AINADAMAR : DIREITO , LIBERDADE E IGUALDADE EM UM DRAMA FLAMENCO. ARTIGO DE FABIANA CREPALDI NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.



“Yo soy la Liberdad porque el amor lo quiso!
Pedro! La Liberdad, por la cual me dejaste.
Yo soy la Liberdad, herida por los hombres!
Amor, amor, amor, y eternas soledades!”
(Federico García Lorca em Mariana Pineda (1924)).


Ainadamar, palavra árabe que significa fonte de lágrimas, é o único título do nosso século que veremos na presente temporada lírica do Theatro Municipal. Composita pelo argentino Osvaldo Golijov com libreto de David Henry Hwang, estreou em 2003 e passou por uma revisão em 2005. O usual é que a programação dos teatros de ópera seja composta, exclusivamente, por obras já consagradas pelo tempo. É louvável, pois, que tal título esteja na programação. É urgente e fundamental que as novas óperas e as velhas obras primas dividam espaço, dialoguem. Sempre me pergunto por que títulos novos e desconhecidos repelem o público das óperas e o mesmo não ocorre nas salas de cinema e nos teatros (não operísticos). Ninguém espera que uma sala de cinema só exiba filmes antigos, os deliciosos ‘clássicos’, e nem que uma companhia de teatro só encene Shakespeare e Molière, por exemplo.

Por uma feliz coincidência, a ópera Ainadamar traz um diálogo entre diferentes épocas: a época atual, na qual estão inseridos os autores; a primeira metade do século XX, época de Margarita Xirgu e de Federico García Lorca; o início do século XIX, época em que viveu Mariana Pineda. Unindo todos esses momentos, o desejo de Liberdade. Liberdade para se expressar, Liberdade para amar.

A ópera se passa em um teatro do Uruguai, nos últimos momentos da vida da célebre atriz catalã Margarita Xirgu (1888- 1969). Tomando como base as próprias escritos da própria Xirgu sobre a efemeridade da vida do ator e de que quando a voz do ator se cala e quando os que o ouviram morrem, ele morre, a morte aqui se confunde com o momento em que a atriz veterana percebe que não poderá mais atuar e começa a ensinar a futura geração de atores. Ela vai, pela última vez, representar Mariana Pineda, uma das primeiras peças de teatro escritas por Federico García Lorca (1898-1936). Foi quando XIrgu representou Mariana pela primeira vez, em 1927, em Barcelona, com cenário de Salvador Dali, e depois Madri, que a carreira de Lorca deslanchou e ele se tornou conhecido. A imagem acima mostra a cena do ato final de Mariana Pineda, com Xirgu e o cenário de Dali.

Desde a infância a figura de Mariana Pineda (1804-1831) fez parte da vida de Lorca. Próximo à casa em que morava com seus pais, em Granada, há um monumento à ativista liberal, morta estrangulada pelo regime totalitarista do rei Fernando VII. A escultura, na Pl. Mariana Pineda, pode ser vista na figura abaixo.


Mariana gozava de respeito social e era cortejada pelo chefe da polícia de Granada, Ramon Pedrosa Y Andrade. Em 1828 Mariana ajudou na fuga de Pedro de Sotomayor, um preso condenado à morte por conspiração. Foi para Pedro que Mariana bordou uma bandeira com as palavras “Ley, Libertad, Igualdad”. Por essa bandeira Pedrosa a prendeu; por ter se recusado a entregar os conspiradores liberais, a executou.

Na peça de Lorca, Mariana ama a Liberdade através de Pedro, que argumenta não poder dar um coração que não lhe pertence: “Mariana, ¿qué es el hombre sin libertad? ¿Sin esa luz armoniosa y fija que se siente por dentro? ¿Cómo podría quererte no siendo libre, dime? ¿Cómo darte este firme corazón si no es mío?“ Para ela, amor e liberdade se confundem: “Yo soy la Liberdad porque el amor lo quiso!

