FALSTAFF : ARTE E COMÉDIA NO THEATRO SÃO PEDRO/SP. ARTIGO DE FABIANA CREPALDI NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.



Falstaff, última ópera de Giuseppe Verdi (1813-1901), com libretto do brilhante Arrigo Boito (1842-1918), estreou no Teatro Alla Scala de Milão em 9 de fevereiro de 1893 (acima, ilustração de Ettore Tito da cena final do segundo ato da produção de estréia). Com enredo baseado em As Alegres Comadres de Windsor, de WIlliam Shakespeare, a ópera conta a história de Sir John Falstaff, um Cavaleiro decadente que resolve conquistar, simultaneamente, duas senhoras casadas que, segundo ele, tinham as chaves dos cofres de seus maridos. 

Não é apenas o fato de ser a única comédia de Verdi que faz de Falstaff uma ópera singular e de extrema importância. Embora rica em melodias, na ópera inteira há apenas uma ária -- a de Fenton no terceiro ato. Além disso, Nannetta possui (também no terceiro ato) uma peça coral e Ford um monólogo (segundo ato). O personagem título, porém, só possui um pequeno trecho, que não pode ser considerado ária, usado diversas vezes como bis: "Quand'ero Paggio", que pode ser ouvido, no You Tube, com Victor Maurel, o Falstaff da estréia: https://www.youtube.com/watch?v=gX-e73R2Kvk . Além de ter abandonado a divisão em árias, arietas, ariosos, etc, a música e a ação são rápidas e contínuas, não há divisão menor do que cenas e atos. Quanto ao cantar, Verdi queria uma pronúncia bem articulada e ágil, o que utilizou como critério para a escolha do elenco. Sem cantores com essas características, segundo ele, seria a ópera se tornaria inviável.

Verdi e Boito em 1893

No São Pedro, o elenco homogêneo e de boa qualidade, bem dirigido por Stefano Vizzioli, soube fazer uma comédia. O conjunto funcionou bem, demonstrando agilidade e competência no canto e ótima atuação cênica. Não é por não ter árias que a ópera não exige dos cantores. Ao contrário, o complexo noneto do fim da segunda cena do primeiro ato, por exemplo, exige nove cantores de qualidade. Os nove do São Pedro deram conta do recado.

Verdi e Boito não caíram na tentação de expandir a história de amor entre Nannetta e Fenton. Presente durante toda a ópera dando um toque de lirismo ao caos, mas sempre interrompida, com beijos rápidos e escondidos, o casal não possui nenhum dueto. "Eu gosto de amor deles -- escreveu Boito. (...) Esse amor precisa avivar todas as coisas, e sempre em um modo que eu quase possa suprimir o dueto dos amantes(...). Mesmo sem o dueto essa parte será muito eficaz; será mesmo mais eficaz sem ele. (...) Eu queria, como açúcar espalhada sobre uma torta, polvilhar esse amor feliz sobre a comédia inteira sem que se acumulasse em ponto algum.
Não são, portanto, tão secundários os papéis de Nannetta e Fenton. Saiu-se bem o casal do Theatro São Pedro, formado por Roseane Soares e Anibal Mancini, ambos membros da Academia de Ópera do teatro, com destaque para a bela voz de Mancin.

A música, a orquestração, em Verdi, tem o caráter de transmitir, de forma quase descritiva, as sensações mais significativas. Isso não é exclusividade de Falstaff, mas fica aqui bem evidente. Um exemplo quase banal e que torna isso muito evidente é quando Ford vai tratar com Falstaff e oferece um saco de moedas. Não é necessário que haja um saquinho barulhento para que ouçamos o som das moedas: ele vem dos metais da orquestra. Nesse sentido, a estranha mala de notas que, na montagem de Pierluigi Vanelli, em cartaz no Theatro São Pedro, substitui o saco de moedas, se choca não só com o libretto, mas também com a música. Por outro lado, a mala tem o mérito de não fazer barulho, destacando o papel da orquestra.

Com quarteto, quinteto e noneto, é rica em música a segunda cena do primeiro ato. Ao quarteto feminino, originalmente sem acompanhamento, foi incorporado um acompanhamento de apoio apenas com as madeiras, extremamente ágil e leve, como o tagarelar das espertas comadres. Já o quinteto masculino, com tempos mais lentos, é bem mais pesado. Quanto quarteto e quinteto se juntam,  dando origem ao genial noneto, essas características são mantidas, homens e mulheres não se misturam.  

A Orquestra do Theatro São Pedro, sob a batuta de Silvio Veigas, soube dar agilidade e transparência à música de Verdi. 


Quem é Falstaff?

O personagem Falstaff aparece, em Shakespeare, primeiramente nos romances históricos Henrique IV (1 e 2) e, depois, embora com sua personalidade enfraquecida, em As Alegres Comadres de Windsor. O crítico literário Harold Bloom, segundo o qual o primeiro Falstaff e Hamlet são os personagens mais inteligentes de Shakespeare, tomou como uma ofensa pessoal o fato de Sheakespeare ter maltratado tanto seu Falstaff em Alegres Comadres.  
Sobre isso, a grande e saudosa crítica de teatro Barbara Heliodora escreveu no programa de Falstaff do Theatro Municipal de São Paulo (04/2014): 
"Fora de seu universo de mau guerreiro e bom aproveitador, a verdade é que o Falstaff de As Alegres Comadres de Windsor pode ter seus encantos, mas não se iguala ao das duas peças originais, pois fica mais tolo e menos esperto. O que nos leva, então, à sua terceira encarnação, que é como o Falstaff de Arrigo Boito e Giuseppe Verdi. O libretto enxuga a ação (...) para fazer a trama caber nas dimensões e no tom de uma ópera alegre e tão espirituosa quanto o Falstaff original se gabava de levar os outros a serem.
Na verdade, o que Boito fez foi mais que simplesmente enxugar As Alegres Comadres. Segundo Garry Wills em seu livro Shakespeare and Verdi in the Theater, "Boito sabia que trazer o espírito de Falstaff das peças históricas para o enredo de As Alegres Comadres iria requerer a criação de uma peça inteiramente nova, composta de muitos elementos." Esses elementos, ele os buscou em diversas fontes e situações, como, por exemplo, para a cena final, em Sonhos de Uma Noite de Verão (tanto na peça de Shakespeare quanto na música de Mendelssohn) e em As Bodas de Fígaro,de Mozart. Não só no que diz respeito à personalidade de Falstaff, mas, de modo geral, pode-se afirmar que o trabalho de Boito e Verdi enriqueceu consideravelmente e peça de Shakespeare. 

