TRILOGIA VERIDIANA:GILDA, LEONORA E VIOLETTA MORREM NO BIXIGA!

 


Trilogia Popular Verdiana será apresentada nos dias 28 e 29 de agosto, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo; e nos dias 30 e 31 de agosto, no Teatro Municipal Maestro Flavio Florence, em Santo André.

Idealizado pelo Consulado Geral da Itália em São Paulo, pelo Istituto Italiano di Cultura San Paolo e pela Associação Paulista dos Amigos da Arte (APAA), o ousado espetáculo Trilogia Verdiana, inédito na América Latina, reúne, em uma única noite, os atos finais de três das mais consagradas óperas de Giuseppe Verdi: RigolettoIl Trovatore e La Traviata. A produção, que tem direção artística de Paulo Esper, é da Cia Ópera São Paulo e da Orquestra Sinfônica de Santo André. O maestro Abel Rocha assina a direção musical, e a direção cênica fica com o italiano Davide Garattini Raimondi.

O elenco é formado por solistas brasileiros com carreira nos principais palcos do Brasil e da Europa, como os tenores Richard BauerAlan Faria e Daniel Umbelino, as sopranos Joyce MartinsRaquel Paulin e Thayana Roverso e os barítonos Vinicius Atique e Rodolfo Giugliani.

A trilogia faz parte da 35ª temporada da Cia Ópera São Paulo, e a récita da quinta-feira será o espetáculo de número 2000 de Paulo Esper, que acabou de completar 40 anos de carreira.

O espetáculo, cantado em italiano, contará com legendas em português.

Os ingressos para as apresentações paulistanas podem ser retirados gratuitamente no site do Sympla, ou 1h antes do evento, na bilheteria do teatro.

A trilogia popular verdiana

Verdi na década de 1850

Entre março de 1842, data da estreia de Nabucco, seu primeiro grande sucesso, e março de 1853, estreia de La Traviata, Giuseppe Verdi (1813-1901) produziu dezesseis óperas. Isso dá uma média de uma ópera a cada nove meses. Esse intervalo de onze anos marcou, pois, na carreira de Verdi um período altamente produtivo, que culminou com as três óperas da chamada trilogia popular verdianaRigoletto (1851), Il Trovatore (1853) e La Traviata (1853).

Por que trilogia popular? Em primeiro lugar, são óperas compostas em um curto intervalo de tempo (como todas aquelas da década precedente). Além disso, são óperas cujos protagonistas são, predominantemente, pessoas do povo, não aristocratas. Finalmente (e sobretudo), são óperas emblemáticas do apogeu do estilo verdiano do período e, ainda hoje, bastante populares (especialmente La Traviata): integram o repertório dos principais teatros do mundo.

Pontos em comum

Embora cada ópera da trilogia tenha a sua identidade e os seus encantos próprios, possuem interessantes pontos em comum. O primeiro e, digamos, mais objetivo, é que as três são baseadas em peças de teatro a elas contemporâneas. Os libretos de duas delas, Rigoletto e La Traviata, foram escritos por Francesco Maria Piave (1810-1876) a partir de peças francesas — Le Roi s’Amuse (1832), de Victor Hugo, e La Dame aux Camélias (1852), de Alexandre Dumas filho, respectivamente. Já o libreto de Il Trovatore, baseado na peça espanhola El Trovador (1836), de Antonio Garcia Gutiérrez, tem a autoria de Salvatore Cammarano (1801-1852), que morreu antes da conclusão do trabalho, que foi completado por Leone Emanuele Bardare.

A relação entre pai ou mãe e filho ou filha é uma constante nas três obras. A primeira coisa a se reparar é que jamais aparecem ambos os pais, mas sempre apenas um: o outro ou simplesmente está ausente da trama ou morreu. Em Rigoletto e em La Traviata, impera a figura do pai (Rigoletto e Giorgio Germont, respectivamente); em Il Trovatore, a da mãe (a cigana Azucena). Há, no entanto, mais semelhanças entre Rigoletto e Azucena que entre qualquer um deles e Giorgio Germont.

Enquanto Germont é o símbolo da sociedade burguesa e patriarcal, que apenas quer a preservação da honra da sua família, e nem imagina que uma cortesã possa ter o direito de amar e ser feliz, Rigoletto e Azucena são figuras complexas e contraditórias: ambos têm uma ligação possessiva, quase doentia, com os seus respectivos filhos e, no entanto, ao buscar vingança, acabam sendo responsáveis pelas mortes desses filhos.

Rigoletto, o bufão, mantinha Gilda, sua filha, presa em casa para evitar que ela caísse nas garras do Duque — o que foi inútil, uma vez que ela podia ir à missa: lá conheceu o vilão e por ele se apaixonou. O bufão ria dos outros pais cujas filhas eram violentadas pelo Duque de Mântua, mas, evidentemente, não achou graça nenhuma quando chegou a vez da própria filha. Sua vingança — contra o Duque, contra a aristocracia, contra a desonra sofrida pela filha — resultou justamente na morte de Gilda.