Atestanto a atemporalidade do tema, justamente no dia da estréia de Ainadamar em São Paulo, 22 de março de 2015, a emissora espanhola Cadena SER publicou uma série de documentos, que oficializam a versão de que Lorca foi preso e fuzilado por motivos políticos (http://cadenaser.com/ser/2015/04/22/cultura/1429721554_396463.html). Segundo os documentos, redigidos pela ditadura franquista 30 anos após a morte de Lorca e mantidos em sigilo até agora, o poeta era acusado de ser socialista, maçom e homossexual, e foi morto após ter “confessado”. Lorca dizia não ser político, mas se considerava um revolucionário: “Eu nunca serei político. Eu sou revolucionário porque não há verdadeiro poeta que não seja revolucionário.” Preso pelo fascista Ramón Ruiz Alonso (um dos personagens que aparece na ópera) no dia 16 de agosto de 1936, quando a sangrenta Guerra Civil Espanhola estava apenas começando, ele foi conduzido a Vizir, cidade próxima a Granada. Lorca foi fuzilado junto com um dois toureiros e um professor, no local conhecido comoFuente Grande, fonte da águe que chega a Granada através do canal construído pelos árabes no século XI. Os árabes chamavam essa fonte de Ainadamar, que significa “fonte de lágrimas”. Mal sabiam eles que, séculos mais tarde, em 18 de agosto de 1936, essas lágrimas jorrariam por Federico García Lorca. Como diz o libretto da ópera, “Que tragédia quando a carne jovem se desgarra e brota uma torrente de sangue quente”.

Na mesma época Margarita Xirgu estava em turnê pela América Latina com obras de Lorca. Após a ascensão de Franco ao poder em 1939, Xirgu se exilou, vivendo na América Latina e naturalizando-se no Uruguai, onde morreu em 1969. Além de atuar, a atriz foi diretora da Escuela Multidisciplinaria de Arte Dramático, em Montevidéu. Em Ainadamar, a nova geração de atores por ela formada ou influenciada é representada por Nuria, uma discípula de Xirgu, que ganhou, em São Paulo, a bela voz da soprano brasileira Camila Titinger, integrante da Academia de Ópera do Theatro São Pedro.

Através de Margarita, Nuria entra em contato não só com a obra de Lorca, mas também com os ideais de Direito, Liberdade e Igualdade, palavras bordadas na bandeira de Mariana e escritas na obra de Lorca. Na excelente produção de Caetano Vilela, em cartaz no Theatro Municipal de São Paulo, a bandeira tem três faixas horizontais: vermelha, amarela e roxa, como as da bandeira da Segunda República Espanhola. Margarita aparece envolta por ela, mas no fim a bandeira é passada para Nuria. A imagem abaixo mostra a intensa Marisú Pavón (Margarita Xirgu) e, com a bandeira, Camila Titinger (Nuria), ambas ótimas cênica e vocalmente.


No texto que escreveu para o programa do Theatro Municipal, Golijov afirma que o seu desejo, ao compor a ópera, em 2003, por encomenda da Sinfônica de Boston, era “poder reproduzir na partitura uma imagem sonora, visual e tátil” que teve. Ele descreve essa imagem como “uma granadaflutuante, sangrando melodias de canto flamenco, arábicas, judias, cristãs.” A “granada” a que Golijov se refere é a romã (granada em espanhol), num jogo de palavras com a cidade de Granada, segundo ele “cidade dos grandes poetas árabes medievais e do grandíssimo poeta Federico García Lorca, no século XX.”

A ópera é dividida em três atos ou, como os chamaram os autores, três imagens: Mariana, Federico e Margarita. Em cada uma delas o coro feminino canta a balada de Mariana Pineda com a qual Lorca começou e terminou a sua peça, porém cada vez em um clima diferente, de acordo com o desenrolar d
​o drama​
.
“¡Oh! Qué día tan triste en Granada,
que a las piedras hacía llorar
al ver que Marianita se muere
en cadalso por no declarar.”

Margarita recorda seu primeiro encontro com Lorca, o sonho da República e o contato com Mariana Pineda. Na lírica ária Desde Mi Ventana, belamente interpretada em São Paulo pelo contratenor Luigi Schifano, Lorca menciona o monumento a Pineda em Granada. No CD da Deutsche Grammophon, o compositor diz ter temido que essa ária, segundo ele à moda antiga, não funcionasse bem. Felizmente, funcionou!

Logo no início da obra a rumba reina no canto de Margarita, simbolizando o seu exílio na América Latina. Ela revive a partida para a turnê com obras de Lorca, quando tentou convencê-lo a ir junto, a sair da Espanha, mas não conseguiu, ele preferiu ficar. Nesse momento há a referência a Havana, por onde a turnê passaria. O cenário se ilumina, o azul, frio, dá lugar a um tom ocre, mais quente; a música flamenca se torna alegremente latina. Mais que referência política, a passagem alude ao apresso especial de Lorca por Cuba, onde disse ter passado alguns dos melhores dias de sua vida. Segundo Golijov, era necessário um momento como esse antes da tragédia que se seguiria.

