10 CONCERTOS PARA PIANO PARA OUVIR ANTES DE MORRER. ARTIGO DE FREDERICO TOSCANO NO BLOG DE ÓPERA & BALLET.

A receptividade ao post que apresenta 15 óperas para ouvir antes de morrer me incentivou a indicar, nesta nova lista, 10 grandes concertos para piano da história da música que representam bem este tipo de composição, tão popular e presente na produção de muitos mestres. Assim como no tópico sobre óperas, busquei indicar apenas um concerto por compositor, o que foi extremamente difícil nos casos de Mozart e Beethoven, autores de várias obras-primas para piano e orquestra que revolucionaram o gênero e serviram de referência para as futuras gerações de compositores. Também esclareço que esta lista tem apenas o propósito de servir como um roteiro básico, um ponto de partida para se explorar o inesgotável acervo disponível, não se tratando necessariamente das obras mais belas do repertório – embora, naturalmente, estejam entre elas. Dispostos em ordem cronológica de composição, foram selecionados os seguintes concertos:

[1] WOLFGANG AMADEUS MOZART (1756-1791)

Concerto para piano nº 21 em Dó maior, KV 467 (1785)

Composto em 1785, o concerto em Dó maior, KV 467, sucedeu, com um intervalo de menos de um mês, o impressionante concerto em Ré menor, KV 466. Embora seja atualmente um dos concertos mais populares de Mozart, principalmente devido ao seu segundo movimento, não gozou, quando de sua composição, da aprovação de seu pai, que o classificou como “surpreendentemente difícil”, tanto no que lhe diz respeito à execução quanto à linguagem. Obra brilhante e de vivos contrastes internos, neste concerto Mozart parece transportar abertamente para o gênero instrumental muito da dramaticidade operística que dominava com maestria. Apesar disso, tanto neste concerto, quanto no seu precedente, e no concerto em Lá maior, K. 488, que o sucedeu, Mozart reitera esse lado abstrato da linguagem musical, que, por não querer significar nada além do que ela própria, conduz às reflexões mais elevadas e induz a transcendência. O concerto ganhou o apelido “Elvira Madigan” em 1967 após a sua utilização no filme sueco de mesmo nome, que trata da trágica morte da trapezista Edvig Jensen (1867-1889), assassinada pelo seu amante. O Andante popularizado pelo filme (vídeo) é marcado por uma cantilena, que exprime uma serena felicidade sempre ameaçada por um sentimento de melancolia, mas que logo se dissipa e dá lugar a uma paz sem paralelo na música.
Gravação indicada: Serkin / London Symphony Orchestra & Abbado [DG]

[2] LUDWIG VAN BEETHOVEN (1770-1827)

Concerto para piano nº 5 em Mi bemol maior, Op. 73 (1811)

É o último concerto para piano escrito por Beethoven. O subtítulo “Imperador”, como hoje é conhecido o concerto, não foi dado pelo compositor, mas por seu editor em Londres. Beethoven, na verdade, nunca teve simpatia por imperadores. Vemos isso, por exemplo, na dedicatória da sua terceira sinfonia, hoje conhecida como “Heroica”, que se chamava, inicialmente, “Sinfonia grande, intitolata Bonaparte”. Foi composta em homenagem a Napoleão, na época em que ele lutava contra os impérios europeus e incorporava os ideais da Revolução Francesa. Mas, quando o general se autoproclamou imperador, o inconformado Beethoven apagou a dedicatória com tanta força que acabou rasgando o papel. Mais tarde, Beethoven a renomeou como “Sinfonia eroica, composta per festeggiare Il sovvenire d’un grand’uomo”. Com o Concerto nº 5, Beethoven conseguiu aliar grandiosidade, virtuosismo e intimidade em uma única obra. Nele, o piano é elevado ao posto de grande participante da cena, ao invés de ter de se confrontar com a orquestra o tempo todo. No início do primeiro movimento (vídeo), tão logo a orquestra ataca o primeiro acorde, o piano a interrompe para executar uma breve cadência. Deixando claro que seu papel é o de protagonista, esse atrevimento do solista se repete ainda duas vezes quando ele finalmente cede lugar à orquestra.
Gravação indicada: Michelangeli / Wiener Symphoniker & Giulini [DG]


