VISITA A UM TEMPLO DA ÓPERA E A NOVA PRODUÇÃO DE McVIKAR PARA CAVALLERIA RUSTICANA & PAGLIACCI. CRÍTICA DE FABIANA CREPALDI NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.


Mais do que apresentar óperas de qualidade, certos teatros são verdadeiros templos da ópera. Um deles é o Metropolitan Opera, em Nova York. Ainda do lado de fora, a visão dos imponentes e maravilhosos painéis de Marc Chagall dão ao visitante o anúncio de que está se aproximando de um local místico, onde a arte vive. Na primeira quinzena deste mês, passei alguns dias nesse templo para fazer minhas oferendas e, em troca, desfrutar de algumas óperas.
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Eventos especiais e festivais à parte, o Met é o único teatro de ópera em que é possível ver cinco óperas distintas em uma semana. Assim, na lista de óperas da minha curta estadia estão Don Carlo, Aida, Ernani, Lucia di Lammermoor e a estréia da nova produção de Cavalleria Rusticana e Pagliacci. O leitor atento logo percebe que os cinco títulos são de óperas italianas e três -- os três primeiros -- têm Giuseppe Verdi como autor. Certamente é um reflexo da tentativa de atrair o público tradicional que, em sua maioria, procura mais o repertório italiano. Nesse sentido, e considerando a popularidade do repertório, a minha primeira surpresa veio na hora de comprar os ingressos. Ao contrário de outros anos em que tive de comprar com antecedência ou ficar tentando ‘caçar’ um lugar na internet para óperas esgotadas (como Eugene Onegin, com Netrebko, em 2013 e Werther, com Kaufmann, em 2014), dessa vez havia sempre lugares disponíveis, em maior ou menor número, dependendo da ópera.
As grandes decepções foram Ernani e, infelizmente uma das minhas favoritas, Aida. O empobrecimento de ambas tem a mesma causa: intérpretes fracos. O caso mais grave foi Ernani. Nas outras récitas o papel título foi cantado por Fancesco Meli. Embora não seja um tenor irrepreensível, ele sempre tem bons momentos, há de ter feito bom Ernani. Porém, no dia 08 de abril, em seu lugar estava escalado o canadense Luc Robert. Inseguro, com voz fraca e técnica deficiente, o tenor estreante evidentemente não estava preparado para subir no palco do Met -- ou talvez em palco algum! Houve momentos em que o ponto precisou erguer a voz e gesticular, colocando as mãos para fora de sua ‘casinha’ , a fim de guiar o fraco Robert. No papel de Don Carlo, o tenor-barítono Plácido Domingo também não teve grande sucesso. Desse modo a ótima mezzo-soprano Angela Meade brilhou sozinha como Elvira, mas com sua curta participação não conseguiu salvar o pobre Ernani.
Com a bela montagem, a perfeita orquestra e o sempre fascinante coro do Met, maus solistas têm mais trabalho para estragar Aida. Felizmente, os fracos Marco Berti e Oksana Dyca, interpretando, respectivamente, Radamés e Aida, conseguiram diminuir, mas não aniquilar a beleza e a sensibilidade dessa ópera. Dentre os solistas, o destaque positivo foi a Amneris da ex-Aida Violeta Urmana. Comandando a orquestra do Met, Plácido Domingo soube dar a dinâmica necessária. A montagem de Sonja Frisell, com cenário de Gianni Quaranta, está no Met há quase 30 anos. Faço votos de que não seja substituída tão cedo, porque é um exemplo precioso de uma montagem que sabe ser grandiosa sendo simples, inteligente e de bom gosto.
A terceira ópera verdiana, ao contrário das outras duas, esbanjou grandes nomes. Don Carlo contou com Dimitri Hvorostovsky (Rodrigo, marquês de Posa), Barbara Frittoli (Elisabetta), Ferruccio Furlanetto (Filippo II) e Ekaterina Gubanova (princesa de Eboli), e demonstrou como um time de excelentes intérpretes faz toda a diferença em uma ópera. Além dos citados, não se pode esquecer de mais uma estrela, mas cujo brilho já se está esvanecendo: James Morris, que viveu o Grande Inquisidor. A isso se some a regência de Yannick Nézet-Séguin, que deu vida a cada minuto dessa longa ópera, e a inspirada produção de Nicholar Hytner, que estreou no Met em 2010. No papel título, o coreano Yonghoon Lee, embora tenha desempenhado bem o seu papel, ficou aquém dos colegas de palco.
