QUANDO A CULTURA VIRA TERRITÓRIO: A DISPUTA SILENCIOSA PELOS PALCOS DE SÃO PAULO PELAS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS. ARTIGO DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.
O Instituto Baccarelli venceu de goleada a Sustenidos para gestão do Theatro Municipal de São Paulo nos próximos cinco anos. Nomes já são especulados para a direção: Jorge Takla é apontado como principal nome para diretor artístico, Luiz Fernando Bongiovanni para a direção do Balé da Cidade de São Paulo e para regente titular da Orquestra Sinfônica Municipal um nome aparece com força, Fabio Mechetti, atualmente diretor da Filarmônica de Minas Gerais e correndo por fora Ira Levin.
Será que a nova organização social vai manter a programação de 2026?
São Paulo talvez seja a única cidade brasileira onde a música de concerto consegue, simultaneamente, parecer um símbolo de civilização e um campo permanente de guerra política.
Por trás dos aplausos, das estreias e das temporadas oficiais, existe uma disputa menos visível: quem controla os equipamentos culturais controla muito mais que teatros — controla formação, orçamento, narrativas institucionais e, principalmente, pessoas.
Nos últimos anos, o avanço do Instituto Baccarelli em diferentes frentes culturais paulistas vem despertando atenção dentro do setor. Oficialmente, fala-se em democratização do acesso, inclusão social, expansão pedagógica. No discurso, tudo parece impecável.
Na prática, muitos profissionais da música começam a fazer uma pergunta desconfortável: até onde vai um projeto artístico, e onde começa um projeto de ocupação institucional?
O recente movimento em torno do edital de gestão do Theatro Municipal de São Paulo reacendeu essa discussão.
Porque o Municipal não é um equipamento qualquer.
Ali vivem a Orquestra Sinfônica Municipal, o Coro Lírico, o Coral Paulistano, o Balé da Cidade, escolas históricas de música e dança. Não se trata apenas de gerir prédios. Trata-se de gerir tradições centenárias.
E é exatamente aí que mora a tensão.
O modelo Organização Social: flexibilidade ou captura?
A justificativa clássica das Organizações Sociais é conhecida: menos burocracia, mais eficiência, contratação ágil, capacidade de captação.
Na teoria, parece moderno.
Na prática, muitas vezes se transforma em outra coisa: uma máquina institucional capaz de trocar estabilidade artística por fidelidade administrativa.
Entram novos gestores.
Entram novos “coordenadores”.
Entram novos consultores.
Entram novos aliados.
E, curiosamente, quase sempre sai alguém que já estava ali.
Não porque o artista perdeu qualidade.
Mas porque perdeu espaço político.
O modelo não necessariamente destrói corpos artísticos de imediato. Às vezes ele faz algo mais sofisticado: ele altera lentamente os centros de influência.
Primeiro, mudam as coordenações.
Depois, os professores.
Depois, as bancas.
Depois, os contratos.
Quando se percebe, o discurso institucional continua o mesmo, mas as pessoas já não são.
E quando falamos do Theatro Municipal, estamos falando de um equipamento que movimenta centenas de milhões de reais em recursos públicos ao longo de ciclos de gestão.
Então uma pergunta inevitável começa a surgir nos bastidores: Se essas organizações nasceram originalmente para gerir seus próprios projetos sociais, pedagógicos ou musicais… o que exatamente está por trás do interesse crescente em administrar estruturas históricas, corpos artísticos consolidados e orçamentos dessa dimensão?
Afinal, no papel, são organizações sem fins lucrativos.
Então o que move essa expansão?
Dinheiro oficialmente não deveria ser o objetivo.
Mas influência institucional, poder de contratação, poder de nomeação, poder de decidir quem entra, quem permanece e quem desaparece dos bastidores da cultura isso também é capital.
E, muitas vezes, um capital ainda mais valioso.
O precedente paulista
A Santa Marcelina Cultura tornou-se um caso frequentemente citado no meio musical por sua forte presença institucional em projetos de formação, escolas e programas públicos.
O debate interno no setor não é necessariamente sobre competência técnica.
É sobre concentração.
Quando poucas organizações passam a administrar múltiplos equipamentos, múltiplos corpos docentes e múltiplas estruturas de formação, cria-se um fenômeno delicado:
o artista deixa de circular por mérito e passa a circular dentro de ecossistemas fechados.
E ecossistemas fechados, cedo ou tarde, começam a se parecer com feudos.
O contraste com a Fundação Osesp
Talvez por isso a Fundação Osesp seja tão frequentemente citada como contraponto.
A OSESP e a Sala São Paulo são geridas pela própria fundação criada para aquele fim institucional.
Pode parecer um detalhe administrativo.
Mas para os músicos, muda absolutamente tudo.
Porque quando a própria instituição administra seu corpo artístico, sem viver permanentemente da disputa por novos contratos públicos ou da expansão sobre outros equipamentos, cria-se algo raro no Brasil:
Continuidade.
E continuidade produz estabilidade.
Os músicos conseguem planejar suas carreiras.
Os professores conseguem trabalhar com previsibilidade.
Os corpos artísticos conseguem produzir com tranquilidade, dignidade e foco no que realmente importa: arte.
Na OSESP, o palco costuma vir antes da estrutura.
No modelo expansionista de certas OS, às vezes parece o contrário:
primeiro se constrói a estrutura.
Depois se decide qual arte caberá dentro dela.
E o Municipal?
O Theatro Municipal de São Paulo não precisa de salvadores.
Precisa de gestão.
Mas gestão não é ocupação.
Gestão não é aparelhamento.
Gestão não é transformar instituições históricas em vitrines de grupos específicos.
Gestão é apresentar óperas que sigam o libreto.
Porque uma cidade que entrega seus principais equipamentos culturais a redes fechadas pode continuar produzindo concertos.
Mas corre o risco de parar de produzir diversidade.
E quando isso acontece, a plateia talvez nem perceba.
Os músicos percebem primeiro.
Conclusão:
A maioria das organizações sociais que administraram o teatro teve problemas com irregularidades na gestão, as contas nunca fecham.
Não esquecendo que diversos artistas estrangeiros processam o teatro por falta de pagamento dos cachês.
Programações de péssima qualidade é o que se tem visto nos últimos anos em nome da lacração e modernidade.
Espero de coração e com muita esperança que o Instituto Bacarelli mude esse ciclo.
Pelos nomes especulados para a direção o caminho parece estar correto.
Ali Hassan Ayache

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