Passagem especialmente dramático e impactante é a condenação de Lorca. Ruiz Alonso, brilhantemente interpretado pelo especialista no assunto Alfredo Tejada, entra cantando um flamenco no qual a influência árabe fica evidente. No canto, meio chamado, meio lamento, que parece ser referência a um ritual de sacrifício, Ruiz ordena que Lorca seja entregue -- por Deus! --, que aquilo acabe logo. A voz aparece ecoando na cabeça de Margarita, em sua lembrança. Questionado sobre quais crimes o poeta teria cometido, Ruiz responde que causou mais dano com sua caneta que muitos com armas: “Hizo más daño, ¡Ay!, con su pluma que muchos otros con su arma.” Dialogando com a memória, Margarita responde que ele amava a poesia e a liberdade.  Na ópera, na mente de Margarita, enquanto a orquestra derrama melodias cristãs, o poeta-revolucionário derrama seu sangue por seu povo. É morto como Cristo, injustamente e entre outros dois condenados: um à esquerda e outro à direita. A cena do fuzilamento, com tiros ritmados que logo viram flamenco, ganhou na montagem paulistana um jogo de luz que uniu perfeitamente o sonoro e o visual. Os tiros nos atingiam pelos nossos dois principais sentidos. 

Enquanto o poeta é morto pela Falange, ouvem-se vozes, representando tantos outros que tiveram a mesma sorte de Lorca. Ainadamar, a Fonte de Lágrimas, que testemunhou a morte de Lorca, também se faz presente no canto, em sons de água e na iluminação de Vilela.

Na partitura de Golijov o papel de Lorca é para mezzo-soprano. Porém, pode ser cantado por um contratenor como Luigi Schifano, que fez um poético Lorca em São Paulo.

As duas laterais do palco foram decoradas com texto escrito de forma que, olhando de frente, a literatura envolvia a cena, fazendo-se presente todo o tempo. Quando Lorca é condenado, há uma chuva de escritos, de livros. Banidos, censurados, ao mesmo tempo os livros tornaram-se ainda mais vivos: no palco jogados, ali ficaram. Mais tarde, ao término do espetáculo, a chuva literária chega à platéia através de poemas de Lorca. O nosso tato é atingido.

A cena da morte de Lorca seria um fim possível para Ainadamar. Porém, os autores optaram por fazer uma terceira imagem, que, centrada em Margarita, esfria o drama. Nessa terceira imagem é retomada a idéia de que Lorga e Mariana Pineda viveram através de Margarita e que ela passa para Nuria e seus alunos a missão de fazer teatro. Fala-se da necessidade de continuar representando e buscando a liberdade. A Margarita de Ainadamar morre como a Mariana de Lorca: meio à lá Sócrates, ao conclui que o homem é um cativo e não pode se libertar, prepara-se para deixar a prisão carnal, aspira pela liberdade do alto, a liberdade verdadeira.

Um tanto monótona, ao contrário das duas imagens anteriores, sem acrescentar idéia musical marcante ou conteúdo novo, essa última imagem da ópera parece um tanto supérflua. A impressão que se tem é de que os autores não quiseram acabar com a cena forte, pungente, mas também dura, do sacrifício e morte de Lorca e, em vez disso, quiseram deixar uma edificante mensagem de otimismo. O prejuízo dramático foi considerável.

Sacrilégio para os conservadores, a ópera é microfonada. Considerando a utilização de efeitos sonoros, o estilo do canto e pensando na necessidade de se equilibrar o som da orquestra -- que precisa amplificar alguns instrumentos de percussão e, sobretudo, o violão --, não vejo pecado algum. No texto do programa, Golijov diz que, mais que meros meios de amplificação, os microfones também são “instrumentos da poética dos vários mundos dessa obra.”

Apesar do “epílogo”, o que se está apresentando é um autêntico drama flamenco, histórico e, ao mesmo tempo, universal e atemporal. Com libretto instigante, poético, música colorida, viva, e montagem brilhante, Ainadamar é algo novo, diferente e, para quem está aberto a sair um pouco da rotina, imperdível.  

Fabiana Crepaldi

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