De Verdi para Donizetti. A montagem de Lucia di Lammermoor, bonita e eficiente, já nos é conhecida através de cinema e vídeos. Sem um time tão estelar como Don Carlo, Lucia teve bons cantores e foi muito bem recebida pelo público. No papel título, Albina Shagimuratova foi mais feliz no desempenho vocal que cênico. Luca Salsi, que ficou conhecido por ter substituído Plácido Domingo às pressas e ter cantado, no mesmo dia, Don Carlo em Ernani à tarde e Enrico em Lucia à noite, saiu-se bastante bem. Joseph Calleja, o Edgardo, havia cancelado a sua participação na récita anterior devido a problemas respiratórios. Ainda em recuperação, ele apresentou dificuldade em algumas partes mais agudas, mas nas regiões confortáveis foi possível conferir sua voz brilhante, lapidada e sua ótima interpretação. É, sem dúvida, um dos poucos grandes tenores do momento.

Cavalleria Rusticana e Pagliacci


No dia 14 de abril me despedi do Met com a estréia da nova produção de Sir David McVikar para Cavalleria Rusticana e Pagliacci, cuja récita do próximo sábado, 25 de abril, será transmitida ao vivo para salas de cinema de todo o mundo, na séria Met Live HD. Em São Paulo, a famosa dobradinha verista poderá ser vista às 13:30 na rede UCI (Santana, Jardim Sul e Anália Franco) e no Kinoplex Vila Olímpia.
No fim do século XIX Verdi compunha suas últimas óperas. O que seria da ópera italiana após Verdi? Que caminhos os compositores poderiam tomar? Um desses possíveis caminhos veio da literatura e, musicalmente, já havia sido apontado nas últimas composições de Verdi. Da literatura, o movimento que nasceu na França com autores como Balzac e Zola, e que ganhou o nome de naturalismo, logo chegou à Itália, onde deu origem ao verismo. Um exemplo da literatura verista é Cavalleria Rusticana, de Giovanni Verga, a partir da qual Pietro Mascagni, com libretto de Giovanni Targioni-Tozzetti e Guido Menasci, compôs a ópera homônima. A idéia era narrar, da forma mais realista possível, a vida de pessoas comuns, em geral gente simples e trabalhadora, mostrando seus dramas, suas mazelas. Quando o verismo chegou à ópera, essa forma despojada se estendeu à música. Não era o objetivo demonstrar as qualidades do compositor ou os dotes dos cantores, mas o sofrimento de pessoas comuns. Desse modo, árias pomposas foram abandonadas. Como observei acime, em suas últimas óperas, Otello e Falstaff, Verdi já apontava esse caminho. Especialmente em Otello: embora em princípio se tratasse de um personagem grandioso, ao longo da ópera ele foi sucumbindo à persuasão, à intriga, ao ciúmes. O tema da traição e ciúmes, tão caro ao verismo, já aparece nesse drama verdi-shakespeareano e é tratado, musicalmente, de forma direta, objetiva, trágica. Embora ainda não se trate de trabalhadores, gente do povo, em Otello Verdi dá os primeiros passos para o verismo.
