GRUPO CORPO / 21 : A ESTÉTICA DIFERENCIAL DE UMA OBRA COREOGRÁFICA TORNADA EMBLEMÁTICA NA TRAJETÓRIA DA DANÇA CONTEMPORÂNEA EM MOLDES BRASILEIROS. CRÍTICA DE WAGNER CORRÊA DE ARAÚJO NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.
Grupo Corpo / 21 e Piracema. Rodrigo Pederneiras/Concepção Coreográfica/Direcional. Maio/2026. José Luiz Pederneiras/Fotos.
A mais reconhecida das cias mineiras de dança – o Grupo Corpo - completou em 2025 seu meio século de criações, desde sua estreia com duas obras marcantes do coreógrafo argentino Oscar Araiz, a partir de temas do compositor Milton Nascimento e do letrista Fernando Brant. Maria Maria (1975) que, decisivamente, emblematizou o Grupo Corpo por seu incrível alcance criativo, sendo sequenciada por outra titulada O Último Trem (1980).
E simbolicamente a criação coreográfica que ligou, indissoluvelmente, a companhia à assinatura de Rodrigo Pederneiras em moldes absolutamente inventivos seria, exatamente, 21, numa inédita parceria do coreógrafo e do grupo instrumental UAKTI, pelo desbravador ideário composicional de outro mineiro - Marco Antônio Guimarães.
Que tinha sido iniciada por Cantares, do mesmo músico, tornando-se o primeiro experimento com personalista autenticidade de Rodrigo Pederneiras no ofício coreográfico, após uma fase em que transitou por obras de teor mais ligado à base clássica, tais como Noturno (1982), Sonata (1984), Prelúdios (1985), Canções (1987), Missa do Orfanato (1989).
Quando, então, o impacto revelador essencialmente provocado pela reveladora brasilidade de 21, em 1992, estabelece uma original conexão coreográfica-musical de Rodrigo Pederneiras / Grupo Corpo com a MPB, passando por diversos compositores - de Tom Zé, Zé Miguel Wisnik, João Bosco, Arnaldo Antunes, até Caetano e Gil, sem deixar de lado um histórico precursor Ernesto Nazareth, em tendência que é lembrada aqui, com a reapresentação de 21, ao lado da mais recente delas - Piracema.
Grupo Corpo / 21 e Piracema. Rodrigo Pederneiras/Concepção Coreográfica/Direcional. Maio/2026. José Luiz Pederneiras/Fotos.
Onde uma ex-integrante do Grupo Corpo simbolizou na passagem cinquentenária da Cia, a transmutação deste processo evolutivo pela busca de um futuro dimensionamento sucessório. E para isto o espetáculo comemorativo estabelece um liame entre o passado, o presente e o futuro, ao colocar lado a lado, 21, de 1992, e a inédita Piracema, de 2025.
A primeira como uma exclusiva composição coreográfica de Rodrigo Pederneiras, seguida da outra numa simultânea leitura deste com Cassi Abranches, uma bailarina do Grupo Corpo que retorna, ali, como coreógrafa assistente.
Sob um conceitual estético de permanente transformação pela abertura de inusitados caminhos, tanto no seu dimensionamento coreográfico como musical, por intermédio da trilha inédita de Clarice Assad e de um dúplice traçado coreográfico (Cassi Abranches e Rodrigo Pederneiras) capaz de conceituar uma nova era para o Grupo Corpo.
No seu sugestionar, repercutido especularmente na força da concepção coreográfica, desde um tribalismo indígena percussionista paralelo às sonoridades da natureza, passando por expressivos acordes de sonoridades mais universalistas confluindo, enfim, na modernidade de ritmos eletro acústicos.
Com estes contrapontos uma gramática gestual vai se desdobrando ao compasso da energizada partitura polifônica de compassos numéricos com prevalência percussiva, entre cordas, sopros, ecos instrumentais e efeitos acústicos que acentuam, geometricamente, a vigorosa dramaturgia corporal imprimida por Rodrigo Pederneiras a 21.
Extensivos a uma contínua unicidade de proposta estética que aproxima 21 de Piracema, na perfeccionista e evolutiva coesão de hibrida técnica clássica e ritmos da cultura popular, sob o forte sotaque do gingado de um remelexo de quadris, na pulsão de fluida e contagiante corporeidade, ancorada nos avanços da contemporaneidade coreográfica brasileira...
Wagner Corrêa de Araújo
21 e Piracema / Grupo Corpo, em instantânea temporada no Teatro Multiplan/Village Mal/Barra da Tijuca, dias 7, 8 e 9, às 20h; até o domingo, 10/05, às 17 h.



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