GIRA E PRIMAVERA/GRUPO CORPO : DESCARREGO E ESPERANÇA POR DIAS MELHORES. CRÍTICA DE WAGNER CORRÊA DE ARAÚJO NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.

 


  Primavera / Grupo Corpo. Coreografia Rodrigo Pederneiras. Junho/2022. Foto/José Luiz Pederneiras.

 

Neste reencontro do gestual/signo na trajetória coreográfica do Grupo Corpo estão de volta os remelexos e requebros de quadril acrescidos, agora, dos agachamentos na desconstrução/descontração da verticalidade postural em tensas dobraduras/elipses/giros, propícios sempre ao ato de receber as “entidades”. Fazendo de Gira, sem artifícios virtuosísticos e sem concessões folcloristas, um carismático ritual coletivo de arte/vida, com total apelo de sintonização palco-plateia.

Um dialetal encontro terreno/celeste do Corpo acionado na incorporação das  entidades presididas por Exu, o Orixá mor, via Gira. E transubstanciado no comando do cerimonial de encantamento religioso/popular, com sutil visagismo sanguíneo entre o pescoço e a carne de peitorais desnudados. “Metá Metá”, macho e fêmea unificados nos circuitos umbandistas do Gira, em território candomblé - o metafórico espaço cênico de descendimento dos orixás.

Alternando saídas e entradas de bailarinos, confinados  sob véus em coxias/santuários, na funcional envolvência de uma instalação ambiental (Paulo Pederneiras), ora entre blackouts e pontos luminares (Paulo/Gabriel Pederneiras), ou mesmo  que seja  entre as sombras, modulando torsos despidos sobre rústicas saias incolores (Freusa Zechtmeister).

Na última proposta coreográfica antes que viessem os tempos sombrios de um biênio sob perspectivas sombrias - da tragédia encimada pelo surto pandêmico ao paralelo obscurantismo a que foi relegada a condução político/cultural brasileira. Diante de tudo isto Rodrigo Pederneiras, mergulhado em tempos de forçado isolamento, sob um ideário do resgate da crença pela superação, pensou numa Primavera coreográfica como antecipação pela vinda de um futuro mais promissor.

Gira. Grupo Corpo. Coreografia Rodrigo Pederneiras. Junho 2022. Fotos/José Luiz Pederneiras.

   

   Afinal, não é a Primavera a estação das alegrias trazida pelas cores e flores, e não passava já da hora de celebrar novamente o reencontro das proximidades afetivas e de uma corporeidade marcada pelos desejos sensoriais?  É o que se faz presencial neste retrato coreográfico, no entretempo de marcas profundas de dor e solidão à causa do distanciamento, no anseio pela luminosidade da soltura libertária através de um corpo a corpo.

Sustentado, aqui, pela energizada trilha sonora inspirada no repertório de canções infantis do grupo Palavra Cantada (Paulo Tatit/Sandra Peres). Em precisos arranjos instrumentais privilegiando um estilo percussivo sob sotaque jazzístico/afro. Mas sem perder os acordes originais de melodias vocais que sempre entusiasmaram um público tanto de crianças como de adultos.

Num referencial à fase das plataformas digitais na pandemia, a coreografia se estrutura sob um estética com prevalência de solos e apenas três pas-de-deux daqueles bailarinos casados na vida real. Preenchendo inventivamente o vazio do palco com o recurso cinético da projeção instantânea e frontal do ir e vir destes bailarinos em cena, com uso de efeitos de movimento e congelamento das imagens. Em eficaz concepção cenográfica de Paulo Pederneiras, com parceria de Gabriel Pederneiras na  iluminação.

As vibrantes cores primaveris e florais tem prioridade nos figurinos (Freusa Zechmeister) femininos de saias de musseline, enquanto a indumentária dos bailarinos fica entre o branco e o preto. Esta diversidade imaginária de tons é, assim, capaz de transcender um simbolismo  aquarelado, sugestionando pictórico referencial aos toques azuis e amarelos, como aqueles dos vasos com girassóis impressionistas de Van Gogh, ou o dos verdes e vermelhos boreais da Primavera renascentista de Sandro Botticelli.

E num alcance mais longe, em caráter comparativo, enquanto as vigorosas danças terra-a-terra de Gira em processo ritualístico/religioso trazem subliminares traços da Sagração russa transportada ao Candomblé, a delicadeza expressiva do movimento nesta Primavera, em sua conotação de espontânea leveza espacial, sintetiza o resgate de um respirar fundo direcionado à esperança de que dias melhores virão...   

 

                                        Wagner Corrêa de Araújo


GIRA E PRIMAVERA-GRUPO CORPO, cartaz no Teatro Multiplan Village Mall/Barra RJ/ quarta a sábado,  às 20h; domingo, às 17h. 90 minutos. Até 19 de junho.

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