A jornada de Azucena tem elementos semelhantes, embora embaralhados por um enredo ao qual faltou o padrão Victor Hugo de qualidade. A vingança e o infanticídio são marcas da cigana. Azucena viu a própria mãe morrer na fogueira, gritando “Mi vendica!”, a mando do velho (e, quando a ópera se inicia, já falecido) Conde de Luna. Para vingar a morte da mãe, sequestra o filho mais novo do Conde a fim de atirá-lo na mesma fogueira. Transtornada, se engana, e atira o próprio filho! Para reparar o erro, em vez de também matar o filho do Conde, leva o bebê consigo e o cria como seu filho: este é Manrico, o trovador. A forte ligação, típica de mãe possessiva, que constrói com Manrico, no entanto, não é mais forte do que a obsessão pela vingança. A ideia de vingar a morte da mãe persegue a cigana até o fim da ópera: ela somente revela ao Conde de Luna (herdeiro do primeiro Conde que matara a sua mãe) que Manrico era o irmão pelo qual ele havia procurado por tantos anos após a morte do trovador — morto a mando do próprio Conde: “Sei vendicata, o madre!” — brada Azucena.

A morte de Gilda em Rigoletto (cartão postal do século XIX)

L’amai troppo, ora muoio per lui

Não foi só Manrico que morreu em Il Trovatore: antes dele, morreu a jovem Leonora, cujo amor era disputado por ele e pelo Conde de Luna — e era só Manrico que ela amava. E por que Leonora morreu? Manrico estava preso e ia ser executado a mando do Conde. Para salvar o amado, ela decide se entregar ao Conde em troca da libertação de Manrico. Leonora ingere veneno para morrer antes de ser possuída pelo Conde, que, ao descobrir tudo, segue com a execução. Como disse Leonora a Manrico, “Prima che d’altri vivere… / Io volli tua morir!…”. Em resumo, Leonora morreu por Manrico, seu amado.

Antes de Leonora, Gilda, a filha de Rigoletto, também morreu por seu amado, o Duque de Mântua. Rigoletto contratou o assassino Sparafucile para dar fim à vida do Duque. Disfarçada de homem, Gilda se apresenta para ser morta (e entregue ao pai) no lugar do vilão. Nas palavras dela: “L’amai troppo, ora muoio per lui”. Gilda morreu pelo Duque de Mântua, seu amado.

E Violetta? Logo que o velho Germont, pai de Alfredo, com quem ela estava vivendo, convenceu-a (praticamente obrigou) a deixar seu filho (pelo bem da família Germont), Violetta profetizou que morreria: “Morrò!”. Dali em diante, a tuberculose só se agravou e nem o retorno de Alfredo fez com que ela sobrevivesse. A falta de Alfredo fez Violetta sucumbir. Violetta morreu por Alfredo, seu amado.

Gilda, Leonora e Violetta morrem — e morrem por seus amados. A frase de Gilda vale não só para ela, mas também para Leonora e Violetta: “L’amai troppo, ora muoio per lui” (“Eu o amei demais, e agora morro por ele”). A morte por amor, aliás, é um destino constante das mulheres na ópera, e as nossas três heroínas estão muito bem acompanhadas. Só para citar algumas: Manon Lescaut, Aida, Tosca, Cio-Cio San, Liù e, claro, Dido e Isolda — que, ao perder os seus respectivos amados, apenas morrem, não precisam ficar doentes, ser mortas e nem se matar: a vida simplesmente se esvai.

A morte de Leonora em Il Trovatore: Sondra Radvanovsky e Marcelo Alvarez no Metropolitan Opera, em 2011 (foto: Ken Howard/Metropolitan Opera)

O canto e a música

Enquanto Rigoletto tem um barítono no papel-título, Il Trovatore tem um tenor, e La Traviata, uma soprano. Embora, claro, o papel do barítono seja extremamente importante em Rigoletto, e o do tenor em Il Trovatore, nenhum deles reina em sua respectiva ópera da forma como a soprano reina em La Traviata.

Em La Traviata, cada ato retrata uma fase da curta vida e um estado de espírito de Violetta. Por isso, é comum ouvir que o papel foi escrito para três sopranos. No primeiro ato, temos uma Violetta jovial, um tanto frívola, que flerta com os seus pretendentes e que se surpreende ao se apaixonar por Alfredo, que acabará custando a sua liberdade — uma linha ideal para soprano coloratura. No segundo ato, Violetta confronta-se com Giorgio Germont, deixa Alfredo e, na segunda cena, é por Alfredo humilhada — a interpretação ganha cores mais dramáticas. Já no terceiro ato, Violetta está doente, à beira da morte, despede-se do passado e reencontra Alfredo, que chega tarde demais — essa fragilidade deve transparecer no canto.