[3] FRYDERYK FRANCISZEK CHOPIN (1810-1849)

Concerto para piano nº 1 em Mi menor, Op. 11 (1830)

Os dois concertos para piano e orquestra de Chopin são obras da sua juventude. O primeiro a ser publicado foi executado pela primeira vez no último dos recitais dados por Chopin no Teatro Nacional de Varsóvia, em outubro de 1830. Com ele o compositor despediu-se de sua terra, pois Chopin jamais voltou à Polônia. Sepultado em Paris, só o coração do artista foi transportado para a catedral de Varsóvia. Os concertos de Chopin ocupam um lugar de exceção na história desse gênero musical, enquanto afastam-se do modelo ideal criado e consagrado por Mozart. Nos concertos mozartianos a orquestra e o instrumento solista estabelecem um engenhoso diálogo. Chopin limita consideravelmente o papel da orquestra que, praticamente, apenas introduz os temas e interliga os episódios, os quais serão desenvolvidos pelo piano. A forte personalidade artística de Chopin manifesta-se já nessas primeiras obras, pelo encanto de suas melodias. O Romanze-Larghetto (vídeo) tem o clima de um noturno. Sobre um delicado acompanhamento das cordas, com algumas intervenções suaves dos sopros, o piano canta uma melodia eminentemente lírica. A ornamentação caprichosa, tipicamente chopiniana, conforma o virtuosismo à expressão poética.
Gravação indicada: Argerich / Montreal Symphony Orchestra & Dutoit [Warner Classics]


[4] ROBERT ALEXANDER SCHUMANN (1810-1856)

Concerto para piano em Lá menor, Op. 54 (1845)

O que impressiona na leitura atenta dos escritos de Schumann é a sua prodigiosa riqueza em traços contraditórios. Assim André Boucourechliev, um dos biógrafos mais importantes do compositor, inicia seu principal estudo sobre a vida e obra do mestre. Boucourechliev nos mostra que a música de Schumann, mais que seus escritos, nos ajuda a compreendê-lo: “nela, a distinção entre a face clara e a face obscura de seu ser aparece com a evidência refulgente da obra de arte”. Se desde o início de sua carreira de compositor essas oposições já se revelam como traço fundamental de sua linguagem, o que dizer, então, de suas obras de maturidade? Basta ouvir os primeiros minutos deste que talvez seja o mais emblemático dos concertos românticos, para percebê-las com nitidez irrefutável: após alguns compassos de uma introdução brilhante, segue-se, exposto pela orquestra e depois imitado pelo piano, o tema principal da obra, de caráter intimista, que dominará pelo menos os dois primeiros movimentos, mais a transição do segundo para o terceiro movimentos. O concerto foi originalmente concebido como uma fantasia para piano e orquestra. A estreia se deu em dezembro de 1845, em Dresden, tendo como solista a esposa do compositor, a grande pianista Clara Schumann.
Gravação indicada: Lupu / London Symphony Orchestra & Previn [Decca]


[5] CHARLES-CAMILLE SAINT-SAËNS (1835-1921)

Concerto para piano nº 2 em Sol menor, Op. 22 (1868)

A versatilidade de Saint-Saëns foi algo incomum. Compositor reconhecido, pianista, organista, maestro, professor e editor musical, interessou-se também por diversos ramos do conhecimento científico como matemática, acústica, astronomia, arqueologia, botânica e filosofia. Sua intelectualidade multifacetada foi enriquecida por inúmeras viagens a lugares exóticos como Sri Lanka, Indochina, Ilhas Canárias e Egito. Conheceu também o Brasil e foi amigo de Henrique Oswald. Saint-Saëns se utilizava do seu amplo conhecimento para compor melodias simples e populares. Seu Concerto para piano nº 2 foi escrito em 17 dias, inspirado pela primavera parisiense de 1868. Sigismond Stojowski disse, com certa dose de humor, que a obra ia “de Bach a Offenbach”. Fazia referência à magnífica e solene introdução improvisatória do piano, organística, tão comum à sacralidade da música de Bach; e ao final do Concerto, uma agitada tarantella, dançante, próxima da natureza mundana do can-can de Offenbach. Anton Rubinstein, na sua crítica, salientara o conjunto diverso da obra destacando “elegância e ousadia, brilho deslumbrante e temperamento”, enquanto Franz Liszt afirmava que ela lhe agradava “singularmente”.
Gravação indicada: Rubinstein / Philadelphia Orchestra & Ormandy [RCA]


