LA SYLPHIDE, PRIMEIRO BALÉ ROMÂNTICO. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.




   O início do século XIX marca o advento de um estilo único e inesquecível de dança, o balé romântico. A dança dessa época procurava um caminho para a afirmação, e o estilo romântico foi a resposta e um dos motivos da popularidade do balé. Elementos como o sobrenatural, a morte pela paixão avassaladora, a mulher ideal caíram no gosto e continuam até os dias de hoje. Não é só no campo das idéias que o balé evolui. Aparecem pela primeira vez os tutus românticos, tecidos translúcidos e transpostos em várias camadas dão a idéia de leveza das bailarinas. Pela primeira vez se utiliza a sapatilha de ponta, as bailarinas pareciam flutuar. Novos recursos técnicos na cenografia permitiram que as dançarinas voassem, literalmente,  pelo palco. Tudo isso culminou em fórmulas que seriam seguidas e repetidas em diversos outros balés. Sucesso garantido.
   Filippo Taglioni coreografou La Sylphide para sua filha, a grande bailarina Marie Taglioni. Apesar do enorme sucesso no século XIX,  o balé caiu no esquecimento no século XX. Pierre Lacotte fez um profundo estudo da dança da época e remontou o balé,  em 1971,  para a Opéra de Paris. Coreografia refeita e pensada para sua esposa, a bailarina Gislaine Thesmar. Lacotte dessa vez parece não ter se importado com a coreografia original. Sua versão possuí passos e técnicas que nem eram imaginados na época. Complexa e rebuscada para os padrões vigentes, Lacotte toma liberdades criativas em excesso, quer mostrar as virtuoses dos bailarinos e cai no exagero.
   A versão da Opéra de Paris gravada em DVD é baseada na coreografia de Lacotte. A produção é puro capricho, enche os olhos pelas cores e vibração que transmite. Os cenários são suntuosos, os figurinos impecáveis, a luz vibrante. A performance das solistas "étoiles" é arrasadora. Aurélie Dupont é uma bailarina com passos perfeitos, transmite a emoção e a fragilidade de sua personagem. Mathiou Ganio é detentor de força, virilidade quando necessário e uma paixão que encanta. Tudo isso aliado a uma grande técnica. O corpo de baile da Opéra de Paris está preciso nessa versão de 2004. Temos um vídeo de grande plasticidade, que encanta pela beleza das cores, da produção e da coreografia. Lacotte joga para o público,  e arranca aplausos calorosos. Mas tudo que ele faz é moderno e incompatível com a obra original.
   Uma mídia que naufragou em pouco tempo, o Laser Disc nos traz uma versão interessante de La Sylphide, do balé de Kiev dos anos 80. Essa versão é muito mais próxima ao original do século XIX. Sua coreografia é mais simples, seus números são mais leves e toda a parafernália tecnológica de Paris não existe. Uma coreografia que não buscou o sucesso de público e sim um resgate do original. Apesar do sucesso desse balé,  fica a pergunta:  por que ele caiu no esquecimento? Uma das respostas está na música de Jean Schneitzhoeffer (nomezinho complicado).  Falta um tema cativante, aquele que fica na memória, que encanta o público. Sua música é simples, falta uma melodia de sucesso. O balé Giselle tem um tema que conduz quase todo o enredo, por isso ele está no repertório até os dias de hoje, enquanto que La Sylphide é parte do passado.

Ali Hassan Ayache

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