Cavalleria Rusticana estreou em 1890. A trama se passa na praça de um vilarejo na Sicília, em meados do século XIX, em pleno Domingo de Páscoa. Santuzza, desonrada e excomungada por amar Turiddu, descobre que ele a está traindo com Lola. Em um momento de desespero tipicamente verista, após uma briga, ela lhe deseja “uma má Páscoa”. Logo em seguida o ‘compadre’ Alfio, marido de Lola, chega à praça. Ela não se contém e conta tudo a Alfio. Após duelo entre Alfio e Turiddu, a ópera termina com um grito desesperando de que “mataram compadre Turiddu!”. Quanto à ambientação, segundo o programa do Met, o vilarejo não é meramente pitoresco, mas é, “em certo sentido, um personagem da ópera, e é fundamental para o peso dramático e musical da obra. O local é rude, intocado pela modernidade, próximo dos ciclos naturais de vida e morte e dos primitivos rituais humanos a eles associados.” Ao ler essas acertadas palavras, pareceu-me que quem as escreveu o fez sem ter qualquer conhecimento da montagem de David McVicar. A praça e o vilarejo foram substituídos por um tablado preto que ficava girando lentamente no palco, com cadeiras em volta, que eram reposicionadas de acordo com a movimentação cênica (veja a figura acima). Todos de preto, tudo escuro. O caráter dramático, opressor, estava lá, mas ele parecia vir mais de um confinamento físico do que de uma opressão pela sociedade rústica, pela natureza humana. Em tempos em que tanto se fala na necessidade de conquistar novos públicos, o vilarejo só estava presente na cabeça de quem já conhecia a ópera. Pela primeira vez testemunhei vaias no Met. Mesmo após um Pagliacci bem montado, a equipe cênica foi recebida com numerosos e sonoros ‘bus’.
Marcelo Álvarez, com carreira já consolidada em papéis líricos, mostrou que sua competência se estende aos papéis dramáticos: transformou-se em Turiddu, foi sensível, dramático, intenso. Embora ótima cantora e impecável cenicamente, Eva-Maria Westbroek, com seu vibrato um tanto pesado, me convenceu menos como Santuzza.
Apenas dois anos mais jovem que a Cavalleria, Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo, se passa em um vilarejo na Calábria, durante o turnê de uma trupe de commedia dell’arte. O ciumento Canio, o palhaço, descobre que sua jovem esposa, Nedda, o está traindo com um morador local. Mesmo desesperado, na célebre ária “Vesti la giubba”, ele veste a sua roupa de palhaço e precisa atuar, pois o povo paga e quer rir. Marcelo Álvarez, em sua principal ária como Canio, demonstrou sensibilidade e profundidade em comovente interpretação. No segundo ato ocorre o teatro dentro do teatro, quando os palhaços se apresentam. Comédia e vida se confundem; Canio mata Nedda e seu amante, Silvio. 
É o Prólogo, geralmente cantado por Tonio, um dos membros da trupe, que dá início à ópera -- ou à commedia. Ele adverte que o artista é um um ser humano e suas lágrimas, verdadeiras. No final, após Canio matar Nedda, o mesmo Tonio anuncia “La commedia è finita!”. Criou-se a tradição de Canio, após dois assassinatos, carregado de dramaticidade, fazer o anúncio final. Porém o Met optou por retomar a versão original e deixar a Tonio o encargo de decretar o fim. Do ponto de vista do enredo, nada mais lógico: ele anunciou o início e também anuncia o fim. Do ponto de vista da dramaticidade, pelo menos no dia 14, no Met, é inegável que a fala, geralmente bombástica vinda do tenor, perdeu muito o peso. Saiu-se bem, no Prólogo e como Tonio, o barítono George Gagnidze. A estrela da noite foi Patricia Racette. Com voz limpa, clara e bom desempenho dramático, deu vida a uma Nedda com personalidade e força para negar-se, até a morte, a revelar o nome do amante. Mesmo com uma ótima Nedda e com o Silvio de Locas Meachem, do qual não há o que reclamar, não foi repetido, no dueto entre Nedda e Silvio, o encantamento mágico que ocorreu, no ano passado, no Theatro Municipal de São Paulo, quando o dueto foi protagonizado por Inva Mula e David Luciano. Aquilo foi pura poesia, uma sintonia inexplicável, rara de se ver.
A eficiente montagem de Pagliacci foi digna de McVicar, um dos grandes diretores da atualidade. Mesmo em Cavalleria, apesar da produção inadequada, era possível admirar o trabalho do diretor nas movimentações cênicas, na interação entre os cantores.
Finalmente recomendo ao leitor que não se contente com as minhas palavras e vá conferir, pessoalmente, essa dobradinha nos cinemas. Só ler sobre a ópera de nada vale, ela é para ser vista e vivida. Um ótimo programa para a tarde de sábado.
Fabiana Crepaldi.

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