[6] EDVARD HAGERUP GRIEG (1843-1907)

Concerto para piano em Lá menor, Op. 16 (1868/1906)

Numa carta aos pais, escrita em Roma em 1870, Grieg narra o episódio em que ele mostra a Franz Liszt seu concerto para piano: “estávamos curiosos para ver se ele seria capaz de tocar meu concerto à primeira vista. Por mim, achava isso impossível. Liszt era de outra opinião. E pôs-se a tocar e, ao terminar, afastou-se e, em grandes passadas pela sala, vociferava: ‘Sol, Sol e não Sol sustenido!’ E então disse baixinho: ‘Smetana trouxe-me recentemente qualquer coisa nesse gênero…’. Por fim, devolvendo-me o trabalho, disse-me com aquele seu modo estranho e profundo: ‘Continue assim, é o que lhe digo; você possui as qualidades precisas; não se deixe amedrontar’”. O episódio revela pontos cruciais acerca da obra. Em primeiro lugar, a grande bravura técnica que demanda do intérprete. Em segundo, a inserção de Grieg em um braço do Romantismo que se volta para origens nacionais, em busca de novos materiais expressivos. O concerto foi composto quando Grieg tinha 24 anos, durante uma de suas viagens à Dinamarca, aonde costumava ir em busca de um clima mais ameno. Não é na inovação formal que Grieg se destaca, mas na riqueza de seu trabalho melódico e harmônico, além do vivo ritmo. Nesses parâmetros é que se observa sua relação com o folclore e, nela, seu próprio caminho de expressão pessoal.
Gravação indicada: Perahia / Bavarian RSO & Davis [Sony Classical]


[7] PYOTR ILYICH TCHAIKOVSKY (1840-1893)

Concerto para piano nº 1 em Si bemol menor, Op. 23 (1874)

Um toque imperativo de quatro trompas em uníssono, em quatro notas, contrapostas por poderosos acordes da orquestra preparam o ouvinte para o célebre tema da mais popular obra do gênero. Assim como Mozart, seu compositor predileto, Tchaikovsky considerava que a execução da parte solo de um concerto deveria superar em brilho e virtuosidade o solo instrumental de outros gêneros musicais. Tchaikovsky ampliou a definição do termo concerto – traduzível do italiano como acerto ou concordância – para “embate”. Em suas próprias palavras, o novo gênero, passado de dueto a duelo, reúne dois adversários: “de um lado a orquestra, com toda a sua força e inesgotável riqueza de colorido; de outro o piano, um adversário menor, porém forte de espírito, que sairá frequentemente vitorioso se estiver nas mãos de um talentoso executante”. Inspirado no virtuosismo do discípulo Sergei Taneyev, escreveu o Concerto nº 1 e dedicou-o ao pianista Nikolai Rubinstein, fundador do Conservatório de Moscou. Suas críticas, no entanto, foram tão severas que Tchaikovsky viria a trocar a dedicatória, redirecionada ao grande regente Hans von Bülow, discípulo e genro de Franz Liszt. Von Bülow estreou a obra em Boston, Estados Unidos, em 1875, e mais tarde na Alemanha, conferindo ao concerto o status de obra-prima cosmopolita. Sucesso absoluto em todo o mundo até hoje.
Gravação indicada: Pletnev / Philharmonia & Fedoseyev [Virgin Classics]


[8] JOHANNES BRAHMS (1833-1897)

Concerto para piano nº 2 em Si bemol maior, Op. 83 (1881)