Nas montagens modernas predomina, com maior ou menor exagero, a caracterização de Falstaff como velho, gordo e ridículo. Gary Wills nos conta que "Boito e Verdi criticaram os esboços de aquarela feitos para o Falstaff operático como tendo demais cabelos brancos -- ele ainda deve ter sua virilidade". Wills, em seu livro já citado, critica exageros nas montagens que degradam demais a figura de Falstaff e argumenta que isso torna injustificáveis os ciúmes e a desconfiança de Ford. Nesse ponto, exageros à parte, ouso discordar de Wills. Os ciúmes de Ford não são uma atitude racional ou equilibrada. Além de uma atitude maníaca, que não necessita de motivo consistente, Ford é um ciumento convicto e, em seu célebre monólogo no fim do segundo ato, frases como "E depois dirão que um marido ciumento é um insensato!" ou ainda "Em sua mulher confiam os bobos." chegam a transparecer certo tom de vitória por -- segundo ele acreditava -- ter encontrado um motivo para incriminar sua esposa e justificar que sua desconfiança não era mera paranoia.  Um Falstaff digno de ser temido pelo marido mascararia esse aspecto. 
De fato, alguma virilidade Falstaff tem que ter. Isso, porém, não o impede de ter alguns fios de cabelos brancos, característica citada diversas vezes no libretto, juntamente com gordo e sujo. Também tem alguma dignidade, afinal, era um Cavaleiro, mesmo que decadente. Logo no primeiro ato, ao contar que havia recebido a carta de Falstaff, Alice diz "se eu me enfeitasse para entrar nos reais propósitos do diabo, seria promovida ao grau de Cavaleira". 
Saiu-se muito bem o barítono Rodolfo Giugliani como Falstaff no Theatro São Pedro. Quanto à sua caracterização, ele não era velho demais, nem gordo demais e nem ridículo demais. Porém, ele tinha um ar meio desleixado, abotoando os botões da camisa na casa errada, deixando um lado da camisa para dentro e outro para fora depois de ter ido "fazer-se belo" para encontrar Alice, etc. Concordo com um Falstaff de gosto duvidoso, sujo, mas vaidoso, e não largado. Enquanto faço essas observações, fico imaginando como deva ser difícil escolher uma forma de denegrir Falstaff sem cometer excessos inadequados, sem denegri-lo demais ou da forma errada. Em outras palavras, como é difícil descobrir quem é Falstaff!

Na ópera, Falstaff sofre dois golpes (na peça de Shakespeare, três). No primeiro, é atirado no rio Tamisa pela janela, dentro do cesto de roupas sujas. A segunda vez é quando aceita o convite para se vestir de Caçador Negro e comparecer à meia noite no Carvalho de Herne, na Floresta de Windsor.  


Um carvalho na Floresta de Windsor

O Caçador Negro, aqui, é uma referência a Herne, o Caçador, figura folclórica inglesa cuja primeira referência literária é justamente a de Shakespeare em As Alegres Comadres, Segundo conta, na peça, a Senhora Page (a Meg da ópera), "Um velho conto diz que Herne, o caçador, guarda campestre há muito tempo da floresta de Windsor, quando nos chega o inverno, à meia-noite anda ao redor do tronco de um carvalho, com chifres na cabeça, estraga as árvores, põe feitiço no gado, muda em sangue todo o leite das vacas e sacode por modo pavoroso uma corrente. 
Falar já ouviste sobre esse fantasma, como sabeis que nossos velhos crédulos e de cabeça fraca nos repetem como verdade certa o que souberam das outras gerações, sobre a figura de Herne, o guarda campestre."
Segundo a lenda, a fim de evitar punição e desonra, Herne teria se enforcado no carvalho após ter cometido séria falta. 
Propor a Falstaff que se fantasie de Herne carrega, portanto, um sentido maior do que torná-lo ridículo e colocar-lhe chifres. Ele é travestido no fantasma de alguém que cometeu graves faltas, é forçado a reconhecê-las e a delas se arrepender. 

Herne, o Caçador.

Acertadas as contas, uma fuga vem dar o tom da ópera e nos dizer o que é a vida e quem é o homem: 

Tutto nel mondo è burla.
L'uom è nato burlone,
Nel suo cervello ciurla 
Sempre la sua ragione.
Tutti gabbàti.

Com essa fuga bem executada, a dedicada equipe do Theatro São Pedro, que não brincar em serviço nem nas comédias, encerrou mais um ótimo espetáculo. Falstaff diz: "A arte está nesta máxima: roubar com garbo e no tempo certo." A equipe do São Pedro, respeitando os tempos, nos mostra que a arte se faz com trabalho e amor.
Fabiana Crepaldi

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