Em Rigoletto, temos o exemplo do que é um barítono verdiano: um cantor com marcante capacidade declamatória, expressiva, e uma tessitura alta, timbre relativamente claro. Cortigiani, vil razza dannata, no segundo ato, ou, no terceiro, tanto o monólogo Egli è là morto! quanto o dueto com Gilda ilustram bem a atuação desse tipo de barítono.

Se o enredo de Il Trovatore não oferece material para análises como os de Rigoletto e La Traviata, seu canto é de uma expressividade e de uma força ímpares. É aí que residem a força dramática e a inegável qualidade dessa obra irresistível, apaixonante. Toscanini dizia que Il Trovatore necessitava dos “quatro melhores cantores do mundo”.

Embora Verdi tenha manifestado a intenção de fazer, em Il Trovatore, um drama contínuo, não dividido em números, Cammarano concebeu o libreto da forma tradicional, e Verdi assim o acolheu. Desse modo, as três obras seguem uma estrutura semelhante. Nelas estão presentes as árias solos divididas em três partes: um primeiro movimento lírico, chamado cantabile ou primo tempo; uma passagem onde há algum evento e da qual, geralmente, participam outros personagens, chamada tempo di mezzo; e uma cabaletta, geralmente ágil e mais rápida do que o primo tempo. Os duetos seguem, grosso modo, a mesma estrutura, mas com terminologia diferente: o primo tempo dá lugar ao largo e a cabaletta, à stretta.

A morte de Violetta em La Traviata, com Maria Callas (México, 1951)

O último ato de cada ópera

Assistiremos ao último ato de cada obra: ao terceiro ato de Rigoletto, ao quarto ato de Il Trovatore e ao terceiro ato de La Traviata. Nos três, como já sabemos, veremos a morte das protagonistas. Apenas em Il Trovatore veremos, também, a morte de um homem, Manrico.

Se, em La Traviata, o último ato é marcado pelos solos de Violetta, como Addio, del passato, os de Rigoletto e Il Trovatore são marcado por fortes e complexas cenas de conjunto. Em Rigoletto, basta citar o célebre quarteto Bella figlia dell’amore e a musicalmente engenhosa (e difícil!) cena da tempestade. Já em Il Trovatore, além de D’amor sull’ali rosee, a bela e sentida ária de Leonora — cujo tempo di mezzo é o Miserere —, há eletrizantes duetos entre Leonora e o Conde, entre Manrico e Azucena, e entre Manrico e Leonora.

Em conclusão, a execução em sequência dos últimos atos de RigolettoIl Trovatore e La Traviata nos permite desfrutar de importantes aspectos da genial escrita de um Verdi que estava no auge do seu período criativo. Deixemo-nos conduzir pela emocionante música de um dos maiores e mais geniais compositores da história da ópera!


ELENCOS

Orquestra Sinfônica de Santo André

Direção musical e regência: Abel Rocha
Direção cênica: Davide Garattini Raimondi
Cenotecnia e confecção de cenário: Casa Malagueta – Alicio Silva
Cenografia, adereços e figurinos: Giorgia Massetani
Assistentes de direção: Caio Bichaff e Willian Nunes
Direção geral e artística: Paulo Abrão Esper

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Rigoletto

Rigoletto: Rodolfo Giugliani, barítono
Gilda: Raquel Paulin, soprano
Duque de Mântua: Alan Faria, tenor
Sparafucile: Gianlucca Braghin, baixo
Maddalena: Nathália Serrano, mezzosoprano

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Il Trovatore

Manrico: Richard Bauer, tenor
Conde de Luna: Vinicius Atique, barítono
Leonora: Joyce Martins, soprano
Azucena: Nathália Serrano, mezzosoprano

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La Traviata

Violetta Valery: Thayana Roverso, soprano
Alfredo Germont: Daniel Umbelino, tenor
Giorgio Germont: Vinicius Atique, barítono
Doutor Grenvil: Ariel Bernardi, baritonista


SERVIÇO

Quando: 28 e 29 de agosto, quinta e sexta-feira, às 20h
Onde: Teatro Sérgio Cardoso
Ingressos: podem ser retirados gratuitamente pelo site do Sympla ou 1h antes do espetáculo, na bilheteria do teatro

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Quando: 30 de agosto, sábado, às 19h / 31 de agosto, domingo, às 17h
Onde: Teatro Municipal Maestro Flavio Florence
Ingressos: gratuitos, distribuídos 1h antes do espetáculo.

Fonte: https://notasmusicais.com/trilogia-verdiana-gilda-leonora-e-violetta-morrem-no-bexiga/

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