Brahms compôs dois concertos para piano, separados por um intervalo de mais de 20 anos. O Concerto nº 2 foi planejado como uma grande sinfonia com piano, em quatro movimentos, e tem proporções inéditas. Os pianistas o consideram um dos mais difíceis do repertório, devido à profundidade de sua expressão e à complexidade da escrita. Em alguns momentos o pianista deve se impor com o máximo de sua potência, em outros atua com extrema delicadeza, limpidez de toque e discrição. O primeiro movimento marca-se por grandes contrastes emocionais e sutis combinações instrumentais. O segundo movimento é caracterizado como uma dança macabra. Em cartas a amigos, Brahms se referia a ele como um “pequeno movimento inocente, inofensivo ou ingênuo”. O terceiro movimento apresenta um segundo solista, o violoncelo, confiando-lhe a emocionante melodia do tema principal. Já o último movimento é um rondó-sonata, ora lembrando a leveza da música vienense, ora de sabor cigano, diferindo esse movimento dos anteriores e conclui o concerto em clima de muita luminosidade instrumental, entusiasmo e otimismo. Músicos contemporâneos de Brahms consagraram-no como figura emblemática da tradição musical alemã, em oposição à novidade então representada pelo wagnerismo.
Gravação indicada: Curzon / Wiener Philharmoniker & Knappertsbusch [Decca]


[9] SERGEI VASILIEVICH RACHMANINOFF (1873-1943)

Concerto para piano nº 2 em Dó menor, Op. 18 (1901)

Em 1892, Rachmaninoff completou seus estudos musicais. O primeiro concerto para piano recebeu duras críticas. A desastrosa execução de sua primeira sinfonia também lhe causou profundo desapontamento. Sua depressão levou-o ao consultório do Dr. Nicolai Dahl, que estudou com Jean-Martin Charcot, professor de Sigmund Freud. O tratamento envolvia hipnoterapia e psicoterapia. Em certa ocasião, o paciente contou algo que muito o atormentava: a promessa que fizera aos ingleses de executar um concerto para piano. Dahl durante a hipnose, sugestionava Rachmaninoff: “você vai começar a escrever o seu concerto, você trabalhará com grande facilidade, o seu concerto será uma grande obra”. A beleza e o fino acabamento da obra fizeram dela, além de exemplo de superação e êxito, um novo modelo estético de concerto romântico para piano. O impacto emocional do concerto, dedicado ao Dr. Dahl, entusiasmou autores de trilha para cinema a escreverem obras do gênero. O compositor, sabendo que Dahl também era violista amador, fez frequente uso destacado da viola na orquestração. Curiosamente, o Dr. Dahl tocou a obra em Beirute para onde emigrou em 1925. Ao fim da apresentação, o público, informado de que o homenageado estava na orquestra, clamou para que Dahl se levantasse para uma calorosa homenagem.
Gravação indicada: Zimerman / Boston Symphony Orchestra & Ozawa [DG]


[10] JOSEPH MAURICE RAVEL (1875-1937)

Concerto para piano em Sol maior, M. 83 (1931)

A escrita pianística de Ravel descende diretamente de Liszt e, com o início do século XX, enumera uma série de obras-primas, como Jeux d’eau (1901), sua Sonatina e as Valses nobles et sentimentales. Na suíte Le tombeau de Couperin (1917), o compositor homenageia amigos mortos na Primeira Guerra e, simultaneamente, reverencia a tradição musical francesa do século XVIII. Com essa obra Ravel interrompe sua produção para piano solo. O instrumento aparecerá somente em formações de câmara, com voz ou junto à orquestra, nos seus concertos. No Concerto em Sol maior, Ravel, segundo suas próprias declarações, referencia dois modelos citados acima: Mozart, quanto ao plano formal, e Saint-Saëns, pela valorização do efeito sonoro. De fato, o brilhantismo da orquestra, principalmente dos sopros, aqui se equipara ao virtuosismo do instrumento solista. O primeiro movimento tem caráter dançante. O tema inicial aparece no flautim sobre pizzicati dos violinos e das violas. Para o Adagio assai, em torno do qual se articula todo o concerto, Ravel inspirou-se no andamento lento do Quinteto com clarinete de Mozart. O Presto final transmite a alegria de uma festa campestre no país basco.
Gravação indicada: Zimerman / Cleveland Orchestra & Boulez [DG]


Frederico Toscano
FONTE: http://euterpe.blog.br/interpretacao-e-interpretes/10-concertos-para-piano-para-ouvir-antes-de-morrer

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