencias coreográficas do destino, La Tragédie de Carmen é um espetáculo que, no seu contraponto crítico e na sua concisão, os tradicionalistas da ópera não digerem com facilidade.

Mas representa , ao mesmo tempo, em sua livre fruição criadora ,  um refresco nas pompas e circunstancias da grandiloquência operística.E,certamente, na sua frugalidade estética, insufla,assim, maior intimismo e melhor decifração do enigma Carmen, entre MeriméeBizet ouBrook.

                                           Wagner Corrêa de Araújo


LA TRAGÉDIE DE CARMEN está em cartaz no Theatro Municipal/RJ, em horários diversos, até o dia 19 de agosto. Com duração, sem intervalo, de 90 minutos.

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