POR QUE CARMINA BURANA É, CONQUANTO POPULAR, MUSICALMENTE IRRELEVANTE. ARTIGO DE AUGUSTO MAURER NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.


Semana passada, deflagrei uma longa e acalorada discussão no facebook ao afirmar peremptoriamente que Carl Orff era um compositor irrelevante e Carmina Burana, sua peça mais popular, uma composição, no máximo, pueril. Como sempre, toda menção comparativa à ordem de grandeza de compositores célebres (suponho que com outros artistas aconteça o mesmo; por exemplo, por que Van Gogh, os impressionistas ou qualquer dos últimos pintores figurativos parecem tão superiores, digamos, a Pollock, Rothko ou Basquiat). Pelo menos, foi assim quando me referi a Mendelssohn, Tchaikovsky e Rachmaninoff como compositores secundários.
Desta vez, aludi de passagem à popular tese de que Orff era nazista e batia na mulher. O que causou, no entanto, mais indignação foi minha denúncia da construção um tanto quanto simplória da famosa cantata. Procurei antecipar as refutações mais óbvias ressalvando que já ouvira muita música modal bem mais interessante. Em vão. Pois até de interlocutores supostamente ilustrados ouvi a réplica de que toda depreciação de Carmina Burana não passaria de ranço elitista contra, suponho (nunca entendi muito bem este tipo de argumento), manifestações artísticas mais populares.
Como sempre nestes casos, não tardou a se fazer reverberar, por algum comentarista ofendido, a conhecida máxima de que “gosto não se discute”. Pronto. Fisgaram a isca. De modo que pude encher a boca para sentenciar que gosto se discute, sim – e que quanto mais compararmos, melhor. E que se destas comparações emerge o fato de que algumas obras são notoriamente melhores do que outras, tal se deve a critérios absolutamente objetivos. Sendo, portanto, uma grande asneira “validar” a qualidade de qualquer coisa segundo sua aceitação popular, como querem os defensores da premissa de que “gosto não se discute”. Pois, na formação do gosto popular, interferem fatores tais como publicidade, simplicidade/complexidade, conhecimento/ignorância ou sinestesia, entre outros – os quais não são, todavia, objetos deste texto.
Antes, tinha em mente, ao iniciar estas linhas (o texto, essa nau sem rumo !), tentar explicar, em termos objetivos, por Carl Orff não atingiu nem de longe a estatura de um Mahler, Stravinsky ou Shostakovich (só para citar uns poucos grandes que viveram no mesmo século).
Para se entender por que Carmina Burana, como peça sinfônica, não chega aos pés de qualquer marco sinfônico, é preciso recorrer a um conceito formulado por Walter Frisch em Brahms and the Principle of Developing Variation (California Studies in 19th Century MusicUniversity of California Press, 1984). A expressão se refere à técnica composicional utilizada mais emblematicamente por Brahms, segundo a qual todo tecido musical é gerado por meio de repetições variadas (i.e., ligeiramente alteradas) e sucessivas de materiais pertencentes a um mesmo conjunto. Ou, se quiserem, grupo temático.
Assim, podemos dizer que o Bolero de Ravel, com sua repetição obsessiva de um mesmo par de melodias inalteradas, apenas reiteradas por instrumentos diferentes, é o caso mais emblemático de recusa sistemática ao princípio composicional formulado por Frisch. Ao contrário, a realização plena de formas longas conforme praticadas pelos principais representantes da tradição sinfônica pressupõe um domínio absoluto dos procedimentos modulatórios conforme derivados por Schoenberg da música do período de prática comum (i.e., do barroco ao romantismo tardio) em Structural Functions of Harmony (Norton, 1954).
Do mesmo modo, não precisamos ouvir muitos compassos de Carmina Burana para perceber que, ao contrário do que ocorre, digamos, na oitava sinfonia de Mahler, os mesmos materiais (desde pequenas células de poucos compassos até frases ou seções inteiras) são repetidos intactos imediatamente – quase sempre três vezes ao longo de toda a célebre cantata. Imaginem, agora, a monotonia do mesmo expediente replicado por cerca de uma hora, tempo de duração aproximado das duas obras comparadas neste parágrafo. Sem chance alguma, portanto, para a de Orff.
Não que outras obras, a seu modo admiráveis, não repousem sobre as mesmas formas simples, até simplórias ou minimalistas, dos universos medieval (olhando para o passado) ou pop (considerando o futuro). Acontece que, face aos monumentos da grande tradição sinfônica, utilizar a palheta orquestral para algo de contornos tão ostensivamente esquemáticos como Carmina Burana se configura como um dos casos mais escandalosos de desperdício de meios de que se tem notícia no âmbito da criação artística. Noutras palavras, não faz o menor sentido lançar mão da instrumentação utilizada por epígonos do eixo melhor representado por Beethoven, Brahms e Mahler para expressar formas que, despojadas de todas as repetições literais, não durariam mais do que uns poucos minutos. É como orquestrar para naipes completos de cordas, madeiras, metais e percussão, além de coro e solistas, canções com não mais do que dois ou três acordes.
(um modo relativamente fácil de se verificar o grau de ambição formal de uma obra seria submetendo o ouvido crítico à audição de uma versão reduzida para o teclado da mesma, na qual toda cor instrumental é, a priori, suprimida)
Então, em que pese a enorme popularidade da obra mais conhecida de Orff, me poupem dos frágeis argumentos que sustentam que a mesma advenha de algum suposto mérito composicional. E me poupem, igualmente e sobretudo, da validação de qualquer coisa meramente pelo gosto popular. Pois daí para se aceitar a primazia do mercado na valoração de todas as coisas é um tapa. O triunfo do relativismo absoluto em qualquer matéria estética. Prefiro, outrossim, pensar que, como civilização, ainda não despencamos tanto.
Augusto Maurer
Fonte: http://impromptu.sul21.com.br/2016/12/por-que-carmina-burana-e-conquanto-popular-musicalmente-irrelevante/

Comentários

  1. Respeito a sua opinião, no entanto o senhor não se referiu ao ritmo trepidante e contagiante de CARMINA BURANA.
    Não é necessário ser um expert musical para aprecia-la.

    ResponderExcluir
  2. bla bla bla. Ok, ganhou seu minuto de fama. Daqui a mil anos a Carmina Burana continuará no repertório... Já o sr, como é mesmo o seu nome ?

    ResponderExcluir
  3. Obrigada por esse artigo!! Não entendi muito bem o porquê, mas também considero irrelevante sim! Irrelevante, sensacionalista, totalmente a` toa, e sem sentido. Quando era uma criancinha de 11 anos ainda gostava, hoje em dia apenas me dá dor de cabeça.

    ResponderExcluir

